O cinema brasileiro atingiu novo patamar
Por Correio Braziliense
O agente secreto consolida um novo patamar do
cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa
exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual
Com quatro indicações ao Oscar, O agente secreto não é apenas um êxito artístico. É um marco histórico. O filme de Kleber Mendonça Filho consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual. Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor escalação de elenco e Melhor ator, para Wagner Moura — o conjunto das nomeações traduz, em linguagem de prestígio internacional, aquilo que o público brasileiro já vinha percebendo: há uma retomada consistente, madura e competitiva das nossas produções, capaz de dialogar com o mundo sem renunciar às nossas raízes.
O feito fica ainda maior quando se olha o
caminho percorrido nas últimas três décadas e meia. O cinema nacional
atravessou, no início dos anos 1990, um dos momentos mais traumáticos de sua
história recente, com o desmonte da Embrafilme no governo Fernando Collor. O
"enterro" da empresa simbolizou o fim de um modelo estatal de fomento
e distribuição e a interrupção abrupta de uma estrutura industrial ainda
frágil, que dependia de políticas públicas para existir. O resultado era
previsível: produção rarefeita, salas dominadas pela lógica dos blockbusters
americanos e uma geração inteira obrigada a improvisar sua sobrevivência
artística em condições adversas.
Desde então, o cinema brasileiro traçou uma
rota de reconstrução. Não por mágica, nem por sorte, mas por uma combinação de
talento acumulado, resiliência cultural e políticas públicas que, com altos e
baixos, reergueram os pilares de um setor estratégico. O cinema não é apenas
entretenimento, representa trabalho, economia, tecnologia, linguagem, memória e
identidade. Países que se levam a sério não terceirizam seu imaginário.
O sucesso internacional de O agente secreto é
uma prova disso. Ao mesmo tempo em que expõe uma parte profunda do Brasil real
— suas contradições, seus traumas, seus subterrâneos sociais e políticos —, o
filme demonstra que a universalidade nasce da coragem de encarar o próprio
território. A arte se torna universal quando se recusa a ser genérica. E o
Brasil, quando se olha sem filtro, produz obras que atravessam fronteiras por
reconhecerem a complexidade da condição humana: corpo, linguagem, medo, desejo
e poder.
Sim, há controvérsias. O debate sobre
financiamento público e incentivos à cultura tem sido sequestrado, muitas
vezes, por caricaturas ideológicas. Há quem finja acreditar que cinema se faz
sozinho, apenas com "mão invisível", como se fosse um produto
industrial padronizado, sem risco e sem competição desigual. Há também, do
outro lado, quem trate política cultural como dogma, sem transparência e sem
discussão de eficiência. Entre essas duas simplificações, o cinema brasileiro
aprendeu a combinar fomento, coprodução, mercado interno, circulação
internacional e profissionalização técnica para avançar.
O orçamento de O agente secreto, com participação de recursos públicos e privados e apoio de coprodutores estrangeiros, não é exceção: é o padrão do cinema contemporâneo. Esse arranjo permite que a cinematografia nacional, diante das nossas desigualdades profundas e concentração de renda histórica, alcance outro patamar sem ser sufocado por uma máquina como Hollywood. A polêmica só se mantém viva porque parte do público brasileiro ainda não compreendeu que cultura é investimento. É política de Estado, não favor aos artistas.
Três Poderes adotam sigilo sem justificativa
razoável
Por O Globo
Segredo veda acesso não só a processos de
interesse público, mas a informações banais sobre quem pegou voos da FAB
O sigilo se tornou uma prática disseminada
por todos os Poderes da República, ao contrário do que mandam os princípios da
publicidade e da transparência, determinados pela Constituição. A medida
deveria ser adotada por razões de privacidade ou segurança. Infelizmente é a
cada dia mais frequente, na maioria das vezes sem nenhuma explicação razoável.
A Câmara impôs segredo à lista de passageiros
do voo da FAB que transportou o presidente da Casa, Hugo Motta,
ao estado do Rio, onde passou o réveillon num condomínio de luxo em Angra dos
Reis, como
informou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO. O avião, com 11
passageiros, saiu de João Pessoa (PB) e pousou no Aeroporto Santos Dumont no
dia 26 de dezembro. No fim do ano passado, a Câmara já decretara sigilo sobre a
lista de passageiros de um voo da FAB que levou Motta e o ministro Gilmar
Mendes a Buenos Aires para participar do fórum jurídico organizado pelo decano
do Supremo Tribunal Federal (STF).
