Brasil deve instituir prova para formado exercer a Medicina
Por O Globo
Qualidade sofrível dos cursos, exposta por
exame do MEC, põe em risco saúde da população
É alarmante a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, como demonstrou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Parcela considerável dos alunos prestes a terminar o curso não tem conhecimentos mínimos para exercer a profissão. Dos 351 cursos avaliados, 107 ficaram em patamar abaixo do aceitável — menos de 60% dos alunos atingiram nível mínimo de proficiência. Dos 39 mil estudantes perto de se graduar, quase um terço não foi capaz de comprovar deter a formação básica. Em pouco tempo, estarão em postos de saúde, clínicas e hospitais sem qualquer impedimento. Diante de tal realidade, é essencial impor como condição para a prática da Medicina a aprovação numa prova nacional compulsória, em moldes semelhantes aos adotados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a advocacia.
Por necessidade de suprir a deficiência de
médicos, o Brasil ampliou demasiadamente os cursos de Medicina. De 2014 para
cá, as vagas mais que dobraram, ultrapassando 50 mil por ano. Impulsionado pela
expansão do ensino privado, o aumento contribuiu para aliviar a concentração
geográfica. Em 2004, metade das vagas era oferecida nas capitais. Vinte anos
depois, eram 35%. Graças à profusão de cursos, o Brasil conta hoje com três
médicos por mil habitantes, mais que Japão ou Coreia do Sul. No Sudeste, a
densidade está acima da verificada em países ricos. No Sul, fica perto da
britânica. No Nordeste, está próxima à da Turquia. É na Região Norte,
comparável à Venezuela destroçada pelo chavismo, que a escassez mais se
manifesta. Para complicar, o Enamed deixou claro que quantidade não se traduz
em qualidade.
As universidades particulares chegaram a
acionar a Justiça para impedir a divulgação dos resultados do Enamed e agora
questionam a nota de corte. O MEC reconheceu “inconsistências” em dados
anteriores, mas diz que os resultados divulgados estão corretos. E as
faculdades deveriam ser as primeiras a querer zelar pela qualidade do ensino.
A demanda por Medicina continua a ser a mais
alta dos vestibulares, e o preço dos cursos privados mostra que não faltam
recursos para investir na melhoria do ensino, via recursos humanos ou digitais.
A aplicação da Inteligência Artificial (IA) na área é promissora. No ano
passado, pela primeira vez acertou 100% do exame exigido para praticar Medicina
nos Estados Unidos. Em breve, deverá ser ferramenta indispensável em
diagnósticos — e também na formação de melhores profissionais.
Para disciplinar as faculdades problemáticas,
o MEC promete instaurar processos administrativos de supervisão e adotar
sanções, como proibição de ampliar vagas ou até suspensão do vestibular e dos
financiamentos pelo Fies. A situação, porém, exige mais. O Congresso precisa
com urgência aprovar a criação de uma prova nacional compulsória para
recém-formados poderem exercer a profissão. É o que acontece em países como
Estados Unidos ou Alemanha. A ideia decerto deverá enfrentar resistência, além
de trazer desafios. O que fazer com os médicos que já exercem a profissão? A
partir de que momento os resultados devem ser exigidos para emissão do registro
nos conselhos regionais de Medicina? O mais importante na tramitação da
proposta é evitar que seja desfigurada pelos beneficiados com os cursos que
formam médicos despreparados. As faculdades expostas pelo Enamed põem em risco
a saúde da população.
É inaceitável desvio de armamento da polícia
e do Exército para o tráfico
O Globo
Operação nos complexos da Penha e do Alemão
descobriu munição e fuzil desviados em poder dos traficantes
É estarrecedor que armas e munições continuem
a ser desviadas da polícia e das Forças Armadas para traficantes. Investigações
a partir de cartuchos apreendidos em operação nos complexos da Penha e do
Alemão comprovaram lotes desviados de diversas polícias estaduais e também do
Exército, como revelou reportagem do GLOBO. A operação chegou a apreender um
fuzil da PM desaparecido havia 15 anos de um batalhão local. A história
recorrente de armamento desviado para o tráfico revela um misto de desleixo e
indícios graves de corrupção. Em todo o Brasil há envolvidos no abastecimento
do arsenal do Comando Vermelho em seu quartel-general.
