terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Protestos no Irã alimentam esperança

Por O Globo

Aiatolás voltam a reprimir oposição com violência, mas padecem de fraquezas internas e externas

Não é a primeira vez que a teocracia iraniana é convulsionada por protestos populares. Em 2009, manifestações estudantis contestaram por meses o resultado de eleições, na mobilização conhecida como Movimento Verde. Em 2012, 2017, 2018 e 2019, crises resultantes de alta do câmbio, dos combustíveis e outros fatores econômicos levaram multidões às ruas de Teerã. Em 2021, regiões do interior foram sacudidas em razão da falta de água. Em 2022, a morte da jovem Mahsa Amini pela “polícia da moralidade” desencadeou uma rebelião em defesa do direito de mulheres e minorias. Há duas semanas, novas manifestações eclodiram a partir da revolta de pequenos comerciantes com o naufrágio do rial, a moeda iraniana. Todos esses protestos despertaram a mesma reação do regime dos aiatolás: repressão violenta, centenas de mortos, milhares de detidos e torturados nas masmorras. E a teocracia se manteve no poder, praticamente intacta.

A situação está longe de definida, mas desta vez alguns fatores alimentam nos opositores a esperança de um desfecho diferente. Primeiro, a revolta se espalha por toda a sociedade. Houve manifestações em pelo menos 340 localidades de todas as 31 províncias. A inflação passou de 40% no ano passado, o valor do rial caiu mais da metade, e as condições financeiras têm se deteriorado mesmo para quem tinha vida confortável. Há racionamento de água e luz, além dos cortes de comunicações promovidos pelo governo para impedir a organização dos protestos. Grupos avessos à ação política, como grandes comerciantes, hesitam sobre continuar alheios e inertes. “A questão não é se o sistema está sob tensão, mas se mantém a coerência necessária a sobreviver”, escreveu o historiador iraniano-americano Abbas Milani. “Os próprios grupos sociais que ajudaram a colocar no poder o regime religioso se tornaram seus principais opositores.”

Segundo, o Irã está mais fraco no cenário externo. Depois dos ataques terroristas do 7 de Outubro, a força iraniana no Oriente Médio foi dizimada pela reação israelense ao Hamas em Gaza, ao Hezbollah no Líbano, aos houthis no Iêmen e ao próprio Irã, onde a Guarda Revolucionária sofreu baixas na liderança, além de as instalações militares e o programa nuclear terem sido devastados com a ajuda dos Estados Unidos. Na Síria, sem apoio do Hezbollah, o governo caiu e deu lugar a uma gestão que tem se aproximado do Ocidente. O proverbial “eixo da resistência” de que os aiatolás se vangloriavam se revelou, na prática, apenas propaganda e ilusão. Resistente a abrir suas instalações nucleares a inspeções, o Irã já não conta com a simpatia dos países europeus. Donald Trump, em declaração de mais efeito retórico que prático, afirmou estar disposto a intervir.

É verdade que a oposição está fragmentada, sem plano aparente para tomar o poder. Bandeiras da antiga monarquia foram vistas nos protestos, e Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, afirmou estar pronto para uma “transição responsável”. Os monarquistas, porém, não comandam a oposição. Em qualquer caso, a sociedade iraniana continuará em convulsão. Como afirmou à revista Variety o cineasta Jafar Panahi, preso diversas vezes pelo regime e candidato ao Oscar com “Foi apenas um acidente” (filmado escondido sob a teocracia): “Ninguém pode realmente prever quanto tempo vai levar. Pode ser um ano, um mês, uma semana. Mas um dia eles cairão”.

Governo não pode se esquivar das críticas à falta de transparência no PAC

Por O Globo

Em vez de suprir lacunas apontadas pela Transparência Brasil, as autoridades resolveram atacar a ONG

Reciclado de gestões petistas anteriores, o “novo” Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma das principais bandeiras empunhadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no terceiro mandato, com investimento proclamado em R$ 1,3 trilhão até o fim deste ano. O mínimo a esperar diante de tal cifra é que todas as informações estejam disponíveis. Uma nota técnica da Transparência Internacional-Brasil, porém, critica a falta de dados básicos sobre o programa. Em vez de tentar suprir as lacunas, o governo preferiu atacar a ONG.