As informações sobre o voo do réveillon,
solicitadas com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), foram negadas sob o
argumento de que as aeronaves são usadas por razões de segurança institucional
que “impõem a necessidade de classificação sigilosa das informações”. Ora,
qualquer autoridade da República pode alegar motivos de segurança institucional
para colocar sob segredo dados de interesse público. Que grande ameaça ao
Estado pode conter uma lista de passageiros num voo da FAB custeado pelo
contribuinte?
O ministro Dias
Toffoli, do STF, impôs sigilo elevado ao inquérito do Banco Master,
que poderá revelar a maior fraude bancária da História do país. Em decisão
inusitada, chegou a determinar que as provas colhidas na mais recente operação
da Policia Federal (PF) ficassem no próprio Supremo (depois ordenou que fossem
para a Procuradoria-Geral da República). Nem a PF, responsável pela operação,
obteve acesso ao material. Apenas quatro peritos foram autorizados a
analisá-lo, sob supervisão da PGR. Qual é a justificativa para tanto segredo
num processo que deveria correr sob os olhos de todos?
No Executivo, há uma sucessão de sigilos em
informações de interesse da sociedade. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva mantém trancafiados dados sobre visitas à primeira-dama, Janja Lula
da Silva; gastos com uso do helicóptero presidencial; alimentação no Palácio da
Alvorada; visitas de seus filhos ao Palácio do Planalto; gastos no cartão
corporativo — e só recuou em raros casos depois da repercussão negativa. O
estranhamento é maior porque, na campanha à Presidência, Lula criticava o então
presidente Jair Bolsonaro pela prática recorrente de impor sigilo de cem anos.
“Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde
tanta coisa. Afinal de contas, se é bom não precisa esconder”, disse. Estava
certo ao falar. Errado ao fazer o mesmo no poder.
É compreensível que informações sensíveis
sejam preservadas quando se trata de segredos de Estado ou dados que, vindo a
público, causariam danos irreparáveis a investigações ou indivíduos. Mas chama
a atenção a inclinação das autoridades pelo sigilo. A prática alimenta
especulações sobre os motivos. A sociedade tem direito a saber o que se passa
no Estado, sustentado pelo contribuinte. Como disse Lula, se nada há de errado,
para que tanto segredo?
Tecnologia de reconhecimento facial é aliada
fundamental contra o crime
Por O Globo
Prisão na Bahia de empresário condenado por
homicídio mostra que as vantagens superam os riscos
A estilista Fernanda Orfali foi assassinada
em setembro de 2002 com um tiro no peito no seu apartamento em Higienópolis, na
capital paulista. O empresário Sergio Nahas, marido dela, foi condenado a sete
anos de prisão pelo crime, pena depois ampliada para oito anos e dois meses. A
condenação foi ratificada pelo Supremo Tribunal Federal em maio passado, mas
Nahas estava foragido. No mês seguinte, a Justiça de São Paulo determinou
a expedição de mandado de prisão e a inclusão do nome dele na lista de difusão
vermelha da Interpol. No último dia 17, Nahas foi flagrado por uma câmera de
segurança na Praia do Forte, na Bahia, e preso graças
ao sistema de reconhecimento facial.
Trata-se de tecnologia cada vez mais usada
por estados e municípios. Também na semana passada, Janaína Reis Miron, irmã do
prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB),
foi presa depois de flagrada pelo programa Smart Sampa, da prefeitura
paulistana. Entre as várias aplicações, ele detecta, por meio de reconhecimento
facial, cidadãos com mandados de prisão em aberto ou desaparecidos. Janaína
fora condenada por embriaguez ao volante e desacato a PMs e era considerada
foragida. Em outubro de 2022, foi parada numa rodovia em Botucatu, no interior
paulista, quando ziguezagueava ao volante. Segundo os policiais que a
abordaram, ela apresentava sinais de estar alcoolizada, recusou-se a fazer o
teste do bafômetro, não portava documentos pessoais, e os documentos do veículo
estavam vencidos. A condenação ocorreu em julho de 2025.