Em junho de 2019, PMs interceptaram em Santa
Maria, Distrito Federal, um carregamento destinado ao Complexo da Penha. Estava
num carro que vinha de Cuiabá. Eram mil projéteis para fuzis. Havia munição das
polícias de Rio de Janeiro, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e até do
Exército. Quatro projéteis eram de um lote comprado pelo Exército identificado
nos cartuchos da maior chacina realizada em São Paulo, em agosto de 2015. O
combinado era levar o carregamento para a rodoviária ou, caso ninguém
aparecesse, procurar o chefe do tráfico no Complexo da Penha (até hoje
foragido). Em junho de 2018, um casal foi preso ao chegar ao Rio de carro,
transportando 1.390 balas para fuzil, oriundas de lotes do Exército. A Polícia
Civil informou que a munição também seria entregue no Complexo da Penha.
Na ocasião, a Polícia Civil do DF abriu
inquérito para apurar o desvio da munição. Identificou mensagens trocadas entre
criminosos e um sargento do Corpo de Bombeiros, na época lotado no Gabinete de
Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Ele admitiu ter
“cedido gratuitamente” 12 caixas de munição a outro envolvido no esquema.
Chegou a ser preso, mas foi absolvido. O Exército também fez sua investigação.
Todos os acusados foram absolvidos pela Justiça Militar. Preso mesmo, só o
casal apanhado com a munição, que recebeu pena de dez anos.
Tais investigações só foram possíveis porque,
a partir do Estatuto do Desarmamento de 2003, passou a haver a obrigatoriedade
de identificar munições destinadas às forças de segurança. Mesmo assim, as
regras são falhas. Os lotes são amplos demais, impossibilitando o rastreamento
preciso no caso de crimes. Tecnologicamente, seria viável cada munição ter um
identificador único.
Falta também compreensão das autoridades — em especial da Justiça — para a gravidade das conexões subterrâneas de policiais e militares corruptos com o crime organizado. Por princípio, as instalações militares devem ter padrões máximos de segurança. Não tem cabimento que tolerem desvios de armamento. É inaceitável que munição ou armas do Estado sejam usados contra a população que deveriam defender.
Números do feminicídio
Por Folha de S. Paulo
Assassinatos de mulheres em razão do gênero
batem novo recorde em 2025; crifas devem aprimorar políticas
O aumento dos casos catalogados sugere, na
hipótese mais branda, que o feminicídio estava ou está subestimado nas
estatísticas
Em 2025, quatro
mulheres foram assassinadas por dia no país em razão de sua
condição de gênero, de acordo com os registros policiais. Este dado, do Ministério da
Justiça e Segurança Pública, atesta um novo recorde de
feminicídios.
Ao que se sabe, 1.470 mulheres foram mortas
em contextos de violência
doméstica e familiar ou por misoginia. O número final tende a
ser ainda maior, porque quatro estados, entre eles São Paulo, não enviaram os
dados referentes a dezembro.
A série histórica desse tipo de crime no
Brasil, que não chega a ser longa, é invariavelmente ascendente. A cifra do ano
passado é a maior em uma década, 0,41% acima da registrada em 2024.
Em boa parte, a estatística reflete o
enquadramento legal do feminicídio,
que não era tipificado antes de 2015. Apenas em 2024, o crime passou a ser
autônomo, com penas entre 20 a 40 anos de prisão (chegando a 60, quando há
agravantes), deixando de ser uma qualificadora do crime de homicídio.
Parece plausível, pois, que as autoridades
venham passando a registrar mais dessa forma crimes que antes seriam
classificados como homicídios de mulheres não motivados pela condição de gênero
—estes mostram tendência de queda entre 2013 e 2023, segundo os dados mais
atualizados do Atlas da Violência,
publicado pelo Ipea, instituto de pesquisas do Executivo federal.
É salutar, para a formulação de políticas
públicas, que a violência contra a mulher seja cada vez mais identificada em
dimensões precisas. O aumento dos casos catalogados como feminicídio sugere, na
hipótese mais branda, que o crime estava ou está subestimado nas estatísticas.
A tendência se verifica em diferentes regiões
do país. Os feminicídios subiram em 15 estados de 2024 para 2025, com queda em
11. As maiores taxas percentuais de alta se concentram nas regiões Norte e
Nordeste.
As cifras, ao lado de episódios recentes de
grande repercussão, tornaram o tema motivo de pressão sobre governantes de
orientações distintas como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).Espera-se que a
resposta não se limite a providências midiáticas, como aumentos de penas e
operações policiais espetaculosas.
Os primeiros são sabidamente pouco eficazes
—a melhor maneira de dissuasão do crime é a certeza da punição, não o número de
anos de cadeia. As segundas não deixam de ser importantes, mas não dão conta da
complexidade do fenômeno.