As melhorias implementadas desde 2024, diz o comunicado, aumentaram a nota de transparência do PAC de modo pouco significativo (ela é 12, numa escala até 100). Entre os documentos que faltam estão estudos de viabilidade técnica e econômica, editais de licitação e relatórios de impacto ambiental. Para a ONG, o portal do PAC “carece de integração com outros sistemas, além de uma expansão de detalhamento de dados para todas as obras — em especial as executadas pelo próprio governo”. A opacidade aumenta o risco de fraude, corrupção e má gestão, além de impor obstáculos ao controle do impactos das iniciativas.

O governo reagiu mal à crítica. Desqualificou o levantamento e se referiu à Transparência como “ONG investigada pela PF”, sem dar detalhes. O presidente do Conselho da Transparência Internacional, François Valérian, enviou carta se queixando de “escalada de assédio” e “tentativa de silenciamento”. Disse não haver registro público de que a ONG seja investigada. “As organizações da sociedade civil devem poder realizar análises independentes e expressar opiniões críticas sem medo de represálias, assédio ou criminalização”, afirma a carta.

Não é a primeira vez que a Transparência é emparedada. Em 2024, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, determinou uma investigação sob a acusação de que a ONG atuava junto a procuradores objetivando gerir recursos de acordos de leniência da Operação Lava-Jato. Posteriormente, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o arquivamento da apuração, afirmando faltarem elementos mínimos. Não há nenhum indício de que seja alvo de outra investigação. Se for, por que não tornar público o inquérito? Ou só integrantes do governo têm acesso às informações, para usá-las quando lhes convém?

O novo PAC reúne mais de 23 mil obras com diferentes custos e graus de complexidade. Edições anteriores do programa sofreram críticas devido à falta de transparência, a danos socioambientais, a baixo envolvimento das comunidades afetadas e a casos de corrupção, atrasos e paralisações. Independentemente do histórico, não faria sentido ocultar dados sobre obras públicas. Faz menos sentido ainda intimidar o trabalho de organizações que fiscalizam a atuação do Estado. Nas democracias, qualquer governo está sujeito ao escrutínio público. Críticas deveriam ser entendidas como oportunidade para corrigir rumos, esclarecer a sociedade e evitar desperdício. Não para silenciar os críticos.

Cinema premiado e promissor

Por Folha de S. Paulo

Láureas conquistadas por 'O Agente Secreto' no Globo de Ouro se somam ao sucesso de 'Ainda Estou Aqui'

Outros exemplos mostram vigor da produção brasileira, como 'O Último Azul', de Gabriel Mascaro, que recebeu o Urso de Prata em Berlim

Ao receber dois prêmios de grande projeção na cerimônia do Globo Ouro, na noite de domingo (11) e madrugada desta segunda-feira (12), o filme "O Agente Secreto", dirigido por Kleber Mendonça Filho, e estrelado por Wagner Moura, levou novamente o cinema brasileiro a uma posição de destaque no cenário internacional.

Apenas uma vez, em 1999, com Central do Brasil, de Walter Salles Júnior, uma produção do país obteve a prestigiosa premiação, conquistando o troféu de melhor filme em língua não inglesa. Na mesma ocasião, Fernanda Montenegro, a atriz protagonista da obra, justamente indicada, terminou por não ser a escolhida.

Agora, Wagner Moura, melhor ator de drama, assegurou à cinematografia brasileira uma inédita dupla de láureas. O feito poderia ser visto como um ponto luminoso, desses que ao longo do tempo lembram a todos, inclusive a nós mesmos, que o Brasil é capaz de fazer ótimos filmes.

Não é, entretanto, apenas a isso que estamos assistindo: na edição de 2025 do Globo de Ouro, o cinema nacional também figurou entre os mais reconhecidos do mundo, com "Ainda Estou Aqui", também de Salles Júnior, indicado nas categorias de melhor filme de língua não inglesa e atriz de drama.

Venceu nesta última categoria com a atuação de Fernanda Torres, também nominada para o Oscar ao lado do longa —que conquistou o então inédito troféu de Hollywood como melhor filme internacional para o Brasil.

Esses êxitos em sequência já bastariam para sugerir que há algo de mais consistente acontecendo na produção cinematográfica brasileira. Há, contudo, mais evidências. Para ficar em dois casos, "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2025, e "Manas", de Mariana Brennand, tem merecido amplo reconhecimento e premiações em diversos eventos internacionais.

