sábado, 31 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governo finge que cumpriu a meta fiscal de 2025

Por O Globo

Déficit dentro do limite tolerado pelo arcabouço só foi possível pela exclusão de R$ 49 bilhões em gastos do cálculo

Na ficção criada e disseminada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a gestão das contas públicas cumpre as metas fiscais estabelecidas, rumo à estabilidade da trajetória da dívida. Para o governo, o rombo de 2025 divulgado pelo Tesouro Nacional na quinta-feira, de R$ 13 bilhões, deu a sensação de dever cumprido. Pelas regras do arcabouço fiscal, o objetivo para 2025 era perseguir déficit zero, com margem de tolerância de 0,25% do PIB para mais ou para menos. Na prática, isso permitia um déficit de até R$ 32 bilhões. Na versão do governo, portanto, o resultado negativo de R$ 13 bilhões deveria ser motivo de comemoração.

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, disse estar satisfeito: “É o segundo ano consecutivo [de déficit] abaixo de 0,5% do PIB. Você não tem um resultado desses acumulado na década. Considero o resultado do ano muito satisfatório com todos os desafios apresentados. Não há uma piora”.

Infelizmente, a realidade é outra. O objetivo nada ambicioso só foi atingido com a ajuda de inúmeras exceções. À medida que os gastos se avolumavam, a estratégia foi, mais uma vez, tirar da conta diversas despesas por meio de decisões casuísticas referendadas pelo Congresso, como se isso tivesse o condão de mudar a realidade. Sem as artimanhas no cálculo, o rombo em 2025 foi de R$ 61,7 bilhões. Não há o que celebrar. Insistir que o objetivo da política fiscal foi cumprido equivaleria a dizer que as metas de combate aos incêndios foram alcançadas quando a Amazônia inteira arde em chamas.

Independentemente da coloração partidária, governos tendem a exagerar o mérito de suas conquistas. Buscam sempre um recorte estatístico mais favorável. Faz parte do jogo. A política fiscal do governo Lula, contudo, não é apenas um caso de maquiagem para criar um ângulo de visão mais favorável. Déficits cada vez maiores só fazem a dívida pública crescer. Ela correspondia a 71,7% do PIB no início do mandato, chegou ao redor de 79% em 2025 e deverá alcançar 84,5% em 2026. Um salto dessa magnitude no passado recente só aconteceu no desastroso governo de Dilma Rousseff.

Com metodologia distinta do Tesouro, o Banco Central divulgou números nesta sexta-feira que levam à conclusão semelhante. O déficit de 2025 foi superior ao do ano anterior, e a dívida continuou a subir. Um endividamento dessa proporção obriga o governo a pagar mais caro pelo dinheiro que toma emprestado para saldar seus compromissos. Ao longo do ano passado, o país gastou a fábula de R$ 1 trilhão com juros. E não é apenas questão contábil. O Brasil tem dívida acima da média dos países emergentes. Tal situação eleva a percepção de risco, inibe investimentos, reduz a criação de empregos e a melhoria do bem-estar da população.

Do ponto de vista fiscal, a perspectiva para 2026 continua negativa. As receitas devem diminuir com a desaceleração da economia. Em ano eleitoral, com Lula em busca de um quarto mandato, o governo não deverá economizar. Diversos projetos irresponsáveis do ponto de vista fiscal, como a tarifa zero no transporte urbano, estão em debate. O ano mal começou, mas o fim é conhecido: mais gastos excluídos das metas fiscais — e ainda mais endividamento.

Progresso na segurança não eliminou risco de desastres em barragens

Por O Globo

Apesar de leis para desativação, ainda há no país 45 diques de rejeitos como os de Mariana e Brumadinho

O extravasamento de água e sedimentos de uma represa da Mina de Fábrica, propriedade da Vale em Ouro Preto (MG), sucedido menos de 24 horas depois por outro na Mina Viga, também da Vale em Congonhas (MG), despertou temores compreensíveis. A empresa foi autuada e multada em R$ 1,7 milhão. Os dois episódios — felizmente sem vítimas — ocorreram quando completava sete anos a tragédia de Brumadinho, que deixou 270 mortos e foi um dos maiores desastres ambientais do Brasil.