Políticas corretas precisam integrar ações de
prevenção, de aprimoramento
do sistema de Justiça e investigação, além do fortalecimento de
redes de apoio e assistência social a mulheres. No mais, o aperfeiçoamento das
estatísticas deve permitir diagnósticos mais precisos sobre causas e evolução
do crime —ao qual não se limita a violência diária contra as mulheres.
Saúde em risco com má formação de médicos
Por Folha de S. Paulo
Exame mostra que, em um terço dos cursos no
país, menos de 60% dos formandos têm proficiência mínima
Alta acelerada de vagas no setor na última
década não foi acompanhada por qualidade nem ajudou a reduzir acesso desigual à
saúde no país
Os dados do Exame Nacional de Avaliação da
Formação Médica (Enamed),
divulgados pelo Ministério da Educação na
segunda (19), mostram que a preocupação de especialistas em relação à expansão
indiscriminada de cursos de medicina tem
razão de ser.
Dos 351 cursos de universidades federais,
privadas, estaduais e municipais que participaram da prova em outubro, 107
(30,5%) tiveram desempenho insuficiente (notas 1 e 2); dos 304 regulados
pelo MEC (instituições
federais e privadas), também um
terço (99) obteve resultado insatisfatório.
Numa escala de 1 a 5, os conceitos 1 e 2
indicam cursos em que menos de 60% dos formandos alcançaram proficiência
mínima.
A situação é mais grave nas instituições
municipais: 37,5% tiraram nota 1, e 50%, nota 2. Em seguida, vêm as privadas
com fins lucrativos (11,5% e 46,9%, respectivamente). Mas quase 30 mil
estudantes estão nas particulares, ante 944 em municipais.
Já as estaduais alcançaram a maior
porcentagem com conceito 5 (46,2%), além de 38,5% com 4. Nas federais, foram 25,3%
com nota máxima e 61,3% com 4.
Como é a primeira edição do exame, o MEC
aplicará punições gradativas, que valerão até a próxima prova. Os cursos com
conceito 1 e 2 podem ser proibidos de aumentar vagas, de formalizar
financiamento por meio do Fies e
do Prouni,
ter número de vagas reduzidas ou ingresso suspenso e, no futuro, até ser
desativados. As instituições têm prazo de 30 dias para apresentar defesa.
O Enamed foi uma resposta do governo a um
projeto de lei, em tramitação no Congresso, que pretende criar uma avaliação
específica —como a aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)— vinculada
não ao MEC, mas ao Conselho Federal de Medicina, que apoia a proposta.
O resultado do exame sinaliza riscos à saúde
pública, mas o problema é complexo e, portanto, exige atuação em várias
frentes.
Especialistas apontam que os dois exames, do
MEC e do CFM, poderiam coexistir, mas que só avaliação teórica é insuficiente.
Além de melhorar a formação, é preciso aumentar a
participação dos egressos em residência médica, ainda mais
considerando a expansão acelerada de cursos.
De 2012 a 2023, segundo o Censo da Educação Superior, as vagas em cursos privados de medicina passaram de 10.217 a 46.152. Como mostra o Enamed, porém, tal quantidade não foi acompanhada por qualidade, nem ampliou acesso num país permeado por desigualdades —a cobertura de médicos no Distrito Federal, por exemplo, é cinco vezes a do Pará.
A Europa precisa enfrentar Trump
Por O Estado de S. Paulo
Se não for contido no caso da Groenlândia, o
presidente americano fragilizará a Otan, dará a Rússia e China exatamente o que
desejam e deixará o mundo muito mais inseguro
Não há nada de intrinsecamente ilegítimo em
discutir os interesses estratégicos dos Estados Unidos na Groenlândia. A ilha
ocupa posição central no Ártico, abriga infraestrutura militar sensível e tende
a ganhar relevância com a abertura gradual de novas rotas marítimas e a disputa
por recursos críticos. O problema não está tanto no objeto da ambição
americana, mas no método escolhido para persegui-la. Ao recorrer à retórica da
coerção – tarifas punitivas, ameaças veladas e insinuações de força contra aliados
democráticos –, o presidente Donald Trump rompe um tabu que sustentou a
estabilidade atlântica por décadas.
