Desordem promovida por Trump enche o Brasil de dólares
Por Folha de S. Paulo
Até 21 de janeiro, estrangeiros injetaram R$
12,35 bi na Bolsa brasileira, 46% do total de 2025
Republicano alimenta insegurança; Brasil,
grande exportador de petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas,
beneficia-se diretamente
A política "America First" (em
primeiro lugar) de Donald Trump,
que prometia fortalecer os EUA, tem se revelado, paradoxalmente, "America
Last" (por último) no universo dos ativos financeiros.
Enquanto Wall Street oscila neste início de ano em meio a incertezas, a Bolsa
brasileira vive dias efervescentes, com entrada maciça de capital estrangeiro.
Até 21 de janeiro, investidores não residentes injetaram R$ 12,35 bilhões na B3, quase a metade do total aportado em todo o ano de 2025 (R$ 26,87 bilhões). Com esse impulso, o Ibovespa já subiu mais de 9% neste mês, superando S&P 500, Nasdaq e mesmo o índice de emergentes. Entre os principais mercados, é o americano que fica para trás.
O movimento teve início no ano passado e
reflete uma incipiente diversificação global de ativos americanos, acelerada
pelas tarifas impostas por Trump —o mal chamado "Liberation Day" de
abril, quando Washington aplicou alíquotas exorbitantes sobre importações de
quase 180 países.
Em 2025, o dólar sofreu
forte desvalorização, próxima a 10%, enquanto mercados acionários emergentes e
europeus proporcionaram retornos superiores aos americanos. O ouro registrou
sua maior alta em décadas, graças a compras por parte de bancos centrais e
temor de inflação persistente nos EUA, alimentada por estímulos fiscais e
tarifas.
Moedas centrais, como o franco suíço e o
euro, valorizaram-se, indicando menor atração do dólar como ativo de reserva.
O comportamento se repete agora, revivido
pelas novas ameaças tarifárias recentes contra aliados europeus, além da
polêmica em torno da Groenlândia, uma fixação do republicano.
As consequências da agressividade da Casa
Branca vão além do mercado financeiro. Países buscam segurança de recursos e
resiliência nas cadeias produtivas, em um mundo fragmentado e com maiores
riscos de conflitos e protecionismo comercial.
O acesso a matérias-primas se torna ainda
mais estratégico. O Brasil, grande exportador de petróleo, minério de ferro e
produtos agrícolas, além de detentor da segunda maior reserva global de
minerais críticos, beneficia-se diretamente. Não é surpresa o interesse americano
e europeu em garantir novas fontes diante de restrições chinesas.
Trump, com sua postura belicosa demonstrada
desde a Venezuela até
o Irã,
sem poupar aliados na Otan,
arrisca a centralidade americana no sistema financeiro global e além.
Sua conduta traiçoeira perante parceiros
tradicionais acelera a fragmentação geopolítica. Para países médios como o
Brasil, a lição é clara e já vem sendo seguida: em um mundo multipolar e
volátil, cumpre aproveitar janelas de oportunidade, posicionando-se com
pragmatismo entre blocos em disputa.
No setor dos investimentos, a enxurrada de
dólares na Bolsa é apenas uma das manifestações da nova ordem que se desenha.
Demografia pressiona a economia chinesa
Por Folha de S. Paulo
Mesmo com o fim da política do filho único e
estímulo à natalidade, população do país diminui e envelhece
Com redução de 3,39 milhões de habitantes,
total em 2025 foi de 1,404 bi; desde 2022, taxa de crescimento demográfico da
China é negativa
Há quatro anos a China enfrenta
uma resistente inflexão no crescimento populacional, fenômeno que tende a
produzir desaceleração gradual de sua atividade econômica neste ano e nos
próximos.
Dados preliminares divulgados pelo governo
chinês indicam uma
queda de 3,39 milhões de habitantes em 2025, na comparação com o ano
anterior, levando o total a 1,404 bilhão. Foram registrados 7,9 milhões de
nascimentos, enquanto as mortes somaram 11,3 milhões. Desde 2022, a taxa de
expansão demográfica do gigante asiático tem sido negativa.
Houve ligeiro aumento, de 0,29%, na população
economicamente ativa (de 15 a 64 anos). Mas o estrato acima de 65 anos subiu
1,55%, enquanto o de zero a 14 anos recuou em 4,36%.
O envelhecimento hoje
cria problemas
econômicos para grande parte dos países desenvolvidos e emergentes,
aí incluído o Brasil, e ainda mais desafiador para o que são avessos ou não
atrativos à imigração.