Depois da tragédia, foi criada em Minas a Lei Mar de Lama Nunca Mais, que determina o fim de barragens instáveis. Outra lei federal renovou a exigência. Todas deveriam ter sido desativadas até fevereiro de 2022, mas um acordo entre dez empresas, Ministério Público de Minas e governo estadual prorrogou os prazos. No país, 45 barragens similares continuam ativas, como mostrou reportagem do GLOBO.

Desse total, 16 estão classificadas em algum nível de alerta ou emergência pela Agência Nacional de Mineração (ANM), e 14 não iniciaram procedimentos para fechamento. Oito concluíram o projeto executivo, e seis nem isso. Mais da metade fica em Minas. A ANM argumenta que os prazos foram estendidos “após análise técnica individualizada das justificativas apresentadas”. Agora, a data para desativação varia caso a caso. A mais longa é 2035, para uma mina da Vale em Ouro Preto.

Dez anos depois do rompimento da barragem em Mariana, desastre que deixou 19 mortos e despejou milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos na Bacia do Rio Doce, e sete anos depois do desastre em Brumadinho, as cicatrizes ainda estão expostas. Os efeitos são visíveis em cidades fantasmas e rios contaminados pela lama. O luto das famílias não tem fim. No domingo, bombeiros encerraram a busca por corpos em Brumadinho. Duas vítimas não foram encontradas até hoje.

O método usado para construir as barragens que se romperam era comum. Chamado alteamento a montante, consiste em ampliar o dique para cima quando a represa enche, usando o próprio rejeito nas barreiras de contenção. A barragem vai crescendo em degraus. O método é mais simples e barato, porém mais frágil e inseguro.

Não se pode dizer que não tenha havido avanço depois dos desastres. A Vale informou que todas as barragens a montante da empresa estão inativas e não recebem mais rejeitos. Afirmou ainda que elas são monitoradas 24 horas por dia, sete dias da semana. Devem ser reconhecidos os esforços dela e de outras mineradoras para aumentar o nível de segurança, além das inúmeras legislações e iniciativas para apertar a fiscalização e desativar as estruturas suscetíveis a rompimento. Mas a população ainda tem motivo para se preocupar. Brumadinho aconteceu três anos depois de Mariana e expôs as mesmas falhas. É verdade que hoje as leis são mais rigorosas. É preciso, porém, monitoramento constante, cumprimento dos prazos para desativação das barragens e transparência sobre os riscos. Seria inaceitável que o Brasil tivesse de chorar por novas vítimas.

Juros enfim devem cair, mas não se sabe o quanto

Por Folha de S. Paulo

BC mantém Selic em 15% e indica redução a partir de março, mas aponta obstáculos para o novo ciclo

Não é garantido recuo a 12,25% neste 2026; expectativas de inflação incorporam incertezas geradas pelo rombo orçamentário do governo Lula

De acordo com o Banco Central, o primeiro dos riscos para a alta dos preços neste momento é "uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado". É o que se lê no comunicado em que a autoridade monetária anunciou a manutenção de seus juros em 15% ao ano.

No mesmo documento, o BC indica que a taxa Selic deve ser reduzida na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março. Afirma-se que o compromisso de levar o IPCA de volta à meta de 3% em 12 meses "impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo" de queda.

Com base tanto nesse texto quanto em indicadores econômicos e projeções de mercado, compreende-se que o caminho para a redução de Selic está cercado de empecilhos e incertezas. Não está garantido, alerta o BC, que a taxa básica caia para os 12,25% anuais projetados pelo mercado para o final deste ano.