A anexação não é necessária para atender a
nenhuma das alegadas preocupações de Washington. Desde o Acordo de Defesa de
1951, os Estados Unidos dispõem de amplos direitos militares na Groenlândia,
incluindo bases, radares e presença permanente. Nada impediria a ampliação
dessa cooperação, nem no plano militar nem no econômico. A Dinamarca e o
próprio governo groenlandês já deixaram claro que estariam dispostos a negociar
maior presença americana, investimentos, exploração mineral ou novas
instalações estratégicas. A soberania formal, portanto, não é um requisito
funcional. É um símbolo.
É justamente aí que a narrativa de “segurança
estratégica” desmorona. A infraestrutura mineral da Groenlândia é incipiente,
os custos são elevados, e os prazos, longos. A militarização adicional do
Ártico poderia ser obtida por meios cooperativos. Ainda assim, a Casa Branca
insiste que nada basta aquém da posse territorial. A explicação mais plausível
não é estratégica, mas política: além de uma manobra diversionista para deixar
os malogros domésticos em segundo plano, trata-se da busca por um gesto de
força, um marco de legado, a afirmação de uma lógica em que o poder se mede
pela capacidade de impor vontades, não de construir acordos.
Esse desvirtuamento não ocorre no vácuo. Ele
se insere numa visão mais ampla de um mundo dividido em esferas de influência,
na qual compromissos, tratados e alianças são instrumentos táticos, não
vínculos duráveis. Aplicada à Groenlândia, essa lógica produz um efeito
corrosivo sobre a Aliança Atlântica. Pela primeira vez desde a criação da Otan
após a 2.ª Guerra, aliados se veem compelidos a discutir dissuasão simbólica
contra os próprios Estados Unidos. A confiança – ativo invisível, mas essencial
– se deteriora a olhos vistos. E quando a confiança é desintegrada, os custos
se multiplicam em cadeia: na coesão política, na previsibilidade estratégica,
na credibilidade financeira.
A resposta europeia, por isso, não pode ser
nem submissa nem impulsiva. Ceder à chantagem seria desastroso: consolidaria o
princípio de que a força faz o direito, convidando novas pressões no futuro.
Mas escalar sem cálculo apenas aprofundaria a fratura. Há um caminho
intermediário: firmeza institucional, coordenação entre aliados e uso
inteligente dos freios disponíveis dentro do próprio sistema americano. O
Congresso dos EUA, a opinião pública e a tradição jurídica do país ainda podem
funcionar como contrapesos reais. Ao mesmo tempo, uma presença europeia
moderada no Ártico e a manutenção de canais diplomáticos sérios podem criar
espaço para uma saída negociada.
Um acordo que reforce a segurança do Ártico,
amplie a cooperação militar e preserve a soberania dinamarquesa permitiria a
Trump declarar vitória sem destruir a aliança que os Estados Unidos levaram
décadas para construir. A alternativa – a normalização da coerção entre aliados
– teria custos muito mais amplos. Rússia e China observam atentamente. Ambas
ganham quando o pilar central da ordem liberal passa a agir como seu principal
fator de instabilidade.
A Groenlândia é pequena. O precedente, não.
Ao tratar aliados como obstáculos e regras como inconvenientes, Trump acredita
colocar a América “em primeiro lugar”. Na prática, acelera a transição para um
mundo menos previsível e muito mais perigoso. Por esse motivo, a Europa precisa
reagir a Trump, estabelecendo um limite para a sua irresponsabilidade.
A granada mudou de bolso
Por O Estado de S. Paulo
Sem qualquer estimativa de custo, Congresso
aprova e governo Lula sanciona lei que autoriza pagamento retroativo de
benefícios congelados durante a pandemia de covid-19 a servidores públicos
Em pleno ano eleitoral, o governo Luiz Inácio
Lula da Silva sancionou uma lei complementar que autoriza o pagamento
retroativo, a servidores públicos, de benefícios que haviam sido congelados
durante a pandemia de covid-19. A proposta alcança adicionais como quinquênio,
triênio e anuênio, sexta-parte e licença-prêmio. Ainda permite que o período
entre 28 de maio de 2020 e 31 de dezembro de 2021, durante o qual vigorou o
estado de calamidade pública, seja contabilizado para fins de aferição de
adicionais por tempo de serviço.
A lei vale para servidores da União, Estados
e municípios, mas pesará, sobretudo, sobre as contas dos dois últimos entes
federativos, haja vista que o Executivo federal extinguiu os mecanismos que
garantiam progressão automática de carreira com base na duração do vínculo do
servidor ao cargo público.