Essa fase iluminada tem sido marcada não apenas por prêmios relevantes, reconhecimento de críticos internacionais e exibições em outros continentes. Presenciamos, ainda, um bem-vindo encontro com o público, que reconhece seu país nas telas.

Fenômeno de bilheteria, "Ainda Estou Aqui" levou cerca de 6 milhões de pessoas aos cinemas. "O Agente Secreto" segue a mesma trajetória promissora. A atração de espectadores, que já se via em produções de apelo mais comercial, vai se afirmando em outras faixas, com renovado interesse dos mercado nacional e externo.

É fato que o cinema brasileiro tem atraído jovens profissionais e elevado sua qualidade média, no que diz respeito a recursos técnicos, ideias, temas, atuações, marketing e outros aspectos.

Para além do apoio de políticas públicas, multiplicam-se as co-produções com outros países e registram-se investimentos privados. Os resultados estão aí, nas telas, nos troféus e nas bilheterias. As perspectivas são, justificadamente, auspiciosas.

Defensoria Pública de SP, 20 anos

Por Folha de S. Paulo

Órgão essencial para garantir acesso à Justiça completa duas décadas em meio a demandas corporativistas

A Alesp aprovou projeto de expansão da Defensoria Pública paulista, com aumento dos vencimentos e criação de remunerações extras

A existência de um órgão responsável por assegurar de forma gratuita o acesso à Justiça aos mais pobres é essencial para que o direito à assistência jurídica seja de fato garantido a toda população. Essa é a função da Defensoria Pública, cujo órgão estadual em São Paulo completou duas décadas de sua implantação no último dia 9.

Antes, o serviço cabia a advogados públicos, alocados na Procuradoria-Geral do estado, e privados, por meio de convênios com a seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Dado o possível conflito de interesses, no primeiro caso, e a insuficiência no atendimento, no segundo, a criação da Defensoria fortaleceu a necessária autonomia institucional e ajudou a aperfeiçoar o sistema de acesso.

Passados 20 anos, porém, a entidade apresenta cobertura limitada, enquanto seus advogados parecem mais interessados em questões corporativistas.

Segundo a Cartografia da Defensoria Pública no Brasil de 2024, pesquisa feita por órgãos ligados à categoria, como seu Conselho Nacional, a Defensoria Pública de São Paulo está presente em 13,8% das comarcas do estado; em 86,4% delas, o atendimento é feito por advogados conveniados —11 estados, incluindo o Rio de Janeiro, oferecem atendimento integral em seu território.

Os defensores públicos mostram avidez em obter benesses que permitem superar o teto salarial dos servidores, os chamados penduricalhos, a exemplo do que fazem juízes e promotores. Em outubro de 2025, a associação da carreira em São Paulo cobrou rapidez no pagamento de auxílios referentes a acúmulo de processos desde 2018.

Dois meses antes, a Assembleia Legislativa do estado aprovou projeto de expansão da Defensoria, com abertura de 140 vagas, aumento dos vencimentos e criação de remunerações extras. Em dezembro, uma decisão interna da Defensoria facilitou a obtenção de quinquênios, licenças-prêmio e sexta-parte.

Parte da categoria e especialistas também criticam uma possível centralização de poder por meio do Grupo de Assessoramento em Demandas Estruturais (Gade), criado em agosto, que limitaria a autonomia da atuação de núcleos especiais em áreas como direitos humanos, moradia, saúde e violência policial.

Faria bem à Defensoria Pública paulista dedicar mais tempo à ampliação do atendimento à população e ao fortalecimento da independência, necessária para garantir direitos de grupos vulneráveis, do que em atender a anseios corporativistas.

O Supremo não é o foro do caso Master

Por O Estado de S. Paulo

No STF sob frágil base factual, caso Master transforma contradições processuais em problema institucional e testa limites do compromisso de Dias Toffoli com o princípio do juiz natural

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, defendeu-se perante o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), da acusação de que teria contratado influencers para atacar o Banco Central (BC). O argumento colide com a investigação da Polícia Federal (PF), que encontrou mensagens no celular apreendido de Vorcaro nas quais ele mesmo orienta a campanha contra a autoridade monetária.

Mas antes o problema fosse o contraste entre a versão levada pelo banqueiro ao STF e os indícios reunidos pela PF contra ele. Para o País, muito mais grave do que as incongruências da defesa do sr. Vorcaro é a naturalização do foro em que ela foi apresentada.

