sábado, 24 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O cinema brasileiro atingiu novo patamar

Por Correio Braziliense

O agente secreto consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual

Com quatro indicações ao Oscar, O agente secreto não é apenas um êxito artístico. É um marco histórico. O filme de Kleber Mendonça Filho consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual. Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor escalação de elenco e Melhor ator, para Wagner Moura — o conjunto das nomeações traduz, em linguagem de prestígio internacional, aquilo que o público brasileiro já vinha percebendo: há uma retomada consistente, madura e competitiva das nossas produções, capaz de dialogar com o mundo sem renunciar às nossas raízes.

O feito fica ainda maior quando se olha o caminho percorrido nas últimas três décadas e meia. O cinema nacional atravessou, no início dos anos 1990, um dos momentos mais traumáticos de sua história recente, com o desmonte da Embrafilme no governo Fernando Collor. O "enterro" da empresa simbolizou o fim de um modelo estatal de fomento e distribuição e a interrupção abrupta de uma estrutura industrial ainda frágil, que dependia de políticas públicas para existir. O resultado era previsível: produção rarefeita, salas dominadas pela lógica dos blockbusters americanos e uma geração inteira obrigada a improvisar sua sobrevivência artística em condições adversas.

Desde então, o cinema brasileiro traçou uma rota de reconstrução. Não por mágica, nem por sorte, mas por uma combinação de talento acumulado, resiliência cultural e políticas públicas que, com altos e baixos, reergueram os pilares de um setor estratégico. O cinema não é apenas entretenimento, representa trabalho, economia, tecnologia, linguagem, memória e identidade. Países que se levam a sério não terceirizam seu imaginário.

O sucesso internacional de O agente secreto é uma prova disso. Ao mesmo tempo em que expõe uma parte profunda do Brasil real — suas contradições, seus traumas, seus subterrâneos sociais e políticos —, o filme demonstra que a universalidade nasce da coragem de encarar o próprio território. A arte se torna universal quando se recusa a ser genérica. E o Brasil, quando se olha sem filtro, produz obras que atravessam fronteiras por reconhecerem a complexidade da condição humana: corpo, linguagem, medo, desejo e poder.

Sim, há controvérsias. O debate sobre financiamento público e incentivos à cultura tem sido sequestrado, muitas vezes, por caricaturas ideológicas. Há quem finja acreditar que cinema se faz sozinho, apenas com "mão invisível", como se fosse um produto industrial padronizado, sem risco e sem competição desigual. Há também, do outro lado, quem trate política cultural como dogma, sem transparência e sem discussão de eficiência. Entre essas duas simplificações, o cinema brasileiro aprendeu a combinar fomento, coprodução, mercado interno, circulação internacional e profissionalização técnica para avançar.

O orçamento de O agente secreto, com participação de recursos públicos e privados e apoio de coprodutores estrangeiros, não é exceção: é o padrão do cinema contemporâneo. Esse arranjo permite que a cinematografia nacional, diante das nossas desigualdades profundas e concentração de renda histórica, alcance outro patamar sem ser sufocado por uma máquina como Hollywood. A polêmica só se mantém viva porque parte do público brasileiro ainda não compreendeu que cultura é investimento. É política de Estado, não favor aos artistas.

Três Poderes adotam sigilo sem justificativa razoável

Por O Globo

Segredo veda acesso não só a processos de interesse público, mas a informações banais sobre quem pegou voos da FAB

O sigilo se tornou uma prática disseminada por todos os Poderes da República, ao contrário do que mandam os princípios da publicidade e da transparência, determinados pela Constituição. A medida deveria ser adotada por razões de privacidade ou segurança. Infelizmente é a cada dia mais frequente, na maioria das vezes sem nenhuma explicação razoável.

A Câmara impôs segredo à lista de passageiros do voo da FAB que transportou o presidente da Casa, Hugo Motta, ao estado do Rio, onde passou o réveillon num condomínio de luxo em Angra dos Reis, como informou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO. O avião, com 11 passageiros, saiu de João Pessoa (PB) e pousou no Aeroporto Santos Dumont no dia 26 de dezembro. No fim do ano passado, a Câmara já decretara sigilo sobre a lista de passageiros de um voo da FAB que levou Motta e o ministro Gilmar Mendes a Buenos Aires para participar do fórum jurídico organizado pelo decano do Supremo Tribunal Federal (STF).