Não houve um único relatório que estimasse o
quanto isso custará aos entes federativos, mas isso não impediu que a proposta
fosse aprovada por ampla maioria na Câmara, em agosto, e no Senado, em
dezembro, convenientemente na última semana de votações do ano.
A desculpa para esse desmazelo foi o caráter
autorizativo da proposta. Não há obrigação para que o pagamento seja realizado,
mas apenas anuência para que isso seja feito caso haja interesse de governadores
e prefeitos, bem como leis próprias e disponibilidade orçamentária.
Mas, a meses das próximas eleições, talvez
apenas os incautos que ainda acreditam na possibilidade de o Congresso aprovar
a reforma administrativa neste ano tenham dúvidas sobre o esforço que
governadores e prefeitos farão para assegurar o pagamento retroativo aos
servidores.
O congelamento dos benefícios foi uma
contrapartida do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro ao repasse de recursos
extras para o enfrentamento do coronavírus por Estados e municípios, cujas
contas foram abaladas pela queda da arrecadação, consequência da redução da
atividade econômica durante a emergência sanitária.
À época, governadores e prefeitos receberam
R$ 60 bilhões. O veto aos reajustes e benefícios era uma tentativa de garantir
que o dinheiro não se perdesse em despesas com pessoal, de caráter obrigatório,
e fosse utilizado em ações de apoio à saúde e assistência social. Foi uma das
poucas vezes em que Bolsonaro privilegiou a opinião da equipe econômica em detrimento
dos conselhos da ala política de seu governo.
O então ministro da Economia, Paulo Guedes,
jactou-se da vitória durante a fatídica reunião ministerial conduzida por
Bolsonaro em abril de 2020, e a comparou ao ato de colocar “uma granada no
bolso do inimigo”. Ainda naquele ano, a então deputada e atual senadora
Professora Dorinha (União-TO) apresentou uma proposta para impedir que os
efeitos da lei fossem aplicados ao magistério.
Entre idas e vindas, a restrição foi
derrubada para servidores das áreas de saúde e segurança em 2022, enquanto o
projeto, que valia apenas para professores, passou a abarcar todas as carreiras
públicas. Em agosto, apenas a líder do Novo, deputada Adriana Ventura (SP),
manifestou preocupação com o passivo que a proposta poderia gerar.
No Senado, por sua vez, coube ao senador
Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) fazer as perguntas que seus colegas deveriam ter
feito antes de aprovar a medida. “Não que não sejam justas, não que os
funcionários não mereçam, eles merecem. Mas a questão não é merecer; a questão
é: o Estado pode? O Estado tem condições? Se é para fazer tudo o que as pessoas
merecem, é preciso ter um Estado muito rico, e nós não temos esse Estado muito rico.
Esse é o problema central”, afirmou.
Contabilizado em caráter retroativo, o tempo
de serviço dos funcionários públicos aumentaria em 583 dias. Os sindicatos já
começaram a mobilizar suas bases, e advogados trabalhistas preveem uma
enxurrada de ações judiciais para reconhecer o direito das categorias e
eventualmente beneficiar até mesmo inativos.
Como no País até o passado é incerto, a
granada a que Guedes fez referência está agora no bolso dos governadores e
prefeitos. Mas a conta ainda pode sobrar para a União, a quem cabe, em última
instância, socorrer entes federativos em dificuldades financeiras. Não terá
sido por falta de aviso.
Avanços no Bilhete Único
Por O Estado de S. Paulo
Incorporação do cartão de transporte a
carteiras digitais é medida que deve ser ampliada
Uma parceria entre a Prodam, empresa de
tecnologia da Prefeitura de São Paulo, e o Google permitirá aos usuários dos
ônibus municipais incorporar o Bilhete Único ao aplicativo de pagamentos Google
Wallet. Na prática, os usuários de celular Android poderão pagar a passagem de
ônibus na capital paulista por meio do celular. Não haverá custo extra para
utilizar o aplicativo nem para comprar a passagem pela plataforma.
Além de pagar a tarifa aproximando o celular
do validador da catraca de ônibus, os usuários também poderão recarregar o
bilhete, solicitar um novo cartão digital ou até emitir o documento pela
primeira vez.
Extremamente bem-vinda, a medida é
potencialmente a maior atualização do Bilhete Único desde que o cartão de
transporte foi criado, em 2004, na gestão da prefeita Marta Suplicy.