É preciso tornar a dizer com todas as letras: o caso Master não é da competência do Supremo. Vorcaro não tem foro especial por prerrogativa de função. Tampouco o possuem os executivos do Master e do Banco de Brasília ora sob investigação por suspeita de fraudes bilionárias na compra de ativos de baixíssima qualidade do banco privado. O julgamento dos possíveis crimes cometidos nessas transações é de competência da primeira instância da Justiça Federal. Nada autoriza a permanência do caso na mais alta Corte do País.

Ainda assim, o caso foi parar no STF a partir da alegação de que Vorcaro teria negociado a compra de um imóvel, por meio da composição de um fundo, com o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), este, sim, detentor de foro especial. Ora, trata-se de uma transação comercial alheia às operações Master sob escrutínio e que nem sequer chegou a ser concretizada. Mesmo que tivesse sido, a jurisprudência do próprio STF admite o desmembramento do feito, preservando na Corte apenas o que diga respeito à autoridade com prerrogativa de foro. Dias Toffoli, contudo, reteve integralmente o caso em seu gabinete.

A decisão do ministro torna-se ainda mais inquietante quando combinada com a imposição de alto grau de sigilo sobre os atos de investigação. O sigilo, nesse contexto, não protege o inquérito nem o interesse público: protege pessoas. A ascensão vertiginosa do Master nos últimos anos caminhou lado a lado com a construção de uma ampla rede de relações entre Vorcaro e autoridades dos mais altos escalões dos Três Poderes. Diante disso, não se pode condenar quem enxergue na opção pelo foro no STF e pela opacidade imposta aos autos por Dias Toffoli uma operação de acobertamento – suspeita que, por si só, já corrói a confiança da sociedade na imparcialidade da Corte.

O incômodo se intensifica diante de fatos que, embora laterais, reforçam a imprescindibilidade do afastamento de Dias Toffoli da condução das investigações. Como veio a público, dois irmãos do ministro venderam participação milionária num resort no Paraná a um fundo ligado à Reag Investimentos, gestora investigada por abrigar redes financeiras associadas ao Master e, ademais, investigada no âmbito da Operação Carbono Oculto, que alcançou os tentáculos do PCC no sistema financeiro formal.

O ministro não tem parte nos negócios dos irmãos, mas é frequentador do tal resort. A tisnar a aura de imparcialidade de Dias Toffoli, ainda há o episódio de sua viagem, em jatinho particular, ao lado do advogado de um executivo do Master investigado pela PF, para assistir a um jogo de futebol no exterior. Não se trata, aqui, de imputar ilegalidades a ninguém, mas de reconhecer que o conjunto dos fatos impõe um dever de prudência incompatível com a permanência do ministro à frente desse caso.

O princípio do juiz natural não é um formalismo menor. É um pilar do Estado de Direito que visa a impedir que eventuais réus escolham seus juízes ou que a jurisdição seja moldada por conveniências de ocasião. A Constituição e as leis estabelecem, de forma inequívoca, que cidadãos sem prerrogativa de foro devem ser investigados e processados na instância ordinária, segundo critérios gerais e impessoais. As exceções admitidas pelo STF são restritas e condicionadas à indissociabilidade de fatos ligados a quem tem o foro especial – requisitos a que o Master, definitivamente, não atende.

O STF pode e deve corrigir o rumo. Persistir no erro será assumir, sem disfarces, que princípios constitucionais podem ser relativizados quando estão em jogo interesses muito poderosos.

Veto cenográfico

Por O Estado de S. Paulo

Ao vetar PL da Dosimetria, Lula joga para a plateia, perde nova chance de pacificar a sociedade e se apropria do 8 de Janeiro, como se ele fosse o guardião exclusivo da democracia no País

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o terceiro aniversário do fatídico 8 de Janeiro para anunciar o veto ao chamado PL da Dosimetria, que ajusta critérios para a aplicação das penas aos artífices da tentativa de golpe e vândalos que invadiram as sedes dos Três Poderes em 2023. Mais do que isso, Lula transformou o veto numa encenação política. Ao fazê-lo, não altera substancialmente o destino do texto – cuja palavra final tende a ser dada pelo Congresso ou, mais adiante, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) –, mas arroga para si a posição de guardião exclusivo da democracia no País.