O desenvolvimento associado a níveis mais
elevados de educação, notadamente das mulheres, impacta as taxas de natalidade.
Na China, a prosperidade trouxe tal consequência. Mas o que a distingue dos
demais casos é o efeito inercial do projeto draconiano de engenharia social
imposto entre 1979 e 2015.
A política de filho único facilitou o acesso
dos chineses a serviços de saúde e educação no período de reformas e da
abertura econômica iniciadas por Deng Xiaoping. Elevou a renda per capita e
barateou os custos de empresas com mão de obra.
Na última década, porém, o envelhecimento
passou a pressionar os gastos previdenciários. A retração da faixa apta ao
trabalho forçou a elevação dos salários, mas também sinalizou o paulatino recuo
do mercado doméstico, principal aposta de Pequim para o crescimento da atividade.
A China atentou-se para a necessidade de
estimular a natalidade por volta de 2010, último ano em que registrou variação
do PIB no
alto patamar de 10%. Em 2015, o governo permitiu aos casais o segundo filho e,
seis anos depois, o terceiro, além da concessão de subsídios financeiros às
famílias com mais crianças.
É provável que Pequim tenha tardado para reagir aos efeitos deletérios do rígido sistema de controle populacional sobre a economia. A disparada da competitividade de seus setores produtivos já não é suficiente para compensá-los. A expansão do PIB chinês de não mais de 3,4% em 2030, como projeta o Fundo Monetário Internacional (FMI), será motivo para um mea culpa.
Insegurança resiste, apesar da queda nos
assassinatos
Por O Globo
Dinâmica do crime organizado mudou, mas
crimes menos letais não deixam de ser crimes
É uma notícia auspiciosa haver menos
assassinatos no Brasil, como constatou o Ministério da Justiça. As mortes
violentas caíram 11% no ano passado, de 38.374 para 34.086. Foi o quinto ano
consecutivo de queda. Em 2020, haviam sido registradas 45.336, um terço a mais.
Em relação a 2017, quando o país alcançou o recorde da última década (60.308),
a redução chega a 40%. Mesmo assim, elas se mantêm em patamar alto: 93 por dia,
quase quatro por hora. São números inaceitáveis.
O conceito de morte violenta inclui
homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de
morte, mas não as mortes decorrentes de ação policial, significativas em alguns
estados. Estão ainda fora do total divulgado os dados de dezembro relativos a
São Paulo e Paraíba, mas eles não devem alterar consideravelmente o resultado,
levando em conta a média dos outros meses.
O governo federal na certa tentará alardear
os números obtidos como vitória no campo que hoje representa seu principal
desafio político: a segurança pública. Mas o principal fator para a queda não
tem a ver com as ações do Planalto, insuficientes para enfrentar o poder do
crime organizado e aliviar a percepção de insegurança na população. Não se pode
desprezar, como tendência de longo prazo, a influência da demografia (o
envelhecimento populacional significa menos jovens e menos crime). Outro fator
relevante são políticas públicas adotadas em alguns estados. Mas o que mais
contribuiu para haver menos assassinatos foi a mudança na dinâmica do próprio
crime.
“Confrontos por domínio de território têm
diminuído de intensidade”, diz Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Houve captura dos setores econômicos.
Facções como PCC e CV passaram a explorar serviços. O crime foi para o setor de
combustíveis, lavagem de dinheiro, fintechs, mineração, desmatamento, pirataria
de internet etc.” Outro sinal da mudança, segundo ele, é a migração do crime
para a internet, com a aplicação de golpes digitais. “No ano passado, o Brasil
registrou 800 mil roubos e 2,2 milhões de estelionatos”, diz Lima. “Com o roubo
de celulares, os criminosos têm acesso a aplicativos bancários e podem cometer
outros crimes.”
Claro que a redução das mortes violentas é
bem-vinda. Mas por si só não é capaz de mudar a percepção da população sobre a
violência. Diferentes pesquisas de opinião mostram que a segurança é hoje a
principal preocupação dos brasileiros, à frente de temas como economia,
educação ou saúde. Existe uma distância entre a realidade dos números e a
sensação nas ruas. Contribui para a percepção de insegurança o avanço visível
das organizações criminosas sobre territórios que deveriam estar sob controle
do Estado. Em comunidades e bairros inteiros, a lei em vigor é a dos bandidos.