A mediana das expectativas de inflação continua "desancorada" —há mais de um trimestre, não dá sinais de que convergirá de modo rápido para a meta. Segundo as previsões compiladas pelo BC, o IPCA chegaria a 4% ao final deste 2026. No terceiro trimestre de 2027, chegaria a 3,74% —é neste momento em que, se estima, a política monetária de agora teria seu maior impacto.

Já segundo o cálculo do BC que adota as previsões do mercado para a Selic, a inflação estaria em 3,2% no terceiro trimestre do ano que vem. A discrepância entre as contas ainda é notável.

Os números dos analistas independentes estão influenciados pelo rombo orçamentário produzido pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —o risco de déficits contínuos ou maiores e, assim, de crescimento ainda mais acelerado da dívida pública.

Não se sabe se o presidente que tomará posse em 2027 adotará medidas críveis e relevantes para conter a deterioração fiscal. Nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula, houve déficits recorrentes, mesmo com crescimento do PIB e da arrecadação.

Outro risco mencionado pelo BC é o de persistência da inflação de serviços numa economia que se expande acima de seu potencial. De menos controverso a esse respeito, sabe-se que o mercado de trabalho continua forte.

A taxa de desemprego baixou à mínima de 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, segundo o IBGE, com crescimento anual de 1,1% do total de pessoas empregadas. O salário médio aumentou 5% em termos reais e anuais, ao menos o dobro do ritmo do PIB. Salários em alta pressionam os preços dos serviços.

A valorização do real ante o dólar contribuiu para conter a inflação no ano passado, mas não é certo que a moeda americana continue em queda.

Tudo isso lança incertezas não só sobre o ritmo da redução dos juros, mas também sobre até onde ela poderá ir. As projeções mais consensuais são de dois dígitos até o final de 2027, o que ainda será uma taxa asfixiante.

Um mundo mais seco

Por Folha de S. Paulo

Relatório mostra que a humanidade consome água além da capacidade de renovação de sistemas hidrológicos

Até uma potência no setor hídrico como o Brasil sofre impactos; secas assolaram a amazônia em 2023-24; SP viveu crise hídrica em 2014-15

Relatório da Universidade das Nações Unidas divulgado no final deste mês afirma que o mundo entrou em "falência hídrica". A expressão se refere ao balanço desse recurso natural, e, segundo os pesquisadores, as contas não fecham.

A humanidade não está gastando apenas os fluxos renováveis de água (rios, lagos, córregos, reservatórios e aquíferos rasos alimentados por chuvas, neve e granizo) com voracidade maior do que a capacidade de reposição —mais da metade dos grandes lagos do planeta estão encolhendo.

Mas até as reservas emergenciais (aquíferos subterrâneos, geleiras e ecossistemas que armazenam água) estão sendo sugadas.

Geleiras derretidas, após se acumularem por séculos e até milênios, não voltarão a crescer por décadas. O relatório estima que 70% dos aquíferos profundos estão em declínio de longo prazo.

desmatamento impacta a absorção das chuvas e aumenta a erosão do solo, levando sedimentos para zonas úmidas (pântanos, brejos, várzeas e manguezais), o que contribui para o assoreamento desses sistemas —responsáveis pela modulação de vazões e proteção de estoques de água.

O aquecimento global promovido pela queima de combustíveis fosses piora a situação com eventos climáticos extremos. Além das secas, chuvas torrenciais escoam rapidamente pela superfície, ainda mais com a degradação de áreas verdes, em vez de abastecer mananciais ao penetrarem lentamente no solo.

O fenômeno é global. Até uma potência em recursos hídricos como o Brasil sofre seus impactos. Secas assolaram a amazônia em 2023-24; São Paulo viveu uma crise hídrica em 2014-15, e atualmente o nível do reservatório Cantareira ainda é arriscado.

Ademais, a escassez de água cria uma espiral nefasta, principalmente em países pobres, com agricultura menos produtiva, fome e desemprego, sem contar os inúmeros problemas de saúde.