Foi assim que Lula perdeu uma oportunidade, ainda que modesta, de contribuir para a pacificação da sociedade. Seu gesto é, antes de tudo, cenográfico. Lula sabe que o Congresso dispõe de votos para derrubar o veto. Ato contínuo, um novo projeto de anistia “ampla e irrestrita” foi protocolado no Senado, enquanto parlamentares de oposição já se movimentaram para que o veto seja analisado ainda em janeiro. O presidente sabe também que o projeto não representa qualquer anistia aos crimes cometidos contra o Estado Democrático de Direito. Ainda assim, preferiu transformar a dosimetria penal em instrumento retórico, apropriando-se politicamente de uma data que deveria servir à reafirmação institucional, não à demarcação eleitoral.

Como este jornal já afirmou neste espaço, a Câmara dos Deputados fez a coisa certa ao aprovar o projeto. O texto não relativiza os ataques de 8 de janeiro de 2023 nem absolve culpados. O que faz é corrigir distorções evidentes na aplicação das penas, hoje marcadas por um voluntarismo judicial que tem produzido condenações desproporcionais, insegurança jurídica e uma perigosa ampliação do arbítrio. Democracias sólidas evitam punições exemplares ao sabor do clamor político.

Ao vetar o projeto, Lula não defende a democracia, e sim a sua conveniente e eleitoreira narrativa segundo a qual qualquer tentativa de discutir excessos punitivos equivale a condescendência com golpistas. Trata-se de uma simplificação oportunista, que empobrece o debate público e ignora um princípio elementar do Estado de Direito: a proporcionalidade da pena é condição da Justiça, não obstáculo à punição.

Enquanto o presidente da República posa para a plateia progressista, o Congresso – e especialmente o Centrão – joga um jogo bem mais pragmático. O veto virou moeda de troca. Derrubá-lo pode servir, de um lado, para emparedar o governo, em mais um capítulo do já longo enredo de derrotas do Executivo no Congresso. O embate mais uma vez expõe a fragilidade da estratégia presidencial, que transfere ao Legislativo a responsabilidade por corrigir o que ele próprio vetou por cálculo político.

De outro lado, o Centrão trabalha para pressionar o bolsonarismo, como se avisasse a Jair Bolsonaro de que livrá-lo de um longo tempo de prisão requer, em tese, uma compensação futura: a desistência da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro em favor de um nome mais competitivo para enfrentar o incumbente. Nesse tabuleiro, o ex-presidente não é o único alvo. O recado ecoa sobre seu entorno: uma candidatura da direita ancorada na preservação do comando do clã Bolsonaro hoje interessa menos a uma parcela considerável do Congresso do que um nome capaz de mudar o centro gravitacional da direita.

Mas voltemos a Lula. Ao insistir em transformar o 8 de Janeiro em ativo político permanente, ele e seus exegetas cometem o mesmo erro que dizem combater: instrumentalizam a democracia. O fortalecimento das instituições não se faz com gestos teatrais nem com vetos transitórios, mas com respeito às leis, autocontenção do Judiciário e maturidade do Executivo. A Câmara dos Deputados, ao corrigir excessos judiciais, fez sua parte. O presidente, ao vetar por conveniência retórica, preferiu o aplauso fácil e reforçou uma peça central de sua narrativa eleitoral. No delírio lulopetista, defender a democracia equivale a defender Lula e o PT.

Resta saber se, mais uma vez, a democracia brasileira dependerá menos do discurso e mais da capacidade de suas instituições de conter o oportunismo – venha ele de onde vier.

O exemplo do Globo de Ouro

Por O Estado de S. Paulo

Sucesso do cinema brasileiro deve inspirar a projeção de outras áreas de excelência do País

O Brasil voltou a ganhar projeção internacional a partir de uma de suas expressões culturais mais notáveis, o cinema. As premiações de O Agente Secreto no Globo de Ouro – melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama para Wagner Moura – reafirmam a capacidade do País de competir em ambientes altamente seletivos e de dialogar com audiências além de suas fronteiras.

Além da celebração de títulos ou nomes específicos, as láureas oferecem uma lição mais ampla sobre como a presença internacional do que o Brasil produz pode – e deve – ser ampliada para outras áreas estratégicas.