A queda nos assassinatos deve perseguida, mas
deve ser acompanhada pelo aperto no cerco a outros crimes. A polícia precisa
ser mais eficaz contra furtos de celular e delitos de rua. E o governo federal
tem obrigação de liderar o combate ao crime organizado, começando pela
aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança e do Projeto
de Lei Antifacção, que darão instrumentos mais eficazes ao Estado. Apesar dos
números, é difícil convencer o cidadão de que a violência diminuiu. Crimes
menos letais não deixam de ser crimes.
Acordo Mercosul-UE terá efeito benéfico no
agronegócio e na indústria
Por O Globo
Apesar do atraso em virtude de manobras
jurídicas, empresas já calculam benefícios da integração
Apesar do atraso para entrar em vigor, em
virtude da manobra do Parlamento Europeu que o enviou ao Judiciário, o acordo
comercial do Mercosul com
a União
Europeia (UE) já leva empresários e economistas a calcular os efeitos
práticos da integração entre mercados que reúnem perto de 720 milhões de
habitantes e um quarto do PIB mundial. Só para o agronegócio brasileiro, a
perspectiva é um aumento de US$ 6,2 bilhões nas exportações anuais para o bloco
até 2040, ou quase 25%, de acordo com análise do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea).
Um dos segmentos favorecidos será a
exportação de carne de frango e outras aves, com ampliação de 180 mil toneladas
anuais, levando em conta todos os países do Mercosul. O setor tem experiência
no ramo. A Villa Germania, maior produtora e exportadora de carne de pato,
codorna e frango orgânico do Brasil, já vende para a Europa carcaças para a
produção de ração e penas para fabricantes de travesseiros na Itália. A
empresa, que tem duas granjas em Santa Catarina, prevê que até 2028 os europeus
deverão consumir o magret, prato tradicional na culinária francesa, feito com
pato brasileiro. Planeja embarcar 5 mil toneladas de carne de pato anualmente
para a Europa quando o acordo estiver em pleno vigor, com tarifas zeradas sobre
as carnes de aves (a previsão é que isso leve cinco anos).
Em carne bovina, o Brasil já conta hoje com
uma cota que lhe permite exportar até 10 mil toneladas por ano sob uma tarifa
de 20%. Pelo acordo, o Mercosul poderá exportar 99 mil toneladas, pagando
tarifa de apenas 7,5%. Na carne de porco, o Brasil terá um trabalho adicional:
convencer os europeus a comprar carne de animais que usam estimulantes para o
crescimento, substâncias vetadas pela UE. Uma alternativa seria implantar linhas
de criação específicas para o mercado europeu. Os termos do acordo autorizam a
importação de 25 mil toneladas por ano pagando € 83 por tonelada, 60% abaixo do
preço das exportações que ultrapassem a cota.
Embora os produtores brasileiros considerem
pequena a cota de 3 mil toneladas para as exportações de ovos, ela chega em boa
hora por causa das barreiras tarifárias erguidas nos Estados Unidos. O produto
foi taxado em 50% para entrar no mercado americano. Como aconteceu com outros
itens da pauta de exportação brasileira, isso não impediu que as 40 mil
toneladas de ovos vendidas ao exterior no ano passado representassem
crescimento de 121% em relação a 2024. Os exportadores encontraram mercados
alternativos.
O comércio internacional é via de mão dupla. O acordo Mercosul-UE também facilitará a importação de serviços e bens manufaturados europeus, com efeitos positivos na economia. Será benéfica a concorrência dos europeus com segmentos da indústria brasileira, para que ela busque ganhos de eficiência, em benefício do consumidor.
Ruim com a ONU, pior sem ela
Por O Estado de S. Paulo
Organismos multilaterais podem ser
disfuncionais e frustrantes. Mas abandoná-los em favor de clubes seletivos e
lideranças voláteis, como quer Trump, não fortalece a paz, só amplia os riscos
O Fórum Econômico Mundial de Davos sempre foi
terreno fértil para anúncios tão grandiloquentes quanto impotentes. Donald
Trump levou o contraste a um novo patamar. Foi ali que inaugurou um nebuloso
“Conselho da Paz”, apresentado como instrumento para destravar o pós-guerra em
Gaza – e, segundo o próprio presidente, potencialmente apto a lidar com outros
conflitos e até a substituir a Organização das Nações Unidas (ONU). A ambição é
grande. O contexto, menos edificante.