A Prefeitura espera, ainda, que a parceria
ajude a reduzir fraudes no uso do Bilhete Único. Outro aspecto positivo seria a
ampliação do acesso de turistas e passageiros esporádicos ao transporte público
paulistano. Em grandes centros urbanos do mundo, como Nova York, e também em
capitais brasileiras, como o Rio de Janeiro, o pagamento de passagens de
transporte já é feito também por meio digital. Logo, faz todo sentido que uma
metrópole tão movimentada quanto São Paulo finalmente adeque seu transporte
público às práticas mais modernas de pagamento já vigentes no mundo.
Na terra do Pix, tecnologia que não só caiu
no gosto dos brasileiros, como também inspira outros países, não faz sentido
que os cidadãos da maior cidade do País ainda percam tempo precioso em filas
para adquirir ou recarregar seus cartões de transporte.
Apesar de todos os aspectos positivos do
acordo entre o Google e a Prefeitura, a incorporação do Bilhete Único ao
aplicativo Google Wallet ainda não tem data definida. A expectativa é de que
isso ocorra até o fim deste ano. Será necessário integrar o Google Wallet com a
empresa que produz os cartões físicos com chip e com a companhia responsável
pelo sistema da catraca.
Também é desejável que se busquem acordos
semelhantes com outras empresas. Embora celulares com sistema Android tenham
participação de mercado de cerca de 80% no Brasil, quanto mais ampla for a gama
de opções de pagamentos digitais, melhor.
Por ora, também não está definido se o
pagamento por aproximação funcionará nas catracas do Metrô e nas da Companhia
Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que são de responsabilidade do governo
estadual.
Tanto as composições do Metrô quanto as da
CPTM são modais amplamente utilizados pela população paulistana e também por
turistas. Adaptá-las à nova realidade dos pagamentos digitais também é do
interesse da população.
Símbolo da capital paulista, o Bilhete Único é exemplo de política pública efetiva, que promove o uso do transporte público e beneficia a população. Nesse sentido, adaptá-lo aos novos tempos, tornando-o ainda mais prático e funcional, é extremamente necessário.
Tensões comerciais e IA trazem riscos para
economia global
Por Valor Econômico
A IA é uma promessa de avanço econômico, mas
também um dos principais pontos de preocupação para o futuro da economia global
A economia mundial resistiu relativamente bem
à primeira onda do choque tarifário dado pelo presidente Donald Trump, embora
os riscos de agravamento das tensões comerciais se mantenham como um dos dois
maiores listados pelo Fundo Monetário Internacional na atualização do seu
“Perspectiva Econômica Mundial” — o outro é a mudança de expectativas sobre a
Inteligência Artificial (IA). A adaptação ao novo mundo de tarifas fez o FMI
elevar o crescimento da economia global para 3,3%, 0,2 ponto percentual maior do
que projetara em outubro. O Fundo prevê expansão de apenas 1,6% do PIB
brasileiro, em decorrência da política monetária contracionista aplicada desde
setembro de 2024.
As premissas do Fundo, que concluiu seu
relatório no fim de 2025, começaram a ser postas em questão pela realidade já
ao raiar do novo ano, quando os EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro,
da Venezuela, ameaçando apoderar-se do petróleo do país, e, poucos dias depois,
mostraram a intenção de se apossar da Groenlândia. O FMI menciona a
“estabilização das tensões comerciais” como um dos fatores para a revisão das
perspectivas, mas a disposição de Trump de taxar os países europeus contrários
à ideia de apossar-se da Groenlândia com 10% a partir de fevereiro e 25% em
junho, além da possibilidade de retaliação europeia, não se coadunam com essa
expectativa.
Uma série de fatores, além da aparentemente
curta trégua nas disputas comerciais, entrou em cena para aparar os efeitos das
tarifas americanas. As políticas fiscais têm sido mais expansionistas que o
esperado, em especial nos países desenvolvidos, e as condições financeiras se
mostraram mais favoráveis ao crescimento. Além disso, foram determinantes para
isso os enormes investimentos em IA nos Estados Unidos, com reflexos
importantes nas economias do Sudeste Asiático.
Segundo o FMI, os investimentos atuais em
tecnologia da informação atingiram a maior proporção em relação ao PIB desde
2001, época de explosão das empresas pontocom. Nos três primeiros trimestres de
2025, gastos em TI elevaram em 0,3 ponto percentual o PIB americano (de 4,3% no
terceiro trimestre de 2025), eliminando o efeito negativo sobre a atividade
econômica da maior paralisação dos serviços públicos dos Estados Unidos.