Estima-se que estiagens severas e mais frequentes custem em média US$ 307 bilhões (R$ 1,6 trilhão) anualmente. Cerca de 4,4 bilhões de pessoas enfrentam falta de água durante pelo menos um mês por ano no mundo.

Deve-se medir continuamente quanto de água existe e quanto está sendo usado, além de proteger fluxos naturais e áreas de armazenamento. Manejo sustentável do recurso no agronegócio e nas indústrias é crucial, enquanto centros urbanos precisam ficar mais permeáveis a chuvas.

O relatório deixa claro que as ações de governos e do setor privado não podem se restringir a reações em crises temporárias.

O xadrez de Kassab

Por O Estado de S. Paulo

Com a filiação de Caiado, o PSD passa a ter três governadores presidenciáveis e se consolida como articulador de uma candidatura de centro-direita, fora da polarização Lula-Bolsonaro

O PSD anunciou a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, num movimento que redesenha o tabuleiro eleitoral de 2026, reforça a ambição do partido de ocupar papel central na sucessão presidencial e abre uma janela de oportunidade para a constituição de uma candidatura de centro-direita. Pelo que fez, e pela forma como fez, o presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, parece conceber uma alternativa simultânea ao bolsonarismo, que dificilmente abrirá mão da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), e ao petismo, com o qual o PSD mantém laços institucionais, já que ocupa espaços no atual governo.

Aproveitando-se das divisões em outros partidos da centro-direita, como União Brasil e PSDB, Kassab levou para o PSD três governadores com projeção nacional: Caiado, Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Nenhum deles exibe, individualmente, a força eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas Tarcísio tem deixado claro, até aqui, que não baterá de frente com o bolsonarismo e deve concorrer à reeleição estadual. Com sua provável saída do jogo nacional, o campo da direita e da centro-direita passou por uma reorganização relevante, abrindo espaço para novas articulações e reposicionamentos.

Ao receber Caiado, Kassab afirmou que o PSD pretende lançar candidatura própria ao Palácio do Planalto e que não atuará como linha auxiliar nem do governo Lula nem do bolsonarismo. Os governadores, por sua vez, falaram em protagonismo, na necessidade de apresentar ao eleitorado uma alternativa viável e na disposição de disputar o espaço hoje ocupado por uma polarização que dá sinais evidentes de esgotamento.

Esses movimentos não ocorrem no vácuo. Com eles, aumentam as chances de uma candidatura de centro-direita que entre na disputa sem se confundir com o bolsonarismo – ou, ao menos, que se coloque à parte dele. Também se fortalece a hipótese de uma candidatura com identidade mais claramente centrista, amparada por um partido com estrutura nacional, capilaridade nos Estados e consistência político-partidária. Nesse desenho, o PSD desponta como o principal instrumento dessa tentativa de reorganização do campo político.

Isso não significa, contudo, que o bolsonarismo esteja fora do jogo. Ao contrário. Hoje, dificilmente Flávio Bolsonaro desistirá da disputa presidencial. O senador herda parcela expressiva dos votos do pai, dialoga diretamente com a base bolsonarista raiz e tem aparecido de forma competitiva nas pesquisas. Trata-se de um ativo eleitoral concreto, que confere ao bolsonarismo resiliência mesmo sem Jair Bolsonaro no páreo.

A diferença é que cresce agora a possibilidade de a direita chegar ao primeiro turno dividida. De um lado, uma candidatura identificada com o bolsonarismo; de outro, ao menos uma candidatura de centro-direita, menos ideológica e mais pragmática. A entrada de novos protagonistas tende a intensificar a competição por espaço, visibilidade e estratégia política rumo às eleições.