Enquanto perorava sobre novas arquiteturas
para a paz mundial, Washington oficializava sua retirada da Organização Mundial
da Saúde. Pouco antes, anunciou o abandono de mais de 60 organismos
internacionais. Não se trata de um gesto isolado, nem de um espasmo de
irritação com a burocracia multilateral, mas de uma ofensiva sistemática contra
o sistema de cooperação internacional que os próprios Estados Unidos ajudaram a
construir e liderar ao longo de oito décadas.
Há quem interprete essa estratégia como
pragmatismo agressivo: substituir fóruns lentos e disfuncionais por arranjos
mais “eficientes”. Mas o padrão revela algo diferente. O Conselho da Paz não
surge para corrigir falhas específicas da ONU, nem para torná-la mais
funcional, mas como parte de uma estratégia institucional, na qual trocam-se
compromissos universais por clubes seletivos, regras compartilhadas por
decisões discricionárias e processos previsíveis por encenação política.
Nada ilustra melhor esse descompasso do que o
próprio caso de Gaza. Em vez de simplificar a governança do território no
pós-guerra, o arranjo patrocinado pelos EUA multiplica conselhos, camadas de
autoridade e instâncias paralelas, sem produzir controle efetivo do terreno nem
alívio concreto para a população civil. A paz, nesse modelo, aparece menos como
resultado de instituições funcionais e mais como performance diplomática.
O contraste torna-se ainda mais
desconfortável ante o tratamento dispensado por Trump às instituições que, de
fato, sustentaram a estabilidade internacional no pós-guerra. Enquanto proclama
iniciativas improvisadas e personalistas em nome da paz global, o presidente
mina alianças reais, relativiza compromissos históricos e trata a Otan como
fardo ou moeda de barganha. O que funciona é desprezado; o que é incerto é
celebrado.
Com todos os seus defeitos, a Otan foi o mais
eficaz mecanismo de dissuasão interestatal da história moderna. Não por carisma
nem por improviso, mas por regras claras, previsibilidade e compromissos
verificáveis. Enfraquecê-la enquanto se ensaia uma cruzada retórica pela paz
mundial não é só incoerente, é contraproducente para os próprios Estados
Unidos.
Não se trata de idealizar a ONU. Seu Conselho
de Segurança é paralisado por vetos, a burocracia é pesada e a frustração é
recorrente. Ainda assim, ela continua sendo o único fórum verdadeiramente
universal onde potências rivais, aliados relutantes e Estados frágeis
compartilham ao menos uma gramática comum. Abandoná-la não elimina seus
defeitos, só o espaço onde eles podem ser sanados.
A Liga das Nações não fracassou por excesso
de multilateralismo, e sim porque foi sistematicamente esvaziada, contornada e
ignorada pelas próprias potências que deveriam sustentá-la. Não é preciso
forçar paralelos com os anos 1930 para reconhecer ecos tenebrosos: quando o
foro comum perde legitimidade, o vazio raramente é preenchido por algo melhor.
Reformar instituições multilaterais é lento,
trabalhoso e politicamente ingrato. Contorná-las é tentador, rápido e teatral.
Mas os custos vêm depois – em alianças corroídas, conflitos prolongados e
ordens paralelas sem legitimidade. A paz não é um produto que se lança em
Davos. É um processo que exige instituições capazes de sobreviver a governos,
humores e vaidades.
A ONU é imperfeita, frustrante e
frequentemente insuficiente. Ainda assim, num mundo fragmentado, ela permanece
o fórum mais plausível para negociações multilaterais minimamente estáveis.
Ruim com a ONU, sem dúvida. Mas a experiência histórica e o presente já
indicam: sem ela, o mundo tende a ficar não mais eficiente, apenas mais
perigoso.
Entre o bolso e a estratégia
Por O Estado de S. Paulo
Bom para conter a evasão, o Pé-de-Meia não
pode virar atalho eleitoral: antes de expandir a concessão de bolsas, governo
precisa avaliar impacto e priorizar políticas estruturantes
Se há uma característica marcante do petismo
na formulação e execução de políticas públicas é a preferência por programas
baseados em transferências diretas de renda. Invariavelmente apresentados como
soluções capazes de responder, quase sozinhas, a problemas complexos e
estruturais, esses programas impulsionados pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva privilegiam efeitos rápidos e politicamente visíveis. Com isso, tendem a
relegar a segundo plano reformas mais lentas, exigentes e menos rentáveis
eleitoralmente – e, o que é mais grave, a prescindir tanto de metas claras,
indicadores, cronogramas, adequação a orçamentos limitados quanto da disposição
para ajustar políticas públicas ou encerrá-las à luz de seus resultados.
