Correio Braziliense
Alagoano de Quebrangulo, Fiel
vivia em São Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador
de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico
Há exatamente 50 anos, num sábado, às 22 horas, um Dodge Dart parou em frente à casa do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato contínuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: “O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas”. Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com o macacão do operário morto. “Vocês o mataram! Vocês o mataram!”, gritou desesperada a esposa do operário metalúrgico morto em 17 de janeiro de 1976.
Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia na
capital paulista desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador
de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico, era prensista na Metal Arte,
no bairro da Mooca. Fora preso por dois agentes do DOI-Codi, o serviço de
inteligência do II Exército, na própria fábrica onde trabalhava, sob a acusação
de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte à sua
prisão, os órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manoel havia
se enforcado em sua cela com as próprias meias. Porém, de acordo com
testemunhas, quando estava preso, usava chinelos sem meias.
Quando Thereza e outros familiares
conseguiram a liberação do corpo para ser enterrado, verificou-se que
apresentava sinais evidentes de torturas, principalmente na região da testa,
nos pulsos e no pescoço. No entanto, o exame necroscópico solicitado pelo
delegado de polícia Orlando D. Jerônimo e assinado pelos legistas José Antônio
de Mello e José Henrique da Fonseca simplesmente confirmava a versão oficial do
suicídio. As circunstâncias de sua morte são muito semelhantes às de Alexandre
Vannucchi Leme (17/03/1973) e Vladimir Herzog (25/10/1975). A morte de Fiel
provocou o afastamento do general Ednardo d’Ávila Melo do comando do II
Exército, três dias após.
Em ação judicial movida pela família, a União
foi responsabilizada pela tortura e pelo assassinato. De acordo com um documento
confidencial encontrado nos arquivos do antigo Dops de São Paulo, seu crime
seria receber o jornal Voz Operária. Durante seu trabalho investigativo para
produção do livro A Casa da Vovó – Uma biografia do DOI-Codi (Alameda), o
jornalista Marcelo Godoy, em 19 de abril de 2016, entrevistou um dos
integrantes da equipe que sequestrou Fiel, o tenente Chico (nome fictício) da
Polícia Militar de São Paulo, que descreveu as circunstâncias do assassinato:
“Ele (Demétrio, o delegado que matou Fiel
Filho) trabalhava ali com o Calandra (Aparecido Laerte Calandra, delegado),
quem me falou foi o Pedro Mira (Pedro Mira Grancieri, policial civil), um filho
da puta. Entrou no interrogatório (Seção de Interrogatório), deu um soco na
barriga do Fiel e matou o Fiel. Não tinha nada a ver com nada, chegou lá e:
‘esse é o cara?’. E pohhh. E o Fiel começou a passar mal e morreu. Era um
negócio que não tinha de acontecer (….) E daí ficam cobrando o Fiel… ‘Mataram o
Fiel!’ Mataram mesmo… Um bosta daquele lá.”
Em nova entrevista (25 de abril de 2016),
também gravada por Godoy, o tenente Chico deu mais detalhes: “Era um sábado e
quem estava lá (no interrogatório) era o Mira, o Noburo (tenente da PM) e tinha
mais um”. Durante quase três anos Demétrio atuou no DOI. A morte de Manoel Fiel
Filho não foi apenas mais um crime político cometido nos porões da ditadura.
Foi um acontecimento-limite: a brutalidade ostensiva, de conhecimento público,
produziu rachaduras dentro do próprio regime.
Manter as aparências
O assassinato de Fiel não provocou a mesma
comoção política do caso Herzog, porém, consolidou a imagem da mentira
institucionalizada, da tortura como rotina e do assassinato como método do
regime militar. Com o afastamento do comandante do II Exército, produzira um
abalo no coração do regime. O governo Geisel vivia, naquele período, a
contradição estrutural do autoritarismo “controlado”: uma parte do poder falava
em distensão “lenta, gradual e segura”, enquanto a máquina da repressão –
sobretudo os setores mais duros – insistia em operar como se a “guerra interna”
fosse permanente e justificasse qualquer atrocidade.
A linha dura não era um detalhe do sistema:
era um núcleo autônomo, capaz de comprometer a própria estratégia do Planalto e
de impor ao país uma lógica de terror que escapava ao controle da cúpula
militar. Instalara-se um profundo racha entre o presidente Ernesto Geisel, que
antes autorizara a eliminação física (literalmente) de 11 membros do Comitê
Central do PCB desaparecidos, e os militares da linha dura, expondo uma fissura
que, com o tempo, seria um dos elementos da corrosão interna do regime.
Não fora um gesto humanitário a demissão do
comandante do II Exército. A morte de um trabalhador sob tortura escancarou o
caráter fascista do regime e tornou mais difícil manter a aparência de ordem, comprometendo
o projeto de distensão lenta e gradual de Geisel para absorver a espetacular
vitória eleitoral do MDB (partido de oposição) em 1974. Tratava-se de uma crise
de legitimidade e sustentação política.
Amanhã, 50 anos depois, em São Paulo, no
Sindinap, antiga sede do Sindicato dos Metalúrgicos, na Rua do Carmo, 171, na
Sé, a partir das 18h, a Fundação Astrojildo Pereira (FAP), diversas entidades
de direitos humanos e nove centrais sindicais realizarão uma grande homenagem a
Manoel Fiel Filho, com o lançamento da biografia Carrascos da Ditadura (Fundação
Astrojildo Pereira), de autoria do jornalista Jorge Oliveira, diretor do
documentário Perdão, Mister Fiel!, que também será exibido ao final do evento.
A Medalha Manoel Fiel Filho será entregue a veteranos sindicalistas e ativistas
de direitos humanos pelo Coletivo de Memória Democrática.

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