O Globo
Eleitor se diz cansado da polarização, mas
não vê alguém capaz de fazê-lo dar um voto de confiança na mudança e acaba
votando no que lhe parece menos pior
Terceira via é uma expressão candidatíssima a disputar o pódio das mais desgastadas e desmoralizadas do léxico da política brasileira. A última vez em que bateu na trave a possibilidade de uma candidatura nascer pequena e abalar a polarização foi em 2014, quando Marina Silva ascendeu na esteira da morte trágica de Eduardo Campos e teve chance real de ir ao segundo turno, até ser abatida por um ataque pesado do PT, principalmente, mas também do PSDB de Aécio Neves, em menor grau.
A eleição de 2018 teve dinâmica diferente de
todas as anteriores. Não é que Jair Bolsonaro tenha sido uma terceira via a
furar a alternância PT-PSDB fundada em 1994. Ele demoliu a ordem política
vigente se apresentando como candidato antipolítica e deslocou um dos polos
para a extrema direita.
Em 2022, o apelo à necessidade de quebrar
essa então nova polarização com Simone Tebet ou Ciro Gomes se mostrou limitada
a um pequeno contingente do eleitorado, e o resultado foi uma eleição apertada.
Quatro anos depois, as pesquisas mostram que,
na teoria, a tal terceira via é uma ideia sedutora. Levantamento da Quaest de
novembro do ano passado mostra que 24% dos eleitores prefeririam votar num
candidato que não fosse nem Lula nem indicado por Bolsonaro. Levantamentos ao
longo de todo o ano passado mostravam baixa adesão a um candidato que tivesse
como plataforma indulto ao ex-presidente, condenado na trama golpista.
Diante de tantas pistas de que a dicotomia já
deu o que tinha de dar, o que explica, então, os levantamentos feitos desde o
anúncio da escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai mostrarem que não demorou para
que a maioria do eleitorado anti-Lula migrasse para o voto no senador?
É esse paradoxo entre a rejeição teórica à
polarização e a dificuldade prática de emplacar um nome fora dela que põe em
perspectiva e cerca de ceticismo a movimentação de Gilberto Kassab nesta semana
para oferecer não um, mas três pré-candidatos à tal terceira via.
A primeira dúvida recai sobre a intenção
dele. Todas as entrevistas que ele deu desde o anúncio da filiação de Ronaldo
Caiado a seu já povoado partido são na direção de Tarcísio de Freitas. É como
se ele acenasse ao governador de São Paulo para atiçá-lo a romper a lealdade
(que chegou a chamar de submissão) ao padrinho.
Mas nada indica que Tarcísio seja capaz de
romper o vínculo. Pelo contrário: é constrangedor ver o governador do estado
mais rico e mais populoso do país ceder a cobranças cada vez mais ostensivas e
desrespeitosas para manifestar todos os dias essa lealdade, a ponto de ser
praticamente conduzido coercivamente a visitar Bolsonaro, escoltado por Carlos
nas entrevistas na saída da Papudinha.
Diante do caminho que se estreita para aquele
que detinha a preferência da classe política e dos setores empresariais e
financeiros, Kassab se antecipa para tentar embaralhar o jogo e viabilizar um
nome alternativo ao herdeiro do clã no segundo turno.
Tanto ele quanto Lula parecem fazer o mesmo
cálculo: há muito desgaste à frente no caminho de Flávio, de sua conhecida
falta de traquejo em campanhas e debates aos telhados de vidro de casos como as
rachadinhas, franquia de loja de chocolates e compra de mansão com dinheiro
vivo.
Até aqui, as pesquisas confirmam o paradoxo
essencial: o eleitor está cansado da disputa entre lulopetismo e bolsonarismo,
mas não enxerga nas opções na gôndola alguém capaz de fazê-lo dar um voto que
seja de confiança na mudança e não ser movido pelo medo da vitória de quem mais
rejeita, antecipando o escrutínio do “menos pior” já para o primeiro turno.
Se a campanha for toda pautada pelos temas do
passado, como tentativa de golpe, escândalos petistas pretéritos, INSS e que
tais, mais difícil será para o eleitor condicionado a só enxergar duas opções
olhar para outro postulante e ouvir o que ele tem a dizer.

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