Tome-se o exemplo de uma das principais
vitrines do atual mandato: o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro e
poupança condicionada destinado a estimular a permanência e a conclusão do
ensino médio público. Voltado a jovens de famílias de baixa renda inscritos no
Cadastro Único, o programa foi lançado em janeiro de 2024 e, ainda naquele ano,
teve seu escopo ampliado para, em 2025, tornar-se uma das maiores rubricas do
Ministério da Educação, com orçamento anual em torno de R$ 12 bilhões. E o
compasso de crescimento segue firme para 2026, pleno ano eleitoral.
A robustez crescente se dá em meio a um
cenário de aperto orçamentário, queda de mais de 40% nos gastos federais com
ações voltadas à alfabetização e avanços ainda tímidos na expansão da educação
em tempo integral. Em paralelo, inspirados pela pressa petista de oferecer
recursos adicionais, senadores estão tentando ampliar os critérios de
elegibilidade do Pé-de-Meia para incluir estudantes de escolas filantrópicas e
religiosas em situação de vulnerabilidade. É uma paisagem comum na cosmologia
petista: um programa muito novo se depara com rápida expansão que antecede
avaliações robustas de resultados. Confunde-se instrumento com estratégia.
Convém reconhecer o mérito. O Pé-de-Meia se
presta a enfrentar um problema real e grave: a evasão escolar no ensino médio,
cujos custos sociais são elevados. Estudo coordenado por Ricardo Paes de
Barros, publicado em livro (Consequências
da Violação do Direito à Educação), estimou que jovens que não
concluem a educação básica acumulam perdas médias de R$ 395 mil ao longo da
vida, para além da renda, com impactos sobre produtividade, longevidade e
exposição à violência. Combater a evasão é, portanto, imperativo social e
econômico; o programa é bem desenhado, e mais recursos, em si, podem fazer
sentido.
O problema está menos no quê e mais no como –
e, sobretudo, no quando. Bolsas tendem a ser eficazes quando a evasão decorre
da falta de renda e têm efeito limitado quando o abandono nasce da baixa
qualidade do ensino, da defasagem de aprendizagem e da irrelevância percebida
da escola. Nessas situações, dinheiro não substitui projeto pedagógico. E é aí
que emerge o risco maior: a expansão do Pé-de-Meia ocorre enquanto políticas
estruturantes – alfabetização, educação integral, formação docente e melhoria
da qualidade – perdem espaço, orçamento e centralidade. São políticas menos
sedutoras para governos pressionados por popularidade e calendário eleitoral.
A experiência brasileira oferece alertas
claros. O Fies, criado no governo Fernando Henrique Cardoso como instrumento
legítimo de ampliação do acesso ao ensino superior, teve sua expansão acelerada
nos primeiros anos do lulismo sem critérios adequados de qualidade e
sustentabilidade fiscal, com estímulo a cursos de baixo valor formativo,
inadimplência elevada e custos bilionários para o Estado. O erro não esteve no
financiamento em si, mas na ilusão de que a injeção de recursos poderia
substituir regulação e planejamento de longo prazo.
Incentivos financeiros são instrumentos
úteis, mas não substituem um projeto educacional consistente. O programa pode
ajudar a manter jovens na escola, mas não garante, por si só, um ensino médio
melhor. Antes de crescer, precisa ser avaliado com profundidade, ajustado com
critério e integrado a um conjunto coerente de políticas públicas. Entre o
bolso e a estratégia, é a segunda que sustenta resultados duradouros.
Política pública desvirtuada
Por O Estado de S. Paulo
Compradores de imóveis populares em SP vão à
Justiça por não poderem vendê-los
A multiplicação de ações de distrato judicial
em operações de compra de imóveis populares construídos em áreas nobres de São
Paulo é o desfecho previsível da omissão no acompanhamento da política de
incentivo habitacional por sucessivas gestões municipais. Os litígios, que já
se estendem à segunda instância, devem-se basicamente à deturpação de uma
medida pensada para, ao mesmo tempo, combater o déficit habitacional paulistano
e atender a famílias de renda mais baixa. Uma prova de que a criação de
políticas públicas, por mais bem intencionadas que sejam, de nada vale sem
planejamento e fiscalização.
