domingo, 11 de janeiro de 2026

Não há crise no jogo jogado da política. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

De tensão e atritos vivem as forças políticas adversárias em ano eleitoral de disputa pelo poder. É normal

No veto à dosimetria, Lula deu recado ao eleitorado dele, e a oposição reagiu como esperado pela turma dela

O presidente da República deu recado ao eleitorado dele, e a oposição —aí incluídos aliados de ocasião— reagiu com o gesto que seus eleitores esperavam dela. E foi só isso que aconteceu no veto de Luiz Inácio da Silva (PT) ao projeto da dosimetria, seguido da promessa de derrubada no Congresso.

Não há crise nem ruptura à vista, apenas o jogo jogado da política em ano eleitoral. O desenho de conflagração imprime dramaticidade ao cenário, reforça torcidas, robustece análises, mas não traduz com exatidão a realidade.

Neste 2026 de disputa pelo poder, Lula precisa mais das ruas que do Parlamento. A recíproca é verdadeira: deputados e senadores adversários tampouco necessitam dele para falar às urnas. É cada um por si e a guerra de versões a serviço de todos.

Nada demais nas ausências dos presidentes da Câmara e do Senado no ato pela passagem dos três anos dos ataques golpistas. Ambos já haviam faltado à sanção da lei de isenção e descontos do Imposto de Renda. Pelo mesmo motivo: pertencem ao espectro ideológico contrário à reeleição e, na medida do possível, evitarão pôr azeitona na empada de Lula.

Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União Brasil) poderiam ter feito algo em alusão ao dia em que o Poder que presidem foi vandalizado, mas preferiram não se indispor com os patrocinadores da mudança na legislação para ajudar os condenados por tentativa de insurreição.

Executivo e Legislativo fizeram escolhas de cunho eleitoral, muito distantes do caráter de frente ampla em defesa da democracia que permeou o ambiente em 2022/2023.

No ponto de equilíbrio manteve-se o Supremo Tribunal Federal. Os ministros não foram ao Palácio, ativeram-se ao tema em pauta na solenidade própria e ficaram longe de um embate a respeito do qual serão provocados depois da provável derrubada do veto.

Prevalecendo o bom senso a partir daí, o STF aplicará a lei conforme ditar o Parlamento e, sobranceiro, deixará a política resolver suas querelas.

 

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