terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O populismo, esse inimigo da Democracia. Por Ivan Alves Filho

Com as dificuldades apresentadas atualmente pela concepção marxista, houve um empobrecimento — e eu diria, até: um abastardamento — da prática política no campo democrático e progressista. No Brasil e em outras partes do mundo. Um dos sintomas disso transparece claramente no crescimento das propostas autoritárias e aventureiras, no vácuo ou no recuo daquelas formuladas antes com base no chamado pensamento crítico. Oportunistas de todo o tipo se unem hoje. O populismo —  esse outro nome do fascismo hoje nas Américas e em outros cantos — é uma prova suplementar disso. O ataque do governo dos Estados Unidos à Venezuela, com o consequente sequestro de Nicolás Maduro por um comando enviado por Donald Trump, aponta, inclusive, para um provável acordo entre o governo norte-americano e o governo venezuelano para entregar o ditador.  

Isso, no plano da política. Mas também no plano da economia o populismo apronta das suas e como. Os populistas propagam, por exemplo, que a contradição principal se dá entre empresa privada e empresa estatal. Trata-se de um primarismo, evidentemente, mas que não deixa de ser significativo (a mediocridade sempre o é): afinal, a empresa estatal é parte integrante da tentativa de perpetuação populista e de suas práticas corruptas no poder. Ou seja, é a base material da dominação burocrática. Um grande exemplo disso se encontra no expansionismo dos ocupantes do poder na China, adquirindo plantações de soja no Brasil, especialmente no estado do Mato Grosso. A estatal como base para a expansão burocrático-imperialista. 

A contradição se dá entre capital e interesse coletivo, sempre. O resto é uma manobra diversionista. O caráter público de uma propriedade não é dado pela folha de papel, que aceita tudo, aliás; porém, pelo caráter da gestão. E uma estatal em regime capitalista ocupa um lugar na economia que não seduz o capitalista. Fundamentalmente, a empresa estatal vem cumprir duas funções. Por um lado, devido à existência de áreas pouco lucrativas, o capital não privado não demonstra interesse em investir nelas. Por outro, por envolver investimentos tão vultosos, justamente, é preciso recorrer ao capital público, ainda que para preparar o caminho para futuros lucros capitalistas. Exemplo disso é dado pelas obras de infraestrutura, que vão permitir o escoamento das mercadorias produzidas por fábricas privadas. O nome disso é Capitalismo Monopolista de Estado (CME), nunca é demais lembrar. 

A vida demonstra que a própria economia popular vem buscando saídas, daí o alastramento das cooperativas, do trabalho por conta própria, da economia camponesa também. Vale dizer, a real socialização pressupõe uma participação cada vez maior dos setores da sociedade na gestão das unidades produtivas, o que só se faz com Democracia. Pois para se ter uma democracia econômica é preciso recorrer à democracia política e esta, por seu turno, só tende a ganhar com o aprofundamento da democracia econômica, já que ela empodera as massas ao reduzir a exploração.  

Ou seja, a Democracia é um conjunto, onde todas as peças estão interligadas, reforçando-se mutuamente. 

Decididamente, os populistas e/ou fascistas se entendem. Fingem muito bem haver uma polarização entre eles, mas se entendem perfeitamente. Que a Venezuela sirva de exemplo, sobretudo para a América Latina. Nada de ilusões: o que fascistas e/ou populistas não admitem é a existência de um povo dono do seu destino, administrando aquilo que ele mesmo produz. O que os autoritários de todos os matizes abominam mesmo é a Democracia no sentido mais amplo do termo. O historiador Eric Hobsbawm, em suas memórias, percebeu a importância de marxistas e liberais se entenderem, já que dividiam os mesmos valores civilizatórios. Georgi Dimitrov, o dirigente operário e comunista búlgaro da III Internacional, feito prisioneiro por Adolf Hitler e sua camarilha, levantava também com muita acuidade essa questão. 

Acredito que o Campo Democrático tenha muitas lutas pela frente. Será árduo, mas não há outro caminho. A defesa da Frente Ampla e da coexistência pacífica entre os povos é um porto seguro ou um sólido ponto de partida para todo aquele que se contrapõe à Barbárie

*Ivan Alves Filho, historiador.

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