A Prefeitura só começou a punir as infrações
há cerca de um ano, quando o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que investiga
as irregularidades, entrou com ação civil pública. Desde então, a gestão
Ricardo Nunes (MDB), acusada de negligência pelos promotores, diz ter aplicado
38 multas e notificado 704 empreendimentos. Somente essa amostra, tardiamente
fiscalizada, corresponde a mais de 89 mil unidades – geralmente
microapartamentos de cerca de 30 metros quadrados –, o que dá a dimensão
gigantesca do problema.
O Plano Diretor de 2014 criou condições
especiais para imóveis classificados como Habitação de Interesse Social (HIS) e
Habitação de Mercado Popular (HMP), com benefícios e isenções fiscais a
construtoras e incorporadoras para incentivar a construção de prédios voltados
à classe média baixa, cujo retorno menor não costuma atrair o interesse do
mercado imobiliário. Clientes com renda familiar de no máximo três, seis ou dez
salários mínimos, a depender do caso, seriam os únicos compradores habilitados
a adquirir as unidades.
Os prefeitos se sucederam (Fernando Haddad,
João Doria, Bruno Covas e Ricardo Nunes), a adesão aos incentivos se alastrou,
mas a fiscalização do programa, pelo que se pode constatar até agora, não – o
que permitiu a oferta a compradores que não se enquadram no programa. Uma
grande quantidade de pequenos apartamentos foi adquirida não raro como mero
investimento, para revenda ou locação. A apuração do MP-SP aponta que o
descumprimento das regras de comercialização deu origem a mais de 560 comunicações
de indício de alienação fraudulenta em cartórios da cidade em apenas dois
meses, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.
Muitos dos compradores alegam que só souberam
tardiamente das restrições do programa e pedem ressarcimento e indenização. É
provável que, entre os compradores que foram à Justiça, há aqueles que tinham
plena ciência dos limites e mesmo assim decidiram arriscar. Conforme o
programa, os imóveis não podem ser revendidos, a não ser para compradores da
mesma faixa de renda exigida pela política de incentivo, não podem ser alugados
por valor superior a 30% da renda do inquilino nem podem integrar plataformas
de serviço de hospedagem.
É um caso típico de política pública que, movida pelas melhores intenções, fracassou por não estabelecer controle adequado de suas premissas. O resultado disso sempre será prejuízo para a sociedade.
Chavismo deixa ideologia de lado e segue
ordens de Trump
Por Valor Econômico
A fachada esquerdista do governo bolivariano
está sendo reformada às pressas, sem que o trauma da intervenção americana
tenha produzido abalos em um regime que já dura um quarto de século
As estridentes campanhas contra o governo
americano, marcas registradas dos governos chavistas na Venezuela, deram lugar
a uma estranha e até o momento calma colaboração com o governo de Donald Trump,
que comandou o sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro, ditador que
pretendia a vitaliciedade, e de sua esposa, Cilia Flores. Ao privilegiar o
petróleo, e não a democracia, Trump manteve o regime intacto, sob comando da
vice-presidente Delcy Rodríguez, que, entre outras tarefas complexas, terá de
satisfazer o apetite americano pela exploração das maiores reservas de óleo do
mundo. Rodríguez segue à risca o combinado: 15 dias após assumir o poder, seu
irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, dominada por
chavistas, aprovou o início das discussões para a reforma da legislação sobre
hidrocarbonetos. A lei visa abrir espaço para a iniciativa privada,
privilegiando as empresas americanas.
A fachada esquerdista do governo bolivariano
está sendo reformada às pressas, por enquanto sem que o trauma da intervenção
americana tenha produzido abalos em um regime que já dura um quarto de século.
Trump disse que administrará o petróleo venezuelano por muito tempo, o que
pressupõe um acordo com chavistas agora menos radicais e mais dispostos a
manter o poder a qualquer custo, como sempre pareceu ser a intenção das cúpulas
que arruinaram o país e só beneficiaram claques partidárias e militares.
O fato de Trump não ter cometido a insensatez
de invadir o país não lhe garante sucesso na empreitada de extrair petróleo do
país indefinidamente. A presidente Delcy Rodríguez, chavista longeva, tem uma
missão impossível. Ela terá de impedir a radicalização dos áulicos chavistas,
encastelados em posições importantes no aparato estatal, como os poderosos
ministros do Interior, Diosdado Cabello, e da Defesa, general Padrino López.
Precisará impedir que a enorme fenda no poder aberta com a derrubada de Maduro
leve à mobilização e aumente o poder político da oposição anti-chavista, até
então sufocada pela repressão do regime e pela ausência de canais democráticos
de expressão. Terá de satisfazer os caprichos mutantes de Trump, e, ao mesmo
tempo, buscar preservar a fachada de soberania sem o qual seu governo se
desmoralizará.
