sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O paradoxo da tal terceira via. Por Vera Magalhães

O Globo

Eleitor se diz cansado da polarização, mas não vê alguém capaz de fazê-lo dar um voto de confiança na mudança e acaba votando no que lhe parece menos pior

Terceira via é uma expressão candidatíssima a disputar o pódio das mais desgastadas e desmoralizadas do léxico da política brasileira. A última vez em que bateu na trave a possibilidade de uma candidatura nascer pequena e abalar a polarização foi em 2014, quando Marina Silva ascendeu na esteira da morte trágica de Eduardo Campos e teve chance real de ir ao segundo turno, até ser abatida por um ataque pesado do PT, principalmente, mas também do PSDB de Aécio Neves, em menor grau.

A eleição de 2018 teve dinâmica diferente de todas as anteriores. Não é que Jair Bolsonaro tenha sido uma terceira via a furar a alternância PT-PSDB fundada em 1994. Ele demoliu a ordem política vigente se apresentando como candidato antipolítica e deslocou um dos polos para a extrema direita.

Em 2022, o apelo à necessidade de quebrar essa então nova polarização com Simone Tebet ou Ciro Gomes se mostrou limitada a um pequeno contingente do eleitorado, e o resultado foi uma eleição apertada.

Quatro anos depois, as pesquisas mostram que, na teoria, a tal terceira via é uma ideia sedutora. Levantamento da Quaest de novembro do ano passado mostra que 24% dos eleitores prefeririam votar num candidato que não fosse nem Lula nem indicado por Bolsonaro. Levantamentos ao longo de todo o ano passado mostravam baixa adesão a um candidato que tivesse como plataforma indulto ao ex-presidente, condenado na trama golpista.

Diante de tantas pistas de que a dicotomia já deu o que tinha de dar, o que explica, então, os levantamentos feitos desde o anúncio da escolha de Flávio Bolsonaro pelo pai mostrarem que não demorou para que a maioria do eleitorado anti-Lula migrasse para o voto no senador?

É esse paradoxo entre a rejeição teórica à polarização e a dificuldade prática de emplacar um nome fora dela que põe em perspectiva e cerca de ceticismo a movimentação de Gilberto Kassab nesta semana para oferecer não um, mas três pré-candidatos à tal terceira via.

A primeira dúvida recai sobre a intenção dele. Todas as entrevistas que ele deu desde o anúncio da filiação de Ronaldo Caiado a seu já povoado partido são na direção de Tarcísio de Freitas. É como se ele acenasse ao governador de São Paulo para atiçá-lo a romper a lealdade (que chegou a chamar de submissão) ao padrinho.

Mas nada indica que Tarcísio seja capaz de romper o vínculo. Pelo contrário: é constrangedor ver o governador do estado mais rico e mais populoso do país ceder a cobranças cada vez mais ostensivas e desrespeitosas para manifestar todos os dias essa lealdade, a ponto de ser praticamente conduzido coercivamente a visitar Bolsonaro, escoltado por Carlos nas entrevistas na saída da Papudinha.

Diante do caminho que se estreita para aquele que detinha a preferência da classe política e dos setores empresariais e financeiros, Kassab se antecipa para tentar embaralhar o jogo e viabilizar um nome alternativo ao herdeiro do clã no segundo turno.

Tanto ele quanto Lula parecem fazer o mesmo cálculo: há muito desgaste à frente no caminho de Flávio, de sua conhecida falta de traquejo em campanhas e debates aos telhados de vidro de casos como as rachadinhas, franquia de loja de chocolates e compra de mansão com dinheiro vivo.

Até aqui, as pesquisas confirmam o paradoxo essencial: o eleitor está cansado da disputa entre lulopetismo e bolsonarismo, mas não enxerga nas opções na gôndola alguém capaz de fazê-lo dar um voto que seja de confiança na mudança e não ser movido pelo medo da vitória de quem mais rejeita, antecipando o escrutínio do “menos pior” já para o primeiro turno.

Se a campanha for toda pautada pelos temas do passado, como tentativa de golpe, escândalos petistas pretéritos, INSS e que tais, mais difícil será para o eleitor condicionado a só enxergar duas opções olhar para outro postulante e ouvir o que ele tem a dizer.

 

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