O êxito do cinema brasileiro não decorre só de talento artístico. Resulta da combinação entre retomada do volume de produção, qualidade consistente e estratégia de divulgação. Produzir de forma regular é condição básica para disputar espaço em escala global. Afinal, não se premia o que não é produzido. Mas saber promover esse produto é o que transforma reconhecimento eventual em projeção consistente, movimento que deve se estender para além do cinema e orientar a inserção internacional de tudo de bom que o País é capaz de oferecer ao mundo.

Nos últimos anos, o Brasil tem demonstrado capacidade de gerar conhecimento científico, inovação tecnológica e iniciativas empresariais competitivas, mas ainda carece de uma política mais ambiciosa e coordenada de promoção externa desses ativos. A produção acadêmica nacional, por exemplo, é expressiva em diversas áreas, mas poderia alcançar impacto muito maior caso fosse acompanhada de esforços sistemáticos de internacionalização, como maior presença em revistas de circulação global, estímulo a parcerias com centros de excelência no exterior, intercâmbio de pesquisadores e participação ativa em redes internacionais de pesquisa.

O mesmo raciocínio se aplica ao setor empresarial, especialmente no que concerne à tecnologia e à inovação. Empresas brasileiras capazes de competir globalmente ajudam a gerar empregos qualificados e fortalecer cadeias produtivas no Brasil. Ainda assim, muitas dessas iniciativas permanecem pouco conhecidas fora do País.

A experiência recente do cinema brasileiro demonstra que o reconhecimento externo tende a retroalimentar o mercado interno, fortalecendo atividades que geram emprego e renda localmente. Esse círculo virtuoso não é exclusivo da cultura. Ele pode ser reproduzido em outras áreas centrais para o desenvolvimento sustentável do País.

Promover o Brasil no exterior, portanto, não é apenas uma questão de autoestima nacional. É uma estratégia de desenvolvimento. Ao investir de forma consistente na divulgação internacional de sua produção cultural, acadêmica e empresarial, o País atrai negócios, amplia seu soft power, melhora sua inserção econômica no mundo e consolida sua condição de ator relevante no concerto entre as nações.

O cinema brasileiro mostrou o caminho. Cabe agora estender essa estratégia a tudo mais que o Brasil é capaz de produzir com excelência.

Powell escancara luta pela independência do Fed

Por Valor Econômico

A ameaça contra o banco central americano gerou reações imediatas de ex-presidentes do Fed e alguns republicanos do Congresso

O já disruptivo segundo mandato de Donald Trump nos EUA atingiu um novo patamar na noite de domingo, quando o discreto Jerome Powell divulgou um vídeo com uma mensagem direta: a ameaça de acusações criminais contra o presidente do Federal Reserve (Fed) é uma consequência do fato de o banco central americano definir as taxas de juros com base na melhor avaliação para cumprir seu mandato de fomentar a estabilidade de preços e o pleno emprego sustentável, em vez de seguir as preferências do presidente. Trump já declarou diversas vezes que o Fed deveria reduzir o juro a 1%. A taxa dos Fed Funds está hoje na faixa de 3,5%-3,75%, menor nível em três anos.

A nova investida de Trump surpreende pelo fato de o mandato de Powell à frente do Fed terminar daqui a poucos meses, em maio. Especula-se que seja uma pressão do presidente para que Powell, que também é membro do board do Fed com mandato até início de 2028, antecipe sua aposentadoria, abrindo outra vaga para Trump preencher e consolidar o seu controle na autoridade monetária.

Porém, a investigação do Departamento de Justiça em relação a Powell e o custo da reforma da sede do Fed — sobre a qual Trump afirma que não tinha conhecimento — pode ter sido um tiro no pé. Pessoas próximas a Powell acreditavam que ele estava ansioso por uma vida pós-Fed quando seu mandato como presidente terminasse. Mas em sua mensagem de vídeo, Powell sugere estar disposto a brigar para garantir a independência do banco central. Além disso, a investigação criminal torna menos provável que o Fed reduza as taxas de juros novamente no curto prazo — a próxima reunião de política monetária está marcada para os dias 27 e 28 de janeiro —, pois um ataque tão flagrante à independência do banco central fornece um motivo real para que as expectativas de inflação — e consequentemente para os juros no longo prazo — se desestabilizem.