As informações sobre o voo do réveillon, solicitadas com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), foram negadas sob o argumento de que as aeronaves são usadas por razões de segurança institucional que “impõem a necessidade de classificação sigilosa das informações”. Ora, qualquer autoridade da República pode alegar motivos de segurança institucional para colocar sob segredo dados de interesse público. Que grande ameaça ao Estado pode conter uma lista de passageiros num voo da FAB custeado pelo contribuinte?

O ministro Dias Toffoli, do STF, impôs sigilo elevado ao inquérito do Banco Master, que poderá revelar a maior fraude bancária da História do país. Em decisão inusitada, chegou a determinar que as provas colhidas na mais recente operação da Policia Federal (PF) ficassem no próprio Supremo (depois ordenou que fossem para a Procuradoria-Geral da República). Nem a PF, responsável pela operação, obteve acesso ao material. Apenas quatro peritos foram autorizados a analisá-lo, sob supervisão da PGR. Qual é a justificativa para tanto segredo num processo que deveria correr sob os olhos de todos?

No Executivo, há uma sucessão de sigilos em informações de interesse da sociedade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém trancafiados dados sobre visitas à primeira-dama, Janja Lula da Silva; gastos com uso do helicóptero presidencial; alimentação no Palácio da Alvorada; visitas de seus filhos ao Palácio do Planalto; gastos no cartão corporativo — e só recuou em raros casos depois da repercussão negativa. O estranhamento é maior porque, na campanha à Presidência, Lula criticava o então presidente Jair Bolsonaro pela prática recorrente de impor sigilo de cem anos. “Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom não precisa esconder”, disse. Estava certo ao falar. Errado ao fazer o mesmo no poder.

É compreensível que informações sensíveis sejam preservadas quando se trata de segredos de Estado ou dados que, vindo a público, causariam danos irreparáveis a investigações ou indivíduos. Mas chama a atenção a inclinação das autoridades pelo sigilo. A prática alimenta especulações sobre os motivos. A sociedade tem direito a saber o que se passa no Estado, sustentado pelo contribuinte. Como disse Lula, se nada há de errado, para que tanto segredo?

Tecnologia de reconhecimento facial é aliada fundamental contra o crime

Por O Globo

Prisão na Bahia de empresário condenado por homicídio mostra que as vantagens superam os riscos

A estilista Fernanda Orfali foi assassinada em setembro de 2002 com um tiro no peito no seu apartamento em Higienópolis, na capital paulista. O empresário Sergio Nahas, marido dela, foi condenado a sete anos de prisão pelo crime, pena depois ampliada para oito anos e dois meses. A condenação foi ratificada pelo Supremo Tribunal Federal em maio passado, mas Nahas estava foragido. No mês seguinte, a Justiça de São Paulo determinou a expedição de mandado de prisão e a inclusão do nome dele na lista de difusão vermelha da Interpol. No último dia 17, Nahas foi flagrado por uma câmera de segurança na Praia do Forte, na Bahia, e preso graças ao sistema de reconhecimento facial.

Trata-se de tecnologia cada vez mais usada por estados e municípios. Também na semana passada, Janaína Reis Miron, irmã do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), foi presa depois de flagrada pelo programa Smart Sampa, da prefeitura paulistana. Entre as várias aplicações, ele detecta, por meio de reconhecimento facial, cidadãos com mandados de prisão em aberto ou desaparecidos. Janaína fora condenada por embriaguez ao volante e desacato a PMs e era considerada foragida. Em outubro de 2022, foi parada numa rodovia em Botucatu, no interior paulista, quando ziguezagueava ao volante. Segundo os policiais que a abordaram, ela apresentava sinais de estar alcoolizada, recusou-se a fazer o teste do bafômetro, não portava documentos pessoais, e os documentos do veículo estavam vencidos. A condenação ocorreu em julho de 2025.