É nesse contexto que o papel de Gilberto Kassab se torna ainda mais estratégico. Ao anunciar seus movimentos com cautela e evitar compromissos antecipados, o dirigente se descola tanto do bolsonarismo quanto do lulopetismo, o que lhe garante margem de manobra para montar palanques fortes nos Estados, negociar alianças regionais conforme as circunstâncias locais e preservar a flexibilidade necessária para o segundo turno. Em um sistema político marcado pela fragmentação e pela volatilidade, essa independência é um ativo raro.

Ainda é cedo para selar caminhos definitivos. Mas já é possível afirmar que o PSD deixou de ser apenas um partido pragmático à espera de oportunidades. Sob a condução de Kassab, tornou-se um dos principais organizadores do campo político fora da polarização. Se essa centralidade se converterá em protagonismo eleitoral é uma incógnita. Que ela será decisiva para compreender a eleição de 2026, disso já não parece haver dúvida.

A coragem do Banco Central

Por O Estado de S. Paulo

É um alento que o BC esteja disposto a olhar para si mesmo enquanto supervisor do sistema financeiro em vez de terceirizar responsabilidades e agir como um avestruz no caso do Banco Master

Fez bem o Banco Central (BC) ao abrir uma investigação interna para escrutinar o caso Banco Master desde sua origem até a derradeira liquidação extrajudicial, decretada em novembro do ano passado. Tão importante quanto ressarcir os investidores prejudicados pela atuação temerária da instituição financeira é aprimorar a fiscalização para, se não garantir, ao menos reduzir a chance de que um escândalo dessa monta se repita no futuro.

O processo foi aberto pela corregedoria do BC a pedido de seu presidente, Gabriel Galípolo, no fim do ano passado, corre sob sigilo e não tem prazo para ser concluído. O que se sabe é que dois servidores públicos que atuavam na área de fiscalização e supervisão bancária no Banco Central deixaram recentemente os cargos de confiança que ocupavam, embora não haja acusação formal contra eles.

A investigação interna, em tese, pode abrir flancos a serem explorados pela defesa do empresário Daniel Vorcaro, que se fia na tese de que o Banco Central se precipitou ao anunciar o fechamento do Master – estratégia que visa não a reverter a decisão, mas a evitar uma potencial condenação criminal e preservar o patrimônio de seu dono. Galípolo, no entanto, parece estar confiante de que a liquidação do banco era mesmo inevitável.

Na semana em que a decisão foi anunciada pelo Banco Central, o Master tinha R$ 127 milhões em débitos a vencer e apenas R$ 4 milhões em caixa, uma fração da liquidez que uma instituição daquele porte deveria manter, além de R$ 2 bilhões em depósitos compulsórios que não haviam sido recolhidos. Em outras palavras, estava quebrado.

Essas e outras informações são parte do depoimento que o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, prestou à Polícia Federal (PF) no fim do ano passado. O sigilo da oitiva foi levantado pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do próprio Banco Central.

A atenção que a imprensa tem dado a esse caso tem gerado constrangimentos e produzido resultados. Um relutante e silencioso Toffoli admitiu, pela primeira vez, enviar os processos para instâncias inferiores da Justiça quando as investigações se encerrarem. Isolado no STF, o presidente da Corte, Edson Fachin, angaria apoio na sociedade pela aprovação de um código de conduta para os ministros.

O voluntarioso relator do caso no Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, desistiu de uma inspeção no BC e a substituiu por uma diligência a ser realizada por servidores, e não seu gabinete. O resignado presidente do órgão, Vital do Rêgo, reconheceu que não é prerrogativa da Corte de Contas reverter a liquidação do Master.

Mesmo com parte do Congresso envolvido até o pescoço em iniciativas para ajudar o Master e coagir o Banco Central, o presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), anunciou que Vorcaro foi convocado para depor no dia 5 de fevereiro para prestar esclarecimentos sobre as operações de crédito consignado que oferecia a aposentados e pensionistas.