É verdade que, de início, as câmeras de
reconhecimento facial instaladas país afora provocaram controvérsias. Não foram
poucos os casos em que cidadãos inocentes acabaram submetidos a constrangimento
ao ser confundidos com procurados. As falhas, porém, se tornaram mais raras. O
reconhecimento de rostos também foi acusado de representar uma invasão indevida
da privacidade. É uma crítica compreensível. Deve haver legislação impedindo
acesso indevido aos dados e meios seguros de armazenamento e acesso para evitar
vazamentos. Na prática, contudo, tudo isso já existe. E o sistema tem se
mostrado útil em pontos de grande circulação, no acesso a estádios e em grandes
eventos, como réveillon ou carnaval. No Rio, o governo estadual anunciou a
compra de 220 mil câmeras de monitoramento para reconhecimento facial, leitura
de placas de veículos e outras aplicações.
Instalar câmeras em profusão não bastará para resolver os graves problemas de segurança pública que afligem as cidades brasileiras. O policiamento ostensivo nos locais de maior incidência de crimes continua fundamental para reprimi-los e reduzir a violência. Mas a tecnologia é uma aliada fundamental, desde que esteja integrada a outras iniciativas e não seja apenas uma arma de propaganda. Toda e qualquer política pública destinada a combater essa chaga que atormenta o país será sempre bem-vinda.
Conselho de Trump quer oficializar a força
bruta dos EUA
Por Folha de S. Paulo
Baseada em resolução subserviente da ONU,
entidade é mais uma iniciativa contra o multilateralismo
Republicano pretende que os EUA estejam acima
de qualquer acordo global, como mostra seu intervencionismo sobre Venezuela e
Groenlândia
Donald Trump anunciou a
criação de um "Conselho de Paz" internacional, presidido e
organizado por ele mesmo, com o objetivo declarado de resolver conflitos pelo
mundo e com potencial de substituir a ONU. Trata-se
de mais uma iniciativa que procura dar cabo de organizações multilaterais e
submeter o planeta à força da economia e das armas americanas.
Embora seja cada vez mais evidente a
inoperância das Nações Unidas, Trump pretende dar como fato consumado,
institucionalizado, que os Estados
Unidos estão acima de qualquer acordo internacional. Na
prática, assim o demonstra
o intervencionismo de graus diversos sobre a Venezuela,
o Irã e
a Groenlândia.
No entanto a própria irrelevância da ONU está
na origem desse exorbitante conselho de Trump —a malversação de uma decisão já
espantosamente submissa do Conselho de Segurança da instituição multilateral.
Este aprovou, em novembro de 2025, um
"Plano Abrangente para Acabar com o Conflito em Gaza", a proposta de
paz de Trump para a região. Manchada por frases que bajulavam de modo
constrangedor o presidente americano, a resolução criou uma espécie de protetorado
sobre essa parte do território palestino, sob o comando de um Conselho de Paz,
com mandato até o final de 2027.
Essa autoridade, pessoa jurídica
internacional, seria responsável por fiscalizar e supervisionar uma
administração palestina "tecnocrática e apolítica", encarregada de
serviços de governo municipal. Poderia criar uma Força de Estabilização
Internacional, que operaria sob consulta de Egito e Israel.
Daria diretrizes para a reconstrução da Faixa de Gaza,
entre outras autorizações.
Seria chefiada e presidida por Trump, diz o
anexo do texto da resolução, aprovada por 13 dos 15 votos do colegiado, com
abstenções de China e Rússia.
Não se tratava da montagem de organismo de
cooperação internacional, mas de rendição a Trump. Em lance até agora não
explicado oficialmente pela Casa Branca, esse foi o pretexto para a criação do
tal novo conselho.
O governo americano até agora não divulgou as
normas da organização, que foram enviadas aos cerca de 60 países convidados
para dela fazerem parte. Do que vazou de seu conteúdo, não há menção a Gaza.
Trump nomeou membros de sua gestão e um parente como executivos.
Por ora, mais de duas dezenas de países
aceitaram o convite, vários deles autocracias. As nações maiores da Europa o
recusaram ou não deram resposta oficial, assim como Brasil, Rússia e China.
Entre receios de retaliação e repulsa pela
invenção ególatra e imperial de Donald Trump, os governos mais importantes
tentam elaborar algum tipo de reação a esse órgão decorativo do sistema de
agressões dos Estados Unidos. A questão, no entanto, é de longo prazo —na
verdade, como criar um sistema de cooperação internacional que se contraponha à
força bruta americana.