Powell recebeu imediatamente o apoio de todos os ex-presidentes do Fed ainda vivos, assim como de ex-secretários do Tesouro de administrações democratas e republicanas anteriores. Ex-membros do Fed, como Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan, assinaram uma declaração criticando o que descreveram como uma “tentativa sem precedentes de usar ataques da promotoria para minar a independência [do Fed]”. “É assim que a política monetária é feita em mercados emergentes com instituições frágeis, com consequências altamente negativas para a inflação e para o funcionamento de suas economias de forma mais ampla”, diz a declaração. “Isso não tem lugar nos EUA, cuja maior força é o Estado de Direito, que está na base do nosso sucesso econômico.”

A ameaça à independência do Fed também gerou reações imediatas no Congresso americano, incluindo de alguns republicanos, como o senador Thom Tillis, membro da influente Comissão de Bancos do Senado. Tillis ameaçou bloquear futuras nomeações para o Fed devido à investigação do Departamento de Justiça, acusando os assessores de Trump de “pressionarem ativamente para acabar com a independência do Fed”.

Diante da queda no apoio interno — segundo o agregador de pesquisas da CNN a desaprovação de Trump seguia em 58% no início do ano —, Trump tem ampliado sua intervenção na economia, mirando não apenas o Fed, mas também as empresas americanas de forma alarmante.

Na última semana, Trump “ordenou” aos bancos limitar as taxas de juros dos cartões de crédito, ameaçou usar uma ordem executiva para impedir empresas de defesa de pagar dividendos aos seus acionistas ou recomprar ações até que acelerem a produção de equipamentos militares e, mais recentemente, busca obrigar as petrolíferas a extrair petróleo da Venezuela, que elas não querem por causa do custo elevado. Trump também afirmou que “instruiu seus representantes” — Fannie Mae e Freddie Mac, as duas agências federais — a comprar US$ 200 bilhões em títulos hipotecários, sob a alegação que isso reduzirá o custo do financiamento imobiliário — embora as taxas imobiliárias em geral acompanhem a tendência dos juros dos Treasuries de longo prazo, em vez dos rendimentos dos títulos hipotecários.

Apesar de essas ações arbitrárias de Trump influírem no desempenho individual das ações, ou de um grupo delas, no geral, os mercados financeiros têm feito vista grossa à ameaça intervencionista do presidente. Após uma reação inicial em baixa, as bolsas americanas se recuperaram, com o índice S&P 500 até mesmo renovando sua máxima histórica no fechamento, atingindo 6.977,27 pontos. Também o mercado de bônus reverteu a maior parte das perdas iniciais, com o rendimento dos Treasuries de 10 anos encerrando apenas com uma leve alta, em 4,186%.

O ineditismo de ter um presidente com quase nenhum respeito à separação dos poderes e às regras da lei nos EUA pode estar nublando a avaliação dos agentes financeiros em Wall Street, que parecem ainda acreditar que a força das instituições americanas irá prevalecer sobre a vontade quase imperial de Trump.

A arte contra os extremismos

Por Correio Braziliense

Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura acertadamente levantam as estatuetas ecoando a importância das produções artístico-culturais no enfrentamento aos extremismos

O filme O agente secreto faz história. Pela primeira vez, uma produção brasileira ganha duas categorias em uma mesma edição do prestigiado Globo de Ouro: a de Melhor filme de língua não inglesa e a de Melhor ator em filme de drama. Para além do ineditismo, a noite do último domingo precisa ser celebrada pelo fato de mais uma produção brasileira ser reconhecida internacionalmente ao lançar luz sobre um período da história do Brasil que não pode ser esquecido. Nesse sentido, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura acertadamente levantam as estatuetas ecoando a importância das produções artístico-culturais no enfrentamento aos extremismos.

Wagner Moura interpreta um professor universitário que, para fugir de agentes da ditadura em razão das atividades subversivas, deixa São Paulo e volta para a sua cidade natal. Mas o Recife de 1977 também não está imune às garras do autoritarismo, mergulhando Marcelo/Armando, o personagem principal, em um thriller de segredos, amores e violências. Trata-se de um filme sobre "memória — ou sobre a falta de memória — e sobre trauma geracional", nas palavras do ator que, ao receber o prêmio, enfatizou ainda a esperança no contraponto — "se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem" — e a importância de dar continuidade a produções com essa temática — "a ditadura ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira", justificou. 