Por certo ainda há muito a ser elucidado, especialmente sobre a rede de contatos que Vorcaro construiu em Brasília, mas essa teia provavelmente é fruto do crescimento vertiginoso que o Master registrou entre 2019 e 2024, período durante o qual seus ativos aumentaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões. Entre 2021 e 2024, segundo a Moody’s, o banco saiu da 77.ª posição para a 25.ª no ranking das maiores instituições financeiras do País.

Nesse sentido, é um alento que o BC tenha tido a coragem para olhar para si mesmo enquanto supervisor do sistema financeiro em vez de simplesmente terceirizar responsabilidades e agir como um avestruz.

Afinal, o BC estava ciente dos problemas da instituição financeira mais de um ano antes de liquidá-lo. Fechar um banco é uma medida extrema, mas a inércia perante uma atuação temerária também tem custo elevado. Basta ver o prejuízo que o Master já causou ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), sem falar das perdas de empresas, fundos de previdência municipais e estaduais e do próprio BRB, ainda a serem dimensionados.

Triunfo da racionalidade

Por O Estado de S. Paulo

Anvisa resgata o cultivo da ‘Cannabis sativa’ para uso medicinal do limbo regulatório

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de regulamentar o cultivo da Cannabis sativa para fins medicinais e científicos representa o triunfo da racionalidade em um debate que, no Brasil, não raro é contaminado por preconceitos, mentiras e paixões ideológicas. Ao fixar critérios técnicos claros para a manipulação da planta, a Anvisa não só cumpriu uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) – que, em 2024, considerou legal o uso clínico da cannabis – como, sobretudo, projetou a ampliação do acesso a uma substância, o canabidiol, que comprovadamente melhora a qualidade de vida de milhares de brasileiros acometidos por uma série de doenças.

As novas regras sanitárias não deixam brecha para o uso recreativo da maconha, que continua proibido no País, nem autorizam o plantio doméstico por indivíduos. O cultivo é restrito a pessoas jurídicas – empresas, universidades e associações de pacientes – previamente autorizadas e submetidas a um rigoroso controle de segurança. Trata-se, portanto, de uma regulamentação que combina avanço com responsabilidade, sem margem para más interpretações.

Em linhas gerais, a Anvisa regulamentou o cultivo da Cannabis sativa L. com teor de tetrahidrocanabinol (THC) de até 0,3% para fins medicinais e científicos. Essa concentração de THC não provoca efeitos psicotrópicos. Assim, a agência deu um passo decisivo para tirar muitas famílias e cientistas de uma encruzilhada. A ciência já comprovou os benefícios da planta no tratamento de epilepsias, endometriose, esclerose múltipla, transtornos neurológicos e outras enfermidades graves. Mas o acesso aos derivados da cannabis segue caro, burocrático e, para muitos brasileiros, simplesmente inviável. A dependência da importação do canabidiol é um calvário para os pacientes e seus familiares.

A regulamentação pode mudar esse curso ao estimular a produção local, reduzir custos e ampliar a oferta, mas sempre sob supervisão do Estado. Ademais, a regulamentação do cultivo nacional cria condições para que o Brasil integre, de forma mais ativa, amplas redes internacionais de pesquisa em universidades de primeira linha. Isso pode contribuir para que, no futuro, medicamentos à base de cannabis possam ser desenvolvidos e produzidos no País.

Outro aspecto relevante é a norma específica voltada às associações de pacientes sem fins lucrativos. Ao autorizar o cultivo para essas organizações em um ambiente controlado e supervisionado para produção em pequena escala, a Anvisa demonstrou que sensibilidade social pode caminhar lado a lado com o rigor científico. A produção de conhecimento a partir dessa experiência será fundamental para decisões regulatórias futuras, ancoradas em fatos, não em crenças, nem muito menos preconceitos.

Em tempos de anticientificismo, a decisão da Anvisa reafirma o valor de políticas públicas de saúde orientadas por evidências. Esse é o caminho moderno, responsável e civilizado que um país que se pretende desenvolvido como o Brasil deve trilhar.