Reajuste para professores na prática
Por Folha de S. Paulo
Aumento acima da inflação do piso da
categoria esbarra na realidade orçamentária de estados e municípios
É inescapável o debate sobre uma reforma do
regime dos servidores; para isso, contudo, é imperativo abandonar posturas
corporativistas
Na quarta (21), o governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) aumentou em
5,4%, para R$ 5.130,63 mensais, o piso salarial de professores
da educação básica
da rede pública. Como se trata de medida provisória, que tem efeito imediato, o
ganho acima da inflação já passa a valer neste início de 2026.
Pela regra até então vigente, a alta anual
seria vinculada à variação dos recursos do Fundeb (fundo de financiamento do
setor), o que resultaria em apenas 0,37% (R$ 18), bem abaixo da elevação do
custo de vida em 2025, de 3,9% pelo INPC. Com a mudança de cálculo promovida
pela MP, o acréscimo foi de R$ 262,86.
Por desejável que seja uma melhor remuneração
para os docentes, a medida de Lula esbarra na realidade orçamentária de estados
e municípios, os reais responsáveis pela nova despesa —ainda que localidades
mais pobres contem com a ajuda do Fundeb.
A Confederação Nacional de Municípios, que se
opõe ao valor do reajuste, estima que a medida trará um impacto de R$ 8 bilhões
aos cofres das prefeituras.
Para conter a alta de gastos permanentes,
dados o déficit dos sistemas previdenciários e o envelhecimento populacional,
os entes federativos recorrem à contratação de professores temporários, cujo
número tem aumentado nos últimos anos.
Levantamento da ONG Todos pela Educação
mostra que, de 2013 a 2023, a parcela de docentes concursados nas redes
estaduais caiu de 68,4% para 46,5%, enquanto a de
temporários subiu de 31,1% para 51,6% —os demais são
terceirizados ou celetistas.
Nos municípios, de acordo com o Censo Escolar
2024, os temporários ainda não superaram os efetivos, somando 35,4%. Mas há
variações expressivas, de 9,9% no Paraná a 60% em Alagoas.
Nesse sentido, é inescapável o debate sobre
uma reforma do regime dos servidores que facilite gestões mais flexíveis e
racionais, não só por questões orçamentárias, mas para melhorar indicadores de
aprendizagem.
É necessário rever a estabilidade em
carreiras que não são de Estado e implementar avaliações de desempenho para
aperfeiçoar o ensino e respaldar aumento de remunerações ou substituição de
profissionais.
Parcerias público-privadas em infraestrutura e
manutenção de escolas, desde que bem desenhadas e reguladas, também têm potencial
para aliviar orçamentos engessados por gastos obrigatórios que
limitam investimentos.
Para isso, é imperativo abandonar posturas corporativistas, baseadas em ideologia datada, que focam apenas em expansão de salários e do funcionalismo.
Está faltando humildade ao Supremo
Por O Estado de S. Paulo
A nota de Edson Fachin em defesa da atuação
de Dias Toffoli no caso Master trata críticas legítimas como ‘ataques’ e expõe
a recalcitrância da Corte em se submeter aos controles republicanos
Supõe-se que a nota divulgada pelo presidente
do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, em defesa da Corte e
da atuação do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master pretendia
sinalizar força institucional. Em vão. Ao endossar o colega, sem ressalvas, por
sua condução do caso amplamente questionada pela comunidade jurídica e pela
opinião pública, Fachin expôs mais fragilidade – inclusive pessoal – do que
firmeza. Ademais, manteve vivas as suspeitas que o próprio Supremo deveria dissipar.
Segundo Fachin, Toffoli age na “regular
supervisão judicial” das investigações, com respeito ao devido processo legal,
ao contraditório e à ampla defesa. A impressão que se tem, data maxima venia, é de que
Fachin sentiu-se compelido a pagar um pedágio, digamos assim, para ministros
que, ao que parece, são bem mais fortes do que ele nos arranjos internos do
STF. Só isso explica sua omissão, na nota, diante da pletora de evidências de
que a relatoria de Toffoli no caso Master pode ser tudo, menos “regular”.
É fácil enumerar em texto dispositivos
constitucionais e princípios democráticos dos quais ninguém de boa-fé haverá de
discordar. Difícil – e corajoso – seria deixar de lado o espírito de corpo e enfrentar
os fatos que colocam em xeque a regularidade daquela supervisão e,
principalmente, a própria competência do STF para exercê-la.
À omissão soma-se o fato de Fachin incorrer
no velho cacoete de tratar críticas legítimas ao STF como “ameaças” ou “ataques”.