É verdade que, de início, as câmeras de reconhecimento facial instaladas país afora provocaram controvérsias. Não foram poucos os casos em que cidadãos inocentes acabaram submetidos a constrangimento ao ser confundidos com procurados. As falhas, porém, se tornaram mais raras. O reconhecimento de rostos também foi acusado de representar uma invasão indevida da privacidade. É uma crítica compreensível. Deve haver legislação impedindo acesso indevido aos dados e meios seguros de armazenamento e acesso para evitar vazamentos. Na prática, contudo, tudo isso já existe. E o sistema tem se mostrado útil em pontos de grande circulação, no acesso a estádios e em grandes eventos, como réveillon ou carnaval. No Rio, o governo estadual anunciou a compra de 220 mil câmeras de monitoramento para reconhecimento facial, leitura de placas de veículos e outras aplicações.

Instalar câmeras em profusão não bastará para resolver os graves problemas de segurança pública que afligem as cidades brasileiras. O policiamento ostensivo nos locais de maior incidência de crimes continua fundamental para reprimi-los e reduzir a violência. Mas a tecnologia é uma aliada fundamental, desde que esteja integrada a outras iniciativas e não seja apenas uma arma de propaganda. Toda e qualquer política pública destinada a combater essa chaga que atormenta o país será sempre bem-vinda.

Conselho de Trump quer oficializar a força bruta dos EUA

Por Folha de S. Paulo

Baseada em resolução subserviente da ONU, entidade é mais uma iniciativa contra o multilateralismo

Republicano pretende que os EUA estejam acima de qualquer acordo global, como mostra seu intervencionismo sobre Venezuela e Groenlândia

Donald Trump anunciou a criação de um "Conselho de Paz" internacional, presidido e organizado por ele mesmo, com o objetivo declarado de resolver conflitos pelo mundo e com potencial de substituir a ONU. Trata-se de mais uma iniciativa que procura dar cabo de organizações multilaterais e submeter o planeta à força da economia e das armas americanas.

Embora seja cada vez mais evidente a inoperância das Nações Unidas, Trump pretende dar como fato consumado, institucionalizado, que os Estados Unidos estão acima de qualquer acordo internacional. Na prática, assim o demonstra o intervencionismo de graus diversos sobre a Venezuela, o Irã e a Groenlândia.

No entanto a própria irrelevância da ONU está na origem desse exorbitante conselho de Trump —a malversação de uma decisão já espantosamente submissa do Conselho de Segurança da instituição multilateral.

Este aprovou, em novembro de 2025, um "Plano Abrangente para Acabar com o Conflito em Gaza", a proposta de paz de Trump para a região. Manchada por frases que bajulavam de modo constrangedor o presidente americano, a resolução criou uma espécie de protetorado sobre essa parte do território palestino, sob o comando de um Conselho de Paz, com mandato até o final de 2027.

Essa autoridade, pessoa jurídica internacional, seria responsável por fiscalizar e supervisionar uma administração palestina "tecnocrática e apolítica", encarregada de serviços de governo municipal. Poderia criar uma Força de Estabilização Internacional, que operaria sob consulta de Egito e Israel. Daria diretrizes para a reconstrução da Faixa de Gaza, entre outras autorizações.

Seria chefiada e presidida por Trump, diz o anexo do texto da resolução, aprovada por 13 dos 15 votos do colegiado, com abstenções de China e Rússia.

Não se tratava da montagem de organismo de cooperação internacional, mas de rendição a Trump. Em lance até agora não explicado oficialmente pela Casa Branca, esse foi o pretexto para a criação do tal novo conselho.

O governo americano até agora não divulgou as normas da organização, que foram enviadas aos cerca de 60 países convidados para dela fazerem parte. Do que vazou de seu conteúdo, não há menção a Gaza. Trump nomeou membros de sua gestão e um parente como executivos.

Por ora, mais de duas dezenas de países aceitaram o convite, vários deles autocracias. As nações maiores da Europa o recusaram ou não deram resposta oficial, assim como Brasil, Rússia e China.

Entre receios de retaliação e repulsa pela invenção ególatra e imperial de Donald Trump, os governos mais importantes tentam elaborar algum tipo de reação a esse órgão decorativo do sistema de agressões dos Estados Unidos. A questão, no entanto, é de longo prazo —na verdade, como criar um sistema de cooperação internacional que se contraponha à força bruta americana.