As recentes intervenções americanas não se
preocupam com o dia seguinte e Trump não foi exceção à regra. Mas o governo
americano tomou precauções. O jornal The Guardian afirma que Delcy Rodríguez e
seu irmão, que enfeixam o poder Executivo e Legislativo, tiveram encontros
prévios com enviados americanos, com os quais se comprometeram a governar o
país após a saída de Maduro, mas não a auxiliarem em sua deposição. Ao que
parece, prometeram evitar o caos e garantir sua sobrevivência e a do próprio
regime. O radical Cabello teria também dialogado com enviados dos EUA, embora
não se saiba o teor das conversas.
Delcy, vice de Maduro, tinha muito poder na
economia, como vice-presidente, ministra do petróleo e mineração, e dirigente
do comitê de alto nível com Rússia e China, dois sustentáculos vitais do regime
chavista. Conhece as engrenagens do regime. A prova de que age para se precaver
de futuras adversidades foi que pouco após assumir a Presidência substituiu o comando
da Guarda de Honra presidencial e da direção de Contrainteligência Militar. Em
seguida, substituiu 12 comandantes de regiões militares do país. Os militares
venezuelanos controlam importantes setores econômicos do país, como o de
importação de alimentos, e sustentaram até agora o chavismo, do qual usufruem
largos benefícios.
Delcy parece disposta a reduzir ao mínimo a
retórica ideológica e a cumprir o que prometeu. A reforma da lei do petróleo
busca ampliar o modelo Chevron, abrindo os campos ainda inexplorados à
exploração estrangeira com contratos de participação produtiva, pelos quais as
empresas privadas remuneram o Estado pelo petróleo extraído. Jorge Rodríguez
comandou com facilidade a aprovação da discussão da mudança, nada trivial em um
país que expropriou companhias estrangeiras entre 2007 e 2010. E, embora
ressaltando o caráter “moderno” da legislação eleitoral, que produziu a maior
fraude em 28 de julho de 2024, quando Maduro perdeu as eleições, Rodríguez
prometeu mudá-la e torná-la menos “burocrática”, em promessa de abertura
política.
No seu próprio interesse, Delcy quer
recuperar as receitas do Estado, dilapidadas por seus companheiros chavistas. A
Venezuela chegou a produzir 3,2 milhões de barris por dia e hoje a estatal
PDVSA mal retira 900 mil barris diários. A incompetência econômica produziu
fome, hiperinflação, escassez e a maior migração em tempos de paz, com mais de
7 milhões de cidadãos deixando o país.
Governar, no entanto, não será fácil e não se descarta uma caída no caos com a luta fratricida de facções pelo poder ou revoltas da oposição com apoio do governo americano. De qualquer forma, os chavistas não parecem dispostos a morrer por bandeiras ideológicas, como acreditaram até ontem seus simpatizantes, dentre eles os governos petistas.
O labirinto da insegurança no Brasil
Por Correio Braziliense
O país não pode mais se contentar em celebrar
quedas marginais em taxas de violência
O Brasil começa 2026 com um antigo e complexo
problema em sua agenda: a violência. Apesar de os dados mais recentes do
Ministério da Justiça e Segurança Pública apontarem para a redução de 11% no
número total de assassinatos em 2025 — a quinta retração consecutiva —, as
estatísticas seguem desafiando o país. Entranhada na rotina do cidadão, a
insegurança permanece alimentada por facções criminosas e pelo crescimento
alarmante de ocorrências específicas, como o feminicídio, que registrou a marca
de quatro vítimas por dia no último ano.
A diminuição dos homicídios é uma informação
importante e demonstra que políticas públicas eficientes produzem resultados.
Mas, ao mesmo em que avanços são constatados, a realidade que se impõe em
consequência da violência é de uma sociedade fraturada. O levantamento do órgão
mostra que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores taxas,
especialmente em municípios marcados pela disputa do controle do tráfico de
drogas. Por sua vez, a tragédia dos feminicídios revela um retrato assustador
com o recorde histórico de 1.470 mortes em 2025.
