CartaCapital
Bolsonaro quase cumpriu a promessa de acabar
com a democracia. Por que tantos brasileiros ignoraram – ou fingiram ignorar –
essa ameaça?
Caros leitores, pela primeira vez uso este espaço para recomendar um livro: Arquitetura da Destruição: Um Diário da Era Bolsonaro, do Palanque à Condenação (Ed. Autêntica), de Bernardo Mello Franco. A obra reúne análises escritas pelo jornalista no calor dos acontecimentos e publicadas nas páginas do jornal O Globo. Reunidas em volume, essas colunas adquirem, como observa a historiadora Heloisa Starling no prefácio, a dimensão de um poderoso testemunho sobre a trajetória do homem que prometeu acabar com a democracia brasileira – e quase cumpriu a promessa.
Bolsonaro jamais escondeu suas pretensões
ditatoriais. Em 1999, quando questionado sobre o que pretendia fazer caso fosse
eleito presidente da República, não hesitou em defender o fechamento do
Congresso Nacional. “Daria um golpe no mesmo dia. Não funciona! Tenho certeza
que pelo menos 90% da população ia fazer festa e bater palma”, afirmou, antes
de acrescentar que o voto popular é incapaz de produzir mudanças concretas no
País. “Você só vai mudar, infelizmente, quando um dia nós partirmos para uma
guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez,
matando uns 30 mil. Começando com FHC…”. Por que tanta gente não acreditou
– ou fingiu não acreditar – na promessa do capitão?
Tão logo assumiu o governo, Bolsonaro expôs
sua vocação autoritária, inclusive com ofensas e ameaças ao Supremo Tribunal
Federal. A pregação contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral escalou
após a Corte confirmar, em 2021, a anulação das condenações de Lula. Naquele
momento, Bolsonaro colhia os resultados da gestão desastrosa da pandemia de
Covid-19 – mais de 700 mil mortes –, enquanto o adversário petista despontava
como favorito nas pesquisas de intenção de voto.
Até então inerte, o Judiciário despertou
quando o ministro Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, determinou a
abertura de um inquérito para apurar seis crimes na avalanche de acusações
falsas de Bolsonaro contra as urnas: corrupção, fraude, conduta vedada a agente
público, campanha extemporânea, uso indevido dos meios de comunicação e abuso
de poder político e econômico. Barroso também enviou uma notícia-crime ao STF
para incluir o capitão na mira do inquérito das fake news.
Bolsonaro ainda tentou intimidar o Congresso
com um desfile de blindados, mas o plano não saiu como esperado, observa Mello
Franco: “Os parlamentares rechaçaram a pressão e sepultaram a farsa do voto
impresso. A parada fora de época virou alvo de chacota nas redes”. Poucos
fanáticos assistiram à tragicômica passagem dos tanques, com motores queimando
óleo diesel e soltando fumaça preta. Ainda assim, contava com a proteção do
presidente da Câmara, Arthur Lira, que engavetou mais de uma centena de pedidos
de impeachment contra ele em troca de um bilionário “orçamento secreto” para
manejar.
Felizmente, as instituições não deixaram de
funcionar. Em 2021, o TSE bloqueou a monetização de sites que disseminavam
mentiras, a principal arma dos bolsonaristas contra adversários. Alexandre de
Moraes avançou no inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos. Após a
intentona bolsonarista de 8 de janeiro de 2023, assumiu também a relatoria da
ação penal contra o núcleo central da trama golpista. Provas reunidas pela
Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República possibilitaram a inédita
condenação de um presidente e de altos oficiais das Forças Armadas por
conspirar para um golpe de Estado no Brasil.
De nada adiantaram as súplicas dos golpistas
em quartéis ou grupos de oração. Se existe, Deus aparentemente não moveu uma
palha para salvar o bolsonarismo. O líder da seita ainda tentou usar a vitória
de Donald Trump nos Estados Unidos para alterar os rumos do seu julgamento no
Brasil, mas a conspiração fracassou. Bolsonaro não poderia prever que Lula,
hábil negociador desde os tempos de sindicalista, negociaria o relaxamento das
tarifas e sanções impostas pelo presidente norte-americano, que ao cabo constatou
ter uma