Reajuste para professores na prática

Por Folha de S. Paulo

Aumento acima da inflação do piso da categoria esbarra na realidade orçamentária de estados e municípios

É inescapável o debate sobre uma reforma do regime dos servidores; para isso, contudo, é imperativo abandonar posturas corporativistas

Na quarta (21), o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou em 5,4%, para R$ 5.130,63 mensais, o piso salarial de professores da educação básica da rede pública. Como se trata de medida provisória, que tem efeito imediato, o ganho acima da inflação já passa a valer neste início de 2026.

Pela regra até então vigente, a alta anual seria vinculada à variação dos recursos do Fundeb (fundo de financiamento do setor), o que resultaria em apenas 0,37% (R$ 18), bem abaixo da elevação do custo de vida em 2025, de 3,9% pelo INPC. Com a mudança de cálculo promovida pela MP, o acréscimo foi de R$ 262,86.

Por desejável que seja uma melhor remuneração para os docentes, a medida de Lula esbarra na realidade orçamentária de estados e municípios, os reais responsáveis pela nova despesa —ainda que localidades mais pobres contem com a ajuda do Fundeb.

A Confederação Nacional de Municípios, que se opõe ao valor do reajuste, estima que a medida trará um impacto de R$ 8 bilhões aos cofres das prefeituras.

Para conter a alta de gastos permanentes, dados o déficit dos sistemas previdenciários e o envelhecimento populacional, os entes federativos recorrem à contratação de professores temporários, cujo número tem aumentado nos últimos anos.

Levantamento da ONG Todos pela Educação mostra que, de 2013 a 2023, a parcela de docentes concursados nas redes estaduais caiu de 68,4% para 46,5%, enquanto a de temporários subiu de 31,1% para 51,6% —os demais são terceirizados ou celetistas.

Nos municípios, de acordo com o Censo Escolar 2024, os temporários ainda não superaram os efetivos, somando 35,4%. Mas há variações expressivas, de 9,9% no Paraná a 60% em Alagoas.

Nesse sentido, é inescapável o debate sobre uma reforma do regime dos servidores que facilite gestões mais flexíveis e racionais, não só por questões orçamentárias, mas para melhorar indicadores de aprendizagem.

É necessário rever a estabilidade em carreiras que não são de Estado e implementar avaliações de desempenho para aperfeiçoar o ensino e respaldar aumento de remunerações ou substituição de profissionais.

Parcerias público-privadas em infraestrutura e manutenção de escolas, desde que bem desenhadas e reguladas, também têm potencial para aliviar orçamentos engessados por gastos obrigatórios que limitam investimentos.

Para isso, é imperativo abandonar posturas corporativistas, baseadas em ideologia datada, que focam apenas em expansão de salários e do funcionalismo.

Está faltando humildade ao Supremo

Por O Estado de S. Paulo

A nota de Edson Fachin em defesa da atuação de Dias Toffoli no caso Master trata críticas legítimas como ‘ataques’ e expõe a recalcitrância da Corte em se submeter aos controles republicanos

Supõe-se que a nota divulgada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, em defesa da Corte e da atuação do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master pretendia sinalizar força institucional. Em vão. Ao endossar o colega, sem ressalvas, por sua condução do caso amplamente questionada pela comunidade jurídica e pela opinião pública, Fachin expôs mais fragilidade – inclusive pessoal – do que firmeza. Ademais, manteve vivas as suspeitas que o próprio Supremo deveria dissipar.

Segundo Fachin, Toffoli age na “regular supervisão judicial” das investigações, com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. A impressão que se tem, data maxima venia, é de que Fachin sentiu-se compelido a pagar um pedágio, digamos assim, para ministros que, ao que parece, são bem mais fortes do que ele nos arranjos internos do STF. Só isso explica sua omissão, na nota, diante da pletora de evidências de que a relatoria de Toffoli no caso Master pode ser tudo, menos “regular”.

É fácil enumerar em texto dispositivos constitucionais e princípios democráticos dos quais ninguém de boa-fé haverá de discordar. Difícil – e corajoso – seria deixar de lado o espírito de corpo e enfrentar os fatos que colocam em xeque a regularidade daquela supervisão e, principalmente, a própria competência do STF para exercê-la.