A IA é uma promessa de avanço econômico, mas
também um dos principais pontos de preocupação para o futuro da economia
global. Segundo a consultoria Gartner, os investimentos em IA atingiram US$
1,75 trilhão no ano passado e chegarão a US$ 2,52 trilhões em 2026 (Valor,
ontem). Esses investimentos colossais, antes feitos com receitas próprias e de
capitalização das Big Techs, passaram a ser realizados também com dívidas e
alavancagem. O aumento das apostas elevou também a percepção de risco de
frustração dos resultados que a tecnologia pode proporcionar às empresas.
O FMI, no entanto, vê menor ameaça na
evolução acionária das empresas envolvidas com IA em comparação com o das
empresas pontocom do início do século. Ainda que seu peso no PIB seja igual nos
dois casos, a evolução da IA tem sido mais gradual. A valorização de mercado
foi semelhante nos dois casos, mas a relação preço-lucro das ações é bem menor
agora, devido aos fortes lucros das empresas de TI, argumentam Pierre-Olivier
Gourrinchas e Tobias Adrian, diretores do FMI. Isso não significa, no entanto,
que mudanças de expectativa em relação aos ganhos na tecnologia não possam
provocar enormes estragos na economia global.
Boa parte das empresas de IA não está listada
em bolsa e recorre basicamente ao endividamento para se financiar. Depois, no
caso das bolsas, há anos seguidos que as ações de TI, com a promessa da IA, vêm
sustentando as altas, a ponto de que a capitalização de mercado total é de 226%
do PIB. Como a aplicação em ações é disseminada nos EUA, uma correção mesmo que
modesta no rumo dessas ações teria efeitos importantes para retrair o consumo,
afirmam os diretores do FMI. O declínio abrupto de investimentos no setor, com
queda de ações, teria efeitos fortes nos EUA e no Sudeste Asiático, deprimindo
o crescimento em geral, com aperto das condições financeiras atingindo os
mercados emergentes.
Se nada disso ocorrer, o avanço da IA é capaz
de sustentar grande crescimento da produtividade ao longo dos próximos anos.
Estudo apresentado pelo Fórum Econômico Mundial em Davos indica que as empresas
que adotaram mais cedo a IA em suas cadeias de suprimento obtiveram redução de
15% nos custos logísticos e de 35% nos estoques, com economia de 25% do tempo
total do processo.
Para os empresários globais reunidos nos
Alpes suíços, no entanto, as tensões comerciais vieram para ficar e tornaram as
cadeias de produção estruturalmente instáveis, “mais fragmentadas e, em vários
casos, mais degradadas do que os líderes globais experimentaram nas últimas
quatro décadas”.
Os riscos apontados pelo cenário do Fundo persistirão ao longo do tempo, com as tensões comerciais agindo para reprimir o crescimento e as ameaças de fragilidade financeira da sustentação da IA se estendendo no tempo, até que ela corresponda na prática às expectativas que criou.
Crise da Groenlândia evidencia fraturas do
multilateralismo
Por Correio Braziliense
A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma
questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das
instituições multilaterais
A crise diplomática em torno da Groenlândia,
que até recentemente poderia ser interpretada por observadores otimistas como
uma tática agressiva de negociação comercial, assumiu contornos de ruptura
institucional irreversível nos últimos dias. A exposição das mensagens enviadas
pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ao mandatário dos Estados Unidos,
Donald Trump, escancarou as tensões transatlânticas. Afinal, o republicano não
se deu ao trabalho de responder. Resolveu colocar na sua rede social, nesta
terça-feira, o apelo de Macron pelo diálogo sobre a soberania do território
europeu.
Ao abrir para o mundo a tentativa de Macron,
Trump ainda retirou as cortinas dos bastidores do poder atual. Não existem
conversas organizadas, tratamentos engenhosos ou nada do tipo. Apenas ausência
de diálogo e ameaças. Ainda na tentativa de aumentar a pressão sobre a França,
o presidente estadunidense sugeriu impor uma tarifa de 200% sobre as
exportações de vinho e champanhe franceses para os EUA. Nesse caso, em razão da
recusa de Macron em participar do Conselho da Paz em Gaza. Em resposta, o
francês disse que prefere "o Estado de Direito à brutalidade".
Diante da situação, a primeira-ministra da
Dinamarca, Mette Frederiksen, alertou que "o pior está por vir". Não
é fatalismo, mas, sim, um diagnóstico realista de quem compreendeu a natureza
da ameaça. Ao reiterar ser "impossível negociar valores fundamentais"
com Washington, Frederiksen traçou uma linha vermelha que a Europa, até então,
hesitava em desenhar. A soberania, o direito internacional e a lealdade entre
aliados não são mercadorias sujeitas à flutuação cambial ou a tarifas
punitivas.
