O Globo
O criminoso leva as armas consigo, mas os cartuchos deflagrados ficam no local e podem ser rastreados se estiverem marcados
Até que enfim a segurança pública, maior preocupação do brasileiro, passou a ser discutida nacionalmente — nem sempre, porém, em bases científicas. Fala-se muito no controle das armas, mas quase nada sobre munições, tratadas como aspecto secundário. No entanto, já em 1993, o senador e sociólogo norte-americano Daniel Patrick Moynihan defendia o aumento do preço das balas, lembrando que “armas não matam, balas matam” e ironizando o sofisma armamentista segundo o qual “quem mata são as pessoas”. É realista lembrar que armas sem munição perdem sua função letal.
Mais ainda: apreender munição é muito mais
fácil do que apreender armas. Diferentemente destas, que o criminoso leva
consigo, os cartuchos deflagrados ficam no local e podem ser rastreados se
estiverem marcados. Foi assim que se chegou aos policiais que assassinaram, com
21 tiros, a juíza Patrícia Acioli em 2011, em vingança por ela ter condenado
cerca de 60 PMs envolvidos em falsos autos de resistência. Chegou-se inclusive
ao mandante, o comandante do 7º Batalhão de Polícia Militar.
Um dos maiores estímulos ao assassinato é a
impunidade, em grande parte causada pela baixa taxa de esclarecimento desses
crimes. No Brasil, apenas 36% dos homicídios são elucidados, segundo o
Instituto Sou da Paz; na Alemanha, o índice chega a 96%.
Além da ignorância sobre a importância da
munição e da cumplicidade policial, pesa outro fator: o alto lucro. Na
Conferência da ONU sobre Controle de Armas, em 2001, como representante do Viva
Rio, consegui incluir na pauta a marcação da munição. Fui esmagado. O
embaixador chinês ironizou:
— Se marcarmos em chinês, vocês não
entenderão nada.
Meu assessor, Pablo Dreyfus, logo identificou
a razão da resistência: em 2000, a produção mundial de armas pequenas somou US$
2,8 bilhões; a de munições, US$ 4,6 bilhões. O lobby contra seu controle é
muito mais poderoso.
No debate sobre uma nova lei de armamento no
Congresso, defendi que a CBC marcasse toda a munição. A empresa alegou
inviabilidade técnica e econômica. Um ex-funcionário, indignado, mostrou-me
cartuchos da própria CBC, de 1950 e 1952, todos marcados com números e siglas
do Ministério da Guerra ou da Aeronáutica. Elio Gaspari publicou a informação,
gerando um escândalo no Congresso. Parlamentares mudaram seus votos,
contribuindo para a aprovação unânime do Estatuto do Desarmamento.
Ao contrário do caso Acioli, as balas que
mataram a vereadora Marielle Franco, embora marcadas, não puderam ser
rastreadas. A lei permite lotes de até 10 mil unidades, mas a CBC vendeu à
Polícia Federal um lote de 2.463.000 munições impossíveis de rastrear. A PF
repassou o lote às PMs, ambas violando a lei — sem consequências. A norma já é
falha: para rastreamento eficaz, os lotes deveriam ter no máximo mil unidades.
O Exército delegou à própria CBC o controle
das munições — pediu à raposa que cuidasse do galinheiro. A lei é insuficiente.
Só obriga a marcação da munição vendida às Forças Armadas e à polícia, apenas
23% do total. Os outros 77%, comprados por civis, não são marcados, por isso
não podem ser rastreados. Resolver isso é simples: basta um decreto do governo.
Mas, apesar das promessas, nada se faz.
*Antônio Rangel Bandeira, sociólogo e autor de
“Armas para quê?” (Editora Leya, 2019) e “Armas de fogo: proteção ou risco?”
(Viva Rio, 2005), foi consultor do Viva Rio e da ONU

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