À omissão soma-se o fato de Fachin incorrer no velho cacoete de tratar críticas legítimas ao STF como “ameaças” ou “ataques”. Ora, criticar a Corte ou cobrar explicações por comportamentos impróprios de seus ministros não constitui ataque à instituição nem muito menos ao Estado Democrático de Direito. Ao contrário: é um exercício de cidadania que só os fortalece. Para piorar, ao desdenhar da “pressão midiática”, Fachin desqualifica o papel da imprensa profissional, que se limitou a divulgar fatos de interesse público e a formular perguntas sobre o caso Master, seus executivos e autoridades que permanecem no ar.

Em paralelo à nota de Fachin, o decano do STF, ministro Gilmar Mendes, foi a uma rede social celebrar a decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR) de arquivar sumariamente os pedidos de impedimento de Toffoli formulados por parlamentares. Mendes falou em “funcionamento regular das instituições” e em “decisões (de Toffoli) fundadas em critérios jurídicos objetivos”. É mais uma retórica absolutamente dissociada da realidade factual.

Como já sublinhamos nesta página, e juristas em uníssono já o expuseram ao Estadão, há razões legais para o impedimento de Toffoli como relator do caso Master. É ocioso voltar a enumerá-las. Há, também, muitas perguntas ainda sem respostas. Por que o inquérito do Banco Master tramita no STF, se os investigados não têm prerrogativa de foro? Por que o ministro relator impôs sigilo às investigações? Que interesses, afinal, estão recebendo guarida na mais alta instância judicial do País?

Essas dúvidas, não sanadas por Fachin, só se fortaleceram após virem a público as relações pessoais e familiares de Toffoli com pessoas ligadas a investigados sob sua jurisdição. Ainda que, a priori, não se esteja diante de ilícitos, só essa proximidade pessoal do relator já expõe um conflito de interesses incontornável. Não admiti-lo é falta de humildade, como se os ministros do STF fossem seres morais superiores, e não servidores públicos submetidos a controles republicanos.

É nesse contexto que causa perplexidade a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de arquivar os pedidos de afastamento de Toffoli. Não se pode condenar quem veja esse comportamento do chefe do Ministério Público Federal como submissão ao Supremo, não à ordem jurídica que o parquet tem por missão constitucional defender. A PGR não pode se rebaixar à condição de apêndice da Corte, muito menos de um punhado de ministros, sob pena de acabar com sua independência.

O Supremo não é uma instância imune ao escrutínio da opinião pública. Seu poder é contrabalançado por mecanismos de controle previstos na Constituição, entre eles a crítica social e a fiscalização do Senado. Colocar a Corte em um pedestal, acima de qualquer questionamento, como fez Fachin, não a fortalece – só aumenta a desconfiança.

A cegueira europeia

Por O Estado de S. Paulo

Em meio à necessidade imperiosa de diversificar mercados para sobreviver ao furacão Trump, os europeus viciados em protecionismo conseguem atrasar o acordo entre Mercosul e UE

Por um placar apertado, 334 a 324, o Parlamento Europeu aprovou uma moção que judicializa o acordo recém-assinado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, criando mais um obstáculo para que o maior tratado de livre-comércio do mundo passe finalmente a vigorar.

Cabe agora ao Tribunal de Justiça da UE se pronunciar sobre duas questões levantadas pelos eurodeputados: se o acordo pode passar a valer antes de ser ratificado por cada um dos 27 Estados-membros da UE, e se o texto final do tratado limita a capacidade da União Europeia de, por exemplo, determinar regras ambientais.

A instância jurídica pode levar até dois anos para se manifestar, ou seja, mesmo que não dê razão aos questionamentos dos eurodeputados, um acordo que levou mais de 25 anos para ser firmado terá sua vigência, que já é de natureza lenta, ainda mais retardada.

Há a possibilidade, porém, de que a Comissão Europeia, órgão executivo que é politicamente independente da UE, coloque o acordo em prática de forma provisória.

Seria a primeira vez, porém, que um acordo de livre-comércio europeu passaria a vigorar em caráter temporário, o que por óbvio causaria desgaste entre a Comissão Europeia e os opositores ao acordo, sobretudo a França.

