terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O cinema e a alma nacional. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Assim como o tetra de 1994 favoreceu FH, o cinema pode melhorar o humor nacional, a favor de Lula

O cinema nacional está lavando a nossa alma, tão machucada pela tentativa de golpe e por escândalos, privilégios, insegurança e desigualdade social, e não se pode desconsiderar o efeito político, e particularmente eleitoral, que o sucesso internacional de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto pode ter no Brasil. O “País do Futebol” é também o país do cinema.

Em seu livro O Improvável Presidente do Brasil, de 2013, Fernando Henrique admitiu que nunca deu a menor bola para futebol, mas virou torcedor obsessivo na campanha presidencial de 1994 e colheu os gols, ou louros, do tetracampeonato brasileiro do mesmo ano. Segundo ele, a Copa trouxe otimismo ao País e ajudou a impulsionar o Plano Real e, depois, sua eleição à Presidência.

“Num País havia tempo deprimido, todos se agarraram a essa prova de que o Brasil ainda era capaz de grandeza”, escreveu FH, como sociólogo e expresidente, sobre como sucessos fazem a alegria da massa e impactam em eleições. Igor Maciel, da Rádio Jornal (PE), me lembrou do livro, quando falávamos da euforia com os dois filmes, Fernanda Torres, Wagner Moura, Walter Salles e Kléber Mendonça Filho.

Se Copas do Mundo, Olimpíada, vôlei, skate, surf... e o cinema têm efeito político, tendem, por óbvio, a favorecer os presidentes de plantão. Que o diga o general-ditador Médici, que usou a vitória do Brasil na Copa de 1970, no México, como propaganda a seu favor.

Assim, o presidente Lula deve capitalizar o sucesso do cinema nacional, inclusive em fotos com os vitoriosos – que são, aliás, seus apoiadores. E tudo isso se torna mais forte pelo confronto entre ditadura e democracia e entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula. São fatos.

Ainda Estou Aqui e Agente Secreto trazem de volta o drama individual de um ex-deputado dedicado a Direitos Humanos e um professor universitário envolvido em projetos científicos, como sínteses da tragédia coletiva, num País que nunca virou a página da ditadura e acaba de condenar e prender um ex-presidente e oficiais generais por tentativa de resgatar o arbítrio, o autoritarismo.

Outra comparação é que Lula-3 não é uma maravilha na área da Cultura, mas nada poderia ser pior do que na era Bolsonaro, com Roberto Alvim, capaz de fazer apologia ao nazismo, Hitler e Goebbels, e depois Mário Frias, que posava para fotos, não com textos, partituras, pinturas, só com fuzis.

E o Oscar vem aí, com Lula na torcida. Não custa lembrar, porém, que a Copa criou o clima, mas quem elegeu FH em 1994 foi o Plano Real e Lula não tem nada perto de um Plano Real, além de estar cercado de interrogações.

 

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