O Mito das Cavernas e o caso Master

Por Correio Braziliense

O mito platônico ensina que o maior risco não é apenas viver na caverna, mas defender a caverna. Reagir às revelações com corporativismo, silêncio ou desqualificação automática das críticas equivale a proteger as sombras.

Não existe República sem transparência. E não há transparência possível quando a luz pública é deliberadamente filtrada por sombras, agendas paralelas e relações opacas entre poder econômico e autoridades do Estado. O escândalo envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, expôs mais do que um conjunto de suspeitas financeiras: revelou um padrão de funcionamento que afronta princípios republicanos elementares, sobretudo a publicidade e a impessoalidade dos atos públicos.

No clássico da filosofia grega A República, Platão descreve o célebre mito da caverna. Nele, homens acorrentados desde o nascimento confundem sombras projetadas na parede com a própria realidade. Quando um deles consegue sair, vê o mundo como ele é e, ao retornar para alertar os demais, é desacreditado e hostilizado. A alegoria permanece atual porque descreve não apenas a ignorância, mas o conforto da ignorância — e o poder daqueles que controlam a luz e as sombras.

No caso Master, a metáfora simboliza o emaranhado de relações não transparentes entre o sistema financeiro, a política e o sistema de Justiça. As sombras são as reuniões fora da agenda oficial, os contratos milionários sem explicações públicas suficientes, as intermediações envolvendo pessoas próximas a ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada disso, isoladamente, constitui prova de ilegalidade automática. O problema é outro, mais profundo: a naturalização da opacidade em um regime que se diz republicano.

A Constituição não exige apenas que o Estado seja honesto; exige que pareça honesto. A legitimidade democrática não se sustenta apenas no cumprimento formal da lei, mas na confiança pública de que as decisões são tomadas à luz do dia, por critérios universais, e não por relações pessoais ou circuitos informais de influência. Quando essa confiança é corroída, abre-se espaço para o veneno antidemocrático — o discurso de que "as instituições não merecem crédito", de que a democracia é uma farsa.

É nesse ponto que o Supremo se encontra na berlinda. Não porque haja, até aqui, condenação ou comprovação definitiva de desvios, mas porque a Corte ocupa uma posição singular no arranjo institucional brasileiro. O STF não dispõe de "legitimidade de saída" eleitoral; sua autoridade repousa na coerência jurídica, na estabilidade das decisões e, sobretudo, na conduta irrepreensível de seus integrantes. Qualquer sombra projetada sobre esse edifício afeta todo o sistema republicano.

O mito platônico ensina que o maior risco não é apenas viver na caverna, mas defender a caverna. Reagir às revelações com corporativismo, silêncio ou desqualificação automática das críticas equivale a proteger as sombras. Ao contrário, a resposta republicana exige transparência ativa: esclarecimentos públicos, divulgação de agendas, explicitação de vínculos, prestação de contas detalhada. Quem exerce poder em uma democracia não tem o direito ao conforto da penumbra.

Há também um equívoco recorrente que precisa ser enfrentado: o de que exigir transparência seria "atacar as instituições". É exatamente o oposto. Instituições se fortalecem quando são capazes de se submeter ao escrutínio público sem medo. A opacidade é o terreno fértil do autoritarismo; a luz é a matéria-prima da República.

O caso Master, portanto, não é apenas um escândalo financeiro em investigação. É um teste político e moral para o Estado brasileiro. Permaneceremos acorrentados às sombras, aceitando explicações mínimas e rituais formais de legalidade? Ou teremos a coragem institucional de sair da caverna, mesmo sabendo que a luz incomoda, expõe e cobra?

Platão advertia que o retorno do homem liberto à caverna seria traumático. Mas, sem o confronto com a realidade, a comunidade permanece prisioneira da ilusão. Defender a democracia, hoje, passa por isso: romper com o mito confortável da normalidade opaca e reafirmar, sem concessões, que não há República possível sem transparência radical.

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