Sob essa lógica, o filme de Kleber Mendonça enriquece o debate ao retratar os impactos da ditadura militar fora do eixo Rio-Brasília-São Paulo. O regime de exceção causou cicatrizes profundas também ao Nordeste. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) estima a existência de ao menos 40 centros, clandestinos e oficiais, que reprimiram opositores da ditadura em áreas urbanas e rurais da região. Não se pode perder de vista, ainda, a interrupção de reformas estruturais para estados nordestinos por parte dos militares.

A CNV chegou a um total de 434 mortes e desaparecimentos políticos em todo o país, de 1964 a 1988, com uma concentração de vítimas, 351 mortos, durante a vigência do Ato Institucional nº 5. A retomada democrática, em 1985, não extirpou os autoritários. Ao contrário, eles seguem trabalhando contra as liberdades individuais, em prol de projetos baseados na violência e na falta de diálogo, como se viu na intentona golpista de 8 de janeiro de 2023.  São diversos os subterfúgios para camuflá-los, exigindo, portanto, vigilância constante e coletiva — inclusive por meio das artes. 

Ao receber a estatueta do Globo de Ouro, Kleber Mendonça conclamou os jovens a fazerem cinema e contribuírem com a causa. Do palco, dirigiu-se aos americanos. Logo depois, em conversa com jornalistas, aos brasileiros. "Quero muito ver jovens cineastas brasileiros fazendo histórias sobre o Brasil no cinema. Quando a gente fala da nossa casa, todo mundo ouve ao redor do mundo." Não cabe silêncio diante de práticas autoritárias. Falar sobre ditadura, recorrendo a todas as formas democráticas de expressão, é dever civilizatório. 

 As vitórias e o bom momento do cinema nacional

Por O Povo (CE)

A qualidade de uma obra cultural, na área em que ela se manifeste, não pode ser medida unicamente pelo reconhecimento que venha através de premiações em festivais, por relevantes e influentes que sejam. Exige de nós uma análise serena, portanto, a performance altamente positiva do filme brasileiro "O Agente Secreto" na edição de 2026 do Globo de Ouro, que aconteceu na madrugada dessa segunda-feira, dia 12, nos Estados Unidos.

A dupla vitória representada pela escolha da obra dirigida pelo pernambucano Kléber Mendonça como "melhor filme de língua não inglesa" e de Wágner Moura como "melhor ator de filme de drama" apenas confirma a excelência do que somos capazes de produzir e a talento indiscutível dos nossos técnicos e artistas. É algo que vai além do reconhecimento que a comunidade cinematográfica internacional tem sido capaz de nos oferecer através do seu calendário de premiações.

Ao longo da temporada, já são 56 prêmios acumulados, o que demonstra a força da produção que circula pelo mundo desde, pelo menos, o Festival de Cannes, na França, em maio, quando começou sua caminhada vitoriosa com as conquistas das estatuetas de melhor diretor para Kléber Mendonça e de melhor ator para Wágner Moura.

Grupos de localizações diversas, jurados de visões diferentes, têm sido capazes de entender mensagem e linguagem de um filme bastante brasileiro, falado todo em português, que foi rodado numa capital nordestina - Recife, no caso -, magia que apenas a arte é capaz de proporcionar. No caso, o cinema.

Parece natural, apesar disso, que reconhecimentos como este que acaba de fazer o Globo de Ouro nos encham de orgulho. O momento político do País é delicado, o que até ajuda a explicar o fato de existir uma parcela de brasileiros incomodada com o sucesso, medido em prêmios, de uma produção que também lança um olhar crítico acerca de um momento histórico no qual estávamos sob controle de um governo militar, com tudo que isso implica. Em termos de passado, de presente e, até, de futuro.

O ideal seria que superemos tudo isso para, acima das diferenças que nos dividem, aproveitarmos um momento inegavelmente positivo para gerar uma união que pudesse fortalecer o cinema nacional. Trata-se de uma indústria que gera muitos empregos, movimenta a economia, produz e distribui cultura, permite que nos discutamos como país, enfim, há um conjunto expressivo de razões para nos dispormos a colocarmos de lado, um pouco, a irritante briga ideológica de todo dia.

Seria pouco inteligente de nossa parte desperdiçar esse momento favorável e não buscar meios de fortalecer a ideia de que precisamos de uma política de Estado, que reduza a dependência de um governante de plantão para que as coisas aconteçam. E, claro, viva o cinema nacional! 


 

 

 

 

 

 

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