Nesse tabuleiro de xadrez cada vez mais
perigoso, a contraofensiva de Copenhague carrega uma ironia trágica e uma
astúcia estratégica. A proposta dinamarquesa de instalar uma presença
permanente de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no
Ártico expõe o paradoxo existencial da aliança: o pedido de socorro militar
visa proteger um membro da Otan não de uma ameaça russa ou chinesa, mas das
ambições do próprio país que lidera o bloco.
Se tal medida for adiante, a Otan se verá
diante de um dilema. Tropas europeias seriam mobilizadas para garantir que a
bandeira de um aliado não seja cravada por força de coerção econômica do outro
— como o perfil oficial da Casa Branca sugeriu em publicação recente. É o
cenário de pesadelo que nenhum estrategista da Guerra Fria ousaria prever.
A exposição da mensagem privada enviada por
Macron a Trump serve, portanto, como o catalisador de uma desconfiança que
vinha sendo represada. Se a Casa Branca está disposta a atropelar aliados
históricos em nome de uma visão transacional da geopolítica, o conceito de
"Ocidente" como uma comunidade de valores democráticos corre o risco
de dissolução.
O momento exige frieza e cálculos das chancelarias europeias — e do Itamaraty, por consequência. A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das instituições multilaterais. Como bem alertou a premiê dinamarquesa, o pior cenário não é mais uma hipótese distante. É imperativo que a prudência prevaleça sobre a ambição, para evitarmos um mundo em que a força bruta volte a ditar as regras.
Cursos de medicina mal avaliados serão
punidos
Por O Povo (CE)
O relevante é que o tema está sendo debatido
e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições
aos cursos que obtiverem notas insuficientes
O resultado da primeira edição do Exame
Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostrou uma situação
preocupante dos cursos de medicina no Brasil. Foram avaliadas 351 instituições
públicas e privadas. Dos cursos participantes em todo o Brasil, 30% tiveram
desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação (MEC), a
maioria de faculdades particulares. É preciso dar destaque a esse dado, pois o
maior número de formandos atualmente é oriundo de faculdades privadas.
Segundo estudo da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na página da Associação Paulista
de Medicina, das 494 escolas médicas do País (2025), com 50.974 vagas anuais de
graduação, 80% dos estudantes estão em instituições privadas.
O levantamento também mostrou uma nova fase
de expansão do ensino médico. De acordo com a FMUSP, entre janeiro de 2024 e
setembro de 2025, o MEC autorizou 77 novos cursos de Medicina. O estudo avalia
que o Enamed é parte do esforço para assegurar a qualidade dos cursos de
formação de futuros médicos.
É preciso ressaltar que não se trata de
desconsiderar o papel importante desempenhado pelas faculdades privadas, mas de
preservar aquelas que oferecem ensino de qualidade e obrigar a evoluir aquelas
que tiraram notas baixas. São muitas as instituições privadas que conseguem
administrar o empreendimento educacional, sem descuidar da preparação de seus
alunos e dos interesses da sociedade, que precisa de profissionais bem
formados, em área tão sensível, que cuida da saúde e da vida das pessoas.
No Ceará, nove cursos participaram do exame,
sendo que três deles obtiveram nota 5 (máxima); três (nota 4); duas (nota 3) e
uma (nota 2).
Existe outra proposta, de iniciativa do
Senado, já aprovada na Comissão de Assuntos Sociais, que visa criar o Exame
Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que ficou conhecido como
"OAB da Medicina". Seria exigência de uma prova obrigatória para
médicos recém-formados receberem o registro profissional. Para o ministro
Camilo Santana, o Enamed já cumpre esse papel, juntamente com mais rigor no
monitoramento dos cursos, inclusive com visitas presenciais.
As sanções, conforme as notas obtidas, podem
incluir redução de vagas de ingresso (nota 2), chegando à suspensão do curso
(nota 1). Os conceitos 1 e 2 ainda terão suspendidos os contratos de
financiamento estudantil (Fies) e o de bolsas (Prouni). Caso não haja melhora
ou as medidas exigidas pelo MEC não forem cumpridas, os cursos poderão ser
extintos.
O relevante é que o tema está sendo debatido e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições aos cursos que obtiverem notas insuficientes.

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