Mesmo inundada por produtos chineses e sob ameaça constante dos EUA, que sob Donald Trump deixaram de ser um parceiro previsível, parte da Europa segue aferrada à sua recalcitrância quando se trata do Mercosul.

Agricultores europeus, inconformados com a competitividade dos sul-americanos, seguem difamando a produção agrícola do Mercosul. Ignoram que, com o acordo, o bloco composto por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai também vai zerar a alíquota de itens agrícolas europeus, como o azeite.

Além disso, com o tratado, o Mercosul se abre a produtos industrializados fabricados na União Europeia, o que muito interessa a países como a Alemanha, que internamente se vê cada vez mais engolida pela China.

Não há motivo nenhum para que o acordo não seja posto em prática. Não havia antes, e não há muito menos agora, quando as ações tresloucadas de Donald Trump redesenham os fluxos do comércio global. Quanto mais tempo a Europa permanecer enredada pelo lobby de alguns produtores agrícolas viciados em protecionismo, pior para ela mesma.

Da parte do Mercosul, a rara união demonstrada em relação ao acordo pelos líderes de diferentes matizes ideológicos do bloco deve ser mantida, pois, tal como a Europa, a região se vê cada vez mais tomada por produtos chineses.

É fundamental que os parlamentos dos países-membros do Mercosul ratifiquem o quanto antes o acordo com a UE, o que enviaria um forte sinal do quanto os sul-americanos estão comprometidos com o estreitamento de suas relações comerciais com os parceiros europeus.

Como se sabe, o tratado entre o Mercosul e a UE eliminará gradativamente tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral entre as duas regiões, beneficiando uma população de mais de 700 milhões de pessoas, que responde por cerca de um quarto do PIB global.

Felizmente, do lado brasileiro, Executivo e Legislativo têm demonstrado que, pelo menos em relação ao Mercosul, trabalharão conjuntamente para seguirem vencendo os percalços impostos pelos europeus.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, também titular do Ministério da Indústria e Comércio, assegurou que o governo trabalhará para acelerar a aprovação do acordo, e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve encaminhar prontamente ao Congresso a proposta de adesão ao tratado.

Já o presidente da Comissão de Relações Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), garantiu que o Legislativo dará celeridade à tramitação do texto. Ele também se reuniu com a embaixadora da União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf. Ela, com razão, declarou ter certeza de que o acordo é um “ganha-ganha” e que será um divisor de águas para as duas regiões.

Resta aos europeus abandonarem a teimosia, cujos prejuízos vão se intensificar à medida que a China inunda o mundo com suas mercadorias e os EUA de Trump adotam a lei da selva.

A recomposição do FGC

Por O Estado de S. Paulo

Esperada, liquidação da Will Financeira reforça discussões sobre mudanças no FGC

Em mais um desdobramento do caso Master, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, ou Will Bank, fintech que também era controlada pelo polêmico Daniel Vorcaro.

Com isso, além de desembolsar mais de R$ 40 bilhões a título de ressarcimento a investidores do Master, processo que acabou de ter início, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estima que pode ter de restituir outros R$ 6,3 bilhões a clientes da Will Financeira.

É verdade que a liquidação da Will não pegou o FGC de surpresa. A fintech já se encontrava sob a gestão de um conselho indicado pelo Banco Central desde novembro, quando o Master foi liquidado.

Sob o Regime de Administração Especial Temporária (Raet), mecanismo adotado pelo BC para ganhar tempo e possibilitar uma solução de mercado, a Will descumpriu um acordo com a empresa de pagamentos Mastercard. Por conta disso, o BC não teve como não decretar a liquidação.

Nesse cenário, as discussões sobre a recomposição do caixa do FGC devem ganhar ainda mais força. Só com o pagamento de garantias aos investidores do Master, o fundo deve consumir aproximadamente um terço de seu caixa.

Vorcaro, que, segundo relatos, se vê como um perseguido pelos bancos tradicionais, desvirtuou o propósito do FGC, vendendo produtos de alto risco usando o Fundo Garantidor de Créditos como chamariz.

Na prática, o Master usou o FGC como isca para vender seus CDBs anabolizados, e por isso mesmo de alto risco, e agora obriga a maioria verdadeiramente séria dos membros do fundo a arcar com a conta – ou seja, socializou prejuízos.