Ora, criticar a Corte ou cobrar explicações por comportamentos impróprios de
seus ministros não constitui ataque à instituição nem muito menos ao Estado
Democrático de Direito. Ao contrário: é um exercício de cidadania que só os
fortalece. Para piorar, ao desdenhar da “pressão midiática”, Fachin
desqualifica o papel da imprensa profissional, que se limitou a divulgar fatos
de interesse público e a formular perguntas sobre o caso Master, seus
executivos e autoridades que permanecem no ar.
Em paralelo à nota de Fachin, o decano do
STF, ministro Gilmar Mendes, foi a uma rede social celebrar a decisão da
Procuradoria-Geral da República (PGR) de arquivar sumariamente os pedidos de
impedimento de Toffoli formulados por parlamentares. Mendes falou em “funcionamento
regular das instituições” e em “decisões (de
Toffoli) fundadas em critérios jurídicos objetivos”. É mais uma
retórica absolutamente dissociada da realidade factual.
Como já sublinhamos nesta página, e juristas
em uníssono já o expuseram ao Estadão, há
razões legais para o impedimento de Toffoli como relator do caso Master. É
ocioso voltar a enumerá-las. Há, também, muitas perguntas ainda sem respostas.
Por que o inquérito do Banco Master tramita no STF, se os investigados não têm
prerrogativa de foro? Por que o ministro relator impôs sigilo às investigações?
Que interesses, afinal, estão recebendo guarida na mais alta instância judicial
do País?
Essas dúvidas, não sanadas por Fachin, só se
fortaleceram após virem a público as relações pessoais e familiares de Toffoli
com pessoas ligadas a investigados sob sua jurisdição. Ainda que, a priori, não se esteja diante de
ilícitos, só essa proximidade pessoal do relator já expõe um conflito de
interesses incontornável. Não admiti-lo é falta de humildade, como se os
ministros do STF fossem seres morais superiores, e não servidores públicos
submetidos a controles republicanos.
É nesse contexto que causa perplexidade a
decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de arquivar os pedidos
de afastamento de Toffoli. Não se pode condenar quem veja esse comportamento do
chefe do Ministério Público Federal como submissão ao Supremo, não à ordem
jurídica que o parquet tem
por missão constitucional defender. A PGR não pode se rebaixar à condição de
apêndice da Corte, muito menos de um punhado de ministros, sob pena de acabar
com sua independência.
O Supremo não é uma instância imune ao
escrutínio da opinião pública. Seu poder é contrabalançado por mecanismos de
controle previstos na Constituição, entre eles a crítica social e a
fiscalização do Senado. Colocar a Corte em um pedestal, acima de qualquer
questionamento, como fez Fachin, não a fortalece – só aumenta a desconfiança.
A cegueira europeia
Por O Estado de S. Paulo
Em meio à necessidade imperiosa de
diversificar mercados para sobreviver ao furacão Trump, os europeus viciados em
protecionismo conseguem atrasar o acordo entre Mercosul e UE
Por um placar apertado, 334 a 324, o
Parlamento Europeu aprovou uma moção que judicializa o acordo recém-assinado
entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, criando mais um obstáculo para que o
maior tratado de livre-comércio do mundo passe finalmente a vigorar.
Cabe agora ao Tribunal de Justiça da UE se
pronunciar sobre duas questões levantadas pelos eurodeputados: se o acordo pode
passar a valer antes de ser ratificado por cada um dos 27 Estados-membros da
UE, e se o texto final do tratado limita a capacidade da União Europeia de, por
exemplo, determinar regras ambientais.
A instância jurídica pode levar até dois anos
para se manifestar, ou seja, mesmo que não dê razão aos questionamentos dos
eurodeputados, um acordo que levou mais de 25 anos para ser firmado terá sua
vigência, que já é de natureza lenta, ainda mais retardada.
Há a possibilidade, porém, de que a Comissão
Europeia, órgão executivo que é politicamente independente da UE, coloque o
acordo em prática de forma provisória.
Seria a primeira vez, porém, que um acordo de
livre-comércio europeu passaria a vigorar em caráter temporário, o que por
óbvio causaria desgaste entre a Comissão Europeia e os opositores ao acordo,
sobretudo a França.
Mesmo inundada por produtos chineses e sob
ameaça constante dos EUA, que sob Donald Trump deixaram de ser um parceiro
previsível, parte da Europa segue aferrada à sua recalcitrância quando se trata
do Mercosul.
