O Globo
Em livro, cientista político Leonardo
Avritzer lembra tentativa de golpe e alerta para permanência do extremismo:
“Democracia segue sendo um projeto contencioso”
A cada 15 anos, o Brasil esquece o que
aconteceu nos últimos 15 anos. A frase foi cunhada por Ivan Lessa antes do
surgimento da internet. Na era das redes sociais, há quem precise de apenas 15
minutos para perder a memória.
Na semana em que o 8 de Janeiro completou três anos, parte da elite dirigente fez uma opção pela amnésia. Os presidentes da Câmara e do Senado ignoraram a data. A oposição só se manifestou para pedir impunidade aos golpistas. No Supremo, o ministro Edson Fachin marcou um ato com exposição e rodas de debate. Dos dez juízes em atividade na Corte, foi o único a comparecer.
Relembrar os ataques à democracia brasileira é o mote de “O golpe bateu na trave”, do cientista político Leonardo Avritzer. Lançado no fim de 2025, o livro sustenta que a legalidade foi salva por pouco. E discute os fatores que mantêm o extremismo vivo entre nós.
Professor emérito da Universidade Federal de
Minas Gerais, Avritzer argumenta que a redemocratização do país não eliminou os
“bolsões autoritários” na sociedade e nas Forças Armadas. Eles produziram Jair
Bolsonaro, que ascendeu como porta-voz de militares inconformados com o fim da
ditadura.
A sucessão de crises políticas a partir de
2013 abriu espaço ao discurso radical do capitão. Ele se apropriou da revolta
com o establishment e investiu na imagem de homem simples, que defenderia o
povo de um sistema corrompido.
Avritzer lembra que o ex-presidente entrou em
conflito com o Supremo desde o início do governo. “Bolsonaro identificou que
era essa a instituição que ameaçava o seu projeto de poder e tentou
desconstruí-la”, afirma.
O cientista político diverge da visão,
repetida por alguns de seus colegas, de que o capitão teria sido um “bobo da
corte” porque terceirizou a gestão econômica e a negociação com o Congresso. “Ele
achava mais importante controlar a Abin e a Polícia Federal do que o Ministério
da Economia”, observa.
Avritzer afirma que as investigações
comprovaram o que ele descreve como quatro elementos de uma tentativa de golpe:
planejamento, designação de pessoal e recursos, intenção de romper a ordem
legal e organização de ações violentas. Para ele, o plano fracassou porque os
militares se dividiram e a sociedade formou a “coalizão antigolpista” que
faltou em 1964.
O professor descreve o 8 de Janeiro como “a ruptura
mais radical” com a concepção de ordem e desordem que orientou a cultura
política brasileira por um século. Ele diz que os extremistas foram inflamados
pelo discurso de Bolsonaro contra a urna eletrônica e se viam como
protagonistas de uma “insurreição de baixo para cima”. “Aquelas pessoas
julgavam que estavam destruindo as instituições políticas brasileiras ao
invadi-las, quebrar seus móveis e vandalizar suas obras”, constata.
O livro tropeça em erros factuais, como dizer que Bolsonaro foi expulso do Exército e que Fernando Henrique Cardoso teria pedido desfiliação do PSDB, o que nunca ocorreu. Mas faz um alerta importante ao sustentar que a condenação do capitão e dos generais golpistas não eliminou a ameaça do extremismo. “A democracia segue sendo um projeto contencioso no Brasil”, conclui o autor.

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