De acordo com o jornal Valor, os cerca de 250 bancos associados ao FGC discutem um aporte de R$ 30 bilhões no fundo, o que equivale a uma antecipação de cinco anos de contribuição desses associados.

Para além do aporte necessário para a recomposição do caixa, há também outras questões relevantes, como, por exemplo, o escopo do reembolso. Pelas regras atuais, CPFs com até R$ 250 mil investidos em produtos cobertos pelo FGC são elegíveis a ressarcimento.

Em 2024, o senador Ciro Nogueira, apontado como um dos contatos poderosos de Daniel Vorcaro, chegou a apresentar proposta para elevar o limite de reembolso do FGC para R$ 1 milhão por CPF e mudar a natureza do fundo de privada para pública. Caso tivesse passado, o Estado hoje estaria arcando com desembolsos ainda maiores que os que têm sido feitos pelo FGC, cuja natureza deve seguir privada.

Ainda no âmbito dos ressarcimentos, há especialistas que defendem que somente o montante investido, e não os rendimentos, sejam garantidos pelo FGC. A alteração teria caráter educativo. Todo investimento envolve risco. Quanto maior a promessa de rentabilidade, maior também a possibilidade de levar um tombo. O caso Master só comprova que a relação entre risco e retorno segue como uma das regras de ouro do mercado.

Ao menos no caso do FGC, a debacle do Master pode resultar em adaptações que tornem o fundo ainda mais sólido do que vem demonstrando ser, o que é de total interesse de bancos e investidores.

Até quando continuará o show de horrores de Trump?

Por O Povo (CE)

O objetivo declarado da Casa Branca com o Conselho da Paz é enfraquecer a Organização das Nações Unidas (ONU)

O show de horrores que o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, vem conduzindo desde o início de seu segundo mandato parece não ter fim. Ele se mostra cada vez mais como um mentiroso profissional e inconsequente, abalando as relações internacionais com seus disparates verbais, perigosos porque ele os põe em prática.

Um dos exemplos mais evidentes foi o ataque militar à Venezuela, quando capturou o então presidente Nicolás Maduro e a mulher dele. A ação pode ser considerada um sequestro, pois claramente violou leis internacionais, de respeito à soberania dos países.

A obsessão de Trump agora é tornar-se dono da Groenlândia, tanto que, por meio da inteligência artificial, foi divulgada em redes sociais uma imagem dele fincando uma bandeira americana no território autônomo do Reino da Dinamarca.

Depois das ameaças de tomar a Groenlândia à força, Trump fez um discurso na quarta-feira, no Fórum Econômico de Davos, afirmando que não planejava invadir a ilha. Mas quem acredita?

Ele anunciou então que uma suposta "estrutura de acordo" estaria em negociação com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ocorre que Rutte afirmou que não houve nenhum tipo de conversa quanto à soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia. Mesmo porque o secretário-geral da aliança militar do Ocidente não tem esse poder.

Esse é mais um dos casos em que Trump pretende que as mentiras que ele conta se transformem em realidade, sem considerar as consequências de suas palavras; ou mesmo para provocar propositalmente um choque destrutivo.

Outro impasse é o "Conselho de Paz", para negociar o fim do conflito em Gaza, que opõe Israel e palestinos. Trump lançou o conselho oficialmente nesta quinta-feira, na reunião de Davos. O presente americano autonomeou-se uma espécie de dono do conselho. Ele será o presidente vitalício e o único que terá poder de veto e de fazer convite para a entrada de novos participantes. O país que quiser um assento permanente terá de pagar U$ 1 bilhão.

Dos cerca de 50 convites para compor o Conselho, aproximadamente 30 aceitaram participar. A maioria, países do Oriente Médio, Ásia e América do Sul, uma parte deles são regimes autoritários. A carta de fundação do Conselho não cita a palavra "democracia" uma única vez.

Israel foi convidado, mas não a Palestina. O Brasil recebeu convite, mas ainda não respondeu. Até agora, nenhum dos grandes países europeus aceitou participar da entidade.

O objetivo declarado de Trump com o Conselho da Paz é enfraquecer e substituir a Organização das Nações Unidas (ONU), em sua eterna guerra contra os organismos multilaterais.


 

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