Agricultores europeus, inconformados com a
competitividade dos sul-americanos, seguem difamando a produção agrícola do
Mercosul. Ignoram que, com o acordo, o bloco composto por Brasil, Argentina,
Paraguai e Uruguai também vai zerar a alíquota de itens agrícolas europeus,
como o azeite.
Além disso, com o tratado, o Mercosul se abre
a produtos industrializados fabricados na União Europeia, o que muito interessa
a países como a Alemanha, que internamente se vê cada vez mais engolida pela
China.
Não há motivo nenhum para que o acordo não
seja posto em prática. Não havia antes, e não há muito menos agora, quando as
ações tresloucadas de Donald Trump redesenham os fluxos do comércio global.
Quanto mais tempo a Europa permanecer enredada pelo lobby de alguns produtores
agrícolas viciados em protecionismo, pior para ela mesma.
Da parte do Mercosul, a rara união
demonstrada em relação ao acordo pelos líderes de diferentes matizes
ideológicos do bloco deve ser mantida, pois, tal como a Europa, a região se vê
cada vez mais tomada por produtos chineses.
É fundamental que os parlamentos dos
países-membros do Mercosul ratifiquem o quanto antes o acordo com a UE, o que
enviaria um forte sinal do quanto os sul-americanos estão comprometidos com o
estreitamento de suas relações comerciais com os parceiros europeus.
Como se sabe, o tratado entre o Mercosul e a
UE eliminará gradativamente tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral
entre as duas regiões, beneficiando uma população de mais de 700 milhões de
pessoas, que responde por cerca de um quarto do PIB global.
Felizmente, do lado brasileiro, Executivo e
Legislativo têm demonstrado que, pelo menos em relação ao Mercosul, trabalharão
conjuntamente para seguirem vencendo os percalços impostos pelos europeus.
O vice-presidente Geraldo Alckmin, também
titular do Ministério da Indústria e Comércio, assegurou que o governo
trabalhará para acelerar a aprovação do acordo, e que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva deve encaminhar prontamente ao Congresso a proposta de adesão ao
tratado.
Já o presidente da Comissão de Relações
Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), garantiu que o Legislativo dará
celeridade à tramitação do texto. Ele também se reuniu com a embaixadora da
União Europeia no Brasil, Marian Schuegraf. Ela, com razão, declarou ter
certeza de que o acordo é um “ganha-ganha” e que será um divisor de águas para
as duas regiões.
Resta aos europeus abandonarem a teimosia,
cujos prejuízos vão se intensificar à medida que a China inunda o mundo com
suas mercadorias e os EUA de Trump adotam a lei da selva.
A recomposição do FGC
Por O Estado de S. Paulo
Esperada, liquidação da Will Financeira
reforça discussões sobre mudanças no FGC
Em mais um desdobramento do caso Master, o
Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, ou Will
Bank, fintech que também era controlada pelo polêmico Daniel Vorcaro.
Com isso, além de desembolsar mais de R$ 40
bilhões a título de ressarcimento a investidores do Master, processo que acabou
de ter início, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estima que pode ter de
restituir outros R$ 6,3 bilhões a clientes da Will Financeira.
É verdade que a liquidação da Will não pegou
o FGC de surpresa. A fintech já se encontrava sob a gestão de um conselho
indicado pelo Banco Central desde novembro, quando o Master foi liquidado.
Sob o Regime de Administração Especial
Temporária (Raet), mecanismo adotado pelo BC para ganhar tempo e possibilitar
uma solução de mercado, a Will descumpriu um acordo com a empresa de pagamentos
Mastercard. Por conta disso, o BC não teve como não decretar a liquidação.
Nesse cenário, as discussões sobre a
recomposição do caixa do FGC devem ganhar ainda mais força. Só com o pagamento
de garantias aos investidores do Master, o fundo deve consumir aproximadamente
um terço de seu caixa.
Vorcaro, que, segundo relatos, se vê como um
perseguido pelos bancos tradicionais, desvirtuou o propósito do FGC, vendendo
produtos de alto risco usando o Fundo Garantidor de Créditos como chamariz.
Na prática, o Master usou o FGC como isca
para vender seus CDBs anabolizados, e por isso mesmo de alto risco, e agora
obriga a maioria verdadeiramente séria dos membros do fundo a arcar com a conta
– ou seja, socializou prejuízos.
De acordo com o jornal Valor, os cerca de 250 bancos
associados ao FGC discutem um aporte de R$ 30 bilhões no fundo, o que equivale
a uma antecipação de cinco anos de contribuição desses associados.
Para além do aporte necessário para a
recomposição do caixa, há também outras questões relevantes, como, por exemplo,
o escopo do reembolso. Pelas regras atuais, CPFs com até R$ 250 mil investidos
em produtos cobertos pelo FGC são elegíveis a ressarcimento.
Em 2024, o senador Ciro Nogueira, apontado
como um dos contatos poderosos de Daniel Vorcaro, chegou a apresentar proposta
para elevar o limite de reembolso do FGC para R$ 1 milhão por CPF e mudar a
natureza do fundo de privada para pública. Caso tivesse passado, o Estado hoje
estaria arcando com desembolsos ainda maiores que os que têm sido feitos pelo
FGC, cuja natureza deve seguir privada.
Ainda no âmbito dos ressarcimentos, há
especialistas que defendem que somente o montante investido, e não os
rendimentos, sejam garantidos pelo FGC. A alteração teria caráter educativo.
Todo investimento envolve risco. Quanto maior a promessa de rentabilidade,
maior também a possibilidade de levar um tombo. O caso Master só comprova que a
relação entre risco e retorno segue como uma das regras de ouro do mercado.
Ao menos no caso do FGC, a debacle do Master pode resultar em adaptações que tornem o fundo ainda mais sólido do que vem demonstrando ser, o que é de total interesse de bancos e investidores.
Até quando continuará o show de horrores de
Trump?
Por O Povo (CE)
O objetivo declarado da Casa Branca com o
Conselho da Paz é enfraquecer a Organização das Nações Unidas (ONU)
O show de horrores que o presidente dos
Estados Unidos da América, Donald Trump, vem conduzindo desde o início de
seu segundo mandato parece não ter fim. Ele se mostra cada vez mais como um
mentiroso profissional e inconsequente, abalando as relações internacionais com
seus disparates verbais, perigosos porque ele os põe em prática.
Um dos exemplos mais evidentes foi o ataque
militar à Venezuela, quando capturou o então presidente Nicolás Maduro e a
mulher dele. A ação pode ser considerada um sequestro, pois claramente violou
leis internacionais, de respeito à soberania dos países.
A obsessão de Trump agora é tornar-se dono da
Groenlândia, tanto que, por meio da inteligência artificial, foi divulgada
em redes sociais uma imagem dele fincando uma bandeira americana no
território autônomo do Reino da Dinamarca.
Depois das ameaças de tomar a Groenlândia à
força, Trump fez um discurso na quarta-feira, no Fórum Econômico de Davos,
afirmando que não planejava invadir a ilha. Mas quem acredita?
Ele anunciou então que uma suposta
"estrutura de acordo" estaria em negociação com Mark Rutte, secretário-geral
da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Ocorre que Rutte afirmou
que não houve nenhum tipo de conversa quanto à soberania da Dinamarca sobre a
Groenlândia. Mesmo porque o secretário-geral da aliança militar do Ocidente não
tem esse poder.
Esse é mais um dos casos em que Trump
pretende que as mentiras que ele conta se transformem em realidade, sem
considerar as consequências de suas palavras; ou mesmo para provocar
propositalmente um choque destrutivo.
Outro impasse é o "Conselho de Paz",
para negociar o fim do conflito em Gaza, que opõe Israel e palestinos. Trump
lançou o conselho oficialmente nesta quinta-feira, na reunião de Davos. O
presente americano autonomeou-se uma espécie de dono do conselho. Ele será o
presidente vitalício e o único que terá poder de veto e de fazer convite para a
entrada de novos participantes. O país que quiser um assento permanente terá de
pagar U$ 1 bilhão.
Dos cerca de 50 convites para compor o
Conselho, aproximadamente 30 aceitaram participar. A maioria, países do Oriente
Médio, Ásia e América do Sul, uma parte deles são regimes autoritários. A carta
de fundação do Conselho não cita a palavra "democracia" uma única
vez.
Israel foi convidado, mas não a Palestina. O
Brasil recebeu convite, mas ainda não respondeu. Até agora, nenhum dos grandes
países europeus aceitou participar da entidade.
O objetivo declarado de Trump com o Conselho
da Paz é enfraquecer e substituir a Organização das Nações Unidas (ONU), em sua
eterna guerra contra os organismos multilaterais.

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