quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Mundo corre para dissociar-se do risco americano. Por Edward Luce

Valor Econômico |   Financial Times

Não há precedentes de que uma potência dominante abandone sua primazia, como Trump vem fazendo

Até recentemente, o mundo acreditava que uma dissociação entre EUA e China estava a caminho. O que ocorre agora, no entanto, é que a maioria dos países está correndo para dissociar-se dos riscos americanos. Como podem atestar o presidente do banco central dos EUA, Jay Powell ou a Dinamarca, um dos aliados mais leais dos EUA, tentar acalmar Donald Trump só te leva até certo ponto. Pode te ajudar a comprar tempo, mas não substitui a necessidade de proteção contra uma superpotência que saiu da linha. Estamos, portanto, nos primeiros estágios da aceleração do processo de redução da exposição a riscos dos EUA.

Buscar um distanciamento do poder hegemônico mundial é um processo doloroso, em especial se você é um aliado. Ainda assim, são justamente os amigos dos EUA os que precisam distanciar-se. O lugar deles ao sol dependia do mundo construído pelos EUA. O choque para os aliados europeus e asiáticos é, portanto, proporcionalmente maior. No entanto, à rejeição americana à “ordem internacional liberal” também é um choque - ainda que, em muitos aspectos, um choque agradável - para a China, seu principal adversário. A China agora está se candidatando a ser a principal fornecedora de bens públicos globais, inclusive de estabilidade.

À medida que líderes mundiais chegam a Davos, a maior parte das conversas gira em torno a como lidar com Trump, que pretende levar metade de seu gabinete ministerial. Mais discreta, a China estará lá para recolher os cacos. Nesse sentido, o momento é de soma zero. Uma perda para os EUA é um ganho para a China. Países do hemisfério americano, inclusive o Canadá, vêm se aproximando de Pequim. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, passará pela China antes de prosseguir para Davos. O rumo seguido por Carney é o mesmo do restante da diplomacia mundial.

Os países vêm reduzindo a exposição a riscos principalmente em duas áreas. A primeira é a econômica. Carney, também, mostra o caminho. Quase 75% das exportações canadenses vão para os EUA, uma proporção que eles pretendem reduzir para menos de 50%. Uma grande parte será redirecionada para a China e a Índia. O acerto, na semana passada, de um tratado de livre comércio entre a Europa e o Mercosul e o acordo do Reino Unido com a Índia, em 2025, são cocriações de Trump. O debate britânico sobre deixar o Brexit e se aproximar da União Europeia também se dá, em parte, por cortesia de Trump. Ele acaba estimulando conversas de todo tipo entre terceiros, que há um ano não ocorreriam. A Europa quer se aliar com o grupo transpacífico de países. O fato de a China não ser membro, mas querer entrar, e de os EUA terem se retirado do grupo no primeiro mandato de Trump, diz tudo.

Já no que se refere ao dólar, qualquer diversificação é muito mais difícil. Mas, o ataque, agora aberto, de Trump à independência do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) - incluindo a abertura de uma investigação penal contra seu presidente - também joga a favor disso. Não importa se Powell for ou não a julgamento (ou, menos provável ainda, se for condenado), os investidores podem aguardar por uma era de inflação mais alta nos EUA e de enfraquecimento do dólar. Qualquer um dos que substituir Powell será uma marionete de Trump. A era do dinheiro fácil nos EUA deve continuar existindo mesmo quando o boom da inteligência artificial já tiver perdido força.

O preço do ouro - historicamente a melhor proteção contra guerras e outras pragas - subiu mais de 70% desde que Trump assumiu o cargo em 2025. O ouro também passou a representar uma proporção cada vez maior das reservas dos bancos centrais pelo mundo, em detrimento do dólar. Até agora, nenhum investidor deixou de comprar títulos do Tesouro americano. Trump parece ignorar que os mercados são pelo menos tão importantes quanto o Fed na definição dos custos de captação. Grandes retiradas de capital estrangeiro poderiam rapidamente apagar os ganhos do dinheiro fácil obtidos com cortes de juros de curto prazo.

No mundo das finanças, livrar-se dos títulos do Tesouro dos EUA é o equivalente à opção nuclear. Por sua vez, a opção nuclear, em termos literais, também paira no horizonte, como proteção geoestratégica. Não passou despercebido o fato de Trump falar de forma amigável sobre a Coreia do Norte nuclear. Se a Venezuela fosse um Estado nuclear, Nicolás Maduro não estaria agora em uma prisão no Brooklyn.

Coreia do Sul, Alemanha, Austrália, Polônia e até o Canadá vêm tendo discussões internas, em maior ou menor grau, a respeito de se tornarem países com armas nucleares. Se Trump anexasse a Groenlândia, o Canadá consideraria isso seriamente. O enfraquecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desencadearia uma busca ainda maior do resto do Ocidente por novos arranjos de segurança. A Dinamarca agora vê as vantagens de ter algum tipo de guarda-chuva nuclear europeu como proteção.

Não há precedente histórico de uma potência dominante abandonar voluntariamente sua liderança, em vez de ser derrotada em guerra ou por declínio natural. Atender às exigências cada vez mais aleatórias de um colosso revisionista traz um custo de oportunidade, na comparação com a construção de sistemas alternativos. Os aliados dos EUA estão nesse ponto de inflexão, entre o passado e o futuro. Trump está tornando a escolha deles mais fácil.

Elevar o preço da proteção americana é uma coisa - e é até algo razoável. No entanto, nenhum cliente em sã consciência estaria disposto a pagar mais por um produto sobre cuja entrega passaram a duvidar. Trump vem oferecendo aos parceiros dos EUA um acordo que eles, ao contrário das analogias com a máfia, não têm como aceitar.

 

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