Para enfrentar a questão, é preciso,
primeiro, entender que os crimes se movem por alguns eixos fundamentais. A
falha na investigação é um deles — menos de 40% dos homicídios no país são
resolvidos. Dessa forma, a impunidade se transforma em combustível para o
criminoso, que se sente confortável para operar diante de um Estado com
dificuldades de punir. Outro ponto de extrema relevância é o abismo social
brasileiro, com os jovens negros das periferias das cidades no topo das
estatísticas, indicando que a violência tem cor e endereço. No que se refere
aos assassinatos de mulheres, o panorama demonstra que o endurecimento penal
sozinho não tem sido suficiente para conter os registros. Nesses casos,
prevenção, acolhimento, fortalecimento da fiscalização de medidas protetivas e
trabalho de desconstrução do machismo estrutural são urgentes.
Tantas fragilidades persistentes indicam a
necessidade de seriedade e responsabilidade. As respostas exigem o abandono de
soluções rasas para dar lugar a um sistema profundo e baseado em investimento,
inteligência, tecnologia e capacitação. Investigações bem planejadas e
amparadas pelas instituições são essenciais. Modelos que apostam em programas
eficazes de conscientização, na implantação de escolas em tempo integral, em
ensino de qualidade nas instituições públicas e na assistência a jovens em
situação de risco já demonstraram sucesso e são exemplos que devem ser
multiplicados.
O Brasil não pode mais se contentar em celebrar quedas marginais em taxas de violência. Melhorar as estatísticas de maneira ampla requer coragem para admitir que alguns sistemas não funcionam mais e que não existe solução única. O país precisa estar completamente integrado no combate a todos os tipos de violência se quiser assegurar o direito de proteção dos seus cidadãos. A redução de algumas tipificações e o crescimento de outras escancaram os múltiplos elementos envolvidos. Diante desse cenário, os números deixam de ser somente um quadro: eles passam a convocar o poder público para a tomada de decisões e a sociedade para participar das ações.
O momento mágico do cinema brasileiro e seus
efeitos
Por O Povo (CE)
A indicação do filme "O Agente
Secreto" para disputa final do Oscar em quatro categorias - melhor elenco,
melhor filme internacional, melhor filme e melhor ator (Wagner Moura) - poderia
estar sendo comemorada hoje como, simplesmente, uma vitória da cultura
nacional, do cinema brasileiro. Infelizmente, as circunstâncias impedem que
assim o seja e parcela da população opta por minimizar o feito, quando não
criticá-lo, por razões puramente políticas (partidárias em algumas situações) e
ideológicas.
Claro que não se pode cobrar do público que
goste da obra apenas, no caso, por ser brasileira. O que acontece é que o
reconhecimento da comunidade cinematográfica internacional a um filme que já
acumula 56 premiações mundo afora na sua participação em festivais e eventos
diversos, pode sim, até deve, ser entendida como fator de orgulho nacional. Não
há porque deixar que razões estranhas determinem o contrário.
Seria um erro, até ingenuidade, esperar que a
área da cultura, e particularmente o cinema, estivesse alheia a um momento
confuso da política, com reflexos fortes e diretos no ambiente brasileiro. Tudo
acaba resumido a um debate entre esquerda e direita, ainda mais porque em geral
os envolvidos, da parte do cinema, têm suas visões do mundo muito claras e não
têm medo de expressá-la sempre que chamados a fazê-lo.
O feito extraordinário da obra brasileira,
agora reafirmado no espaço de maior referência na cinematografia global,
deveria servir para um outro debate. Com foco na eficiência dos investimentos
que se faz, utilizando verba pública, numa atividade que concilia vários
interesses de uma maneira exemplar. É útil e necessário à cultura do País,
portanto à memória e ao fortalecimento de seu caráter nacional, na mesma medida
em que movimenta uma poderosa cadeia econômica, gerando empregos e distribuindo
renda. É algo que vai além do simples divertimento.
O desempenho extraordinário agora do nosso
cinema repete a performance destacada do ano passado, no mesmo Oscar, quando
"Ainda Estou Aqui" foi indicado para três categorias e, inclusive,
venceu a disputa de melhor filme estrangeiro. Portanto, não é fruto do acaso a
melhora nos últimos anos, lembrando-se que até 2025 o País nunca conquistara um
prêmio máximo, registrando apenas indicações ao longo da história.
O debate que o momento extraordinário pede, portanto, deve buscar meios de aproveitá-lo para o desenvolvimento de uma política de Estado, que resista a mudanças de governo e assegure melhores condições aos nossos atores, diretores, técnicos, a todos os envolvidos com o processo, enfim, para exercerem seus talentos. O público, que deve ser sempre o objetivo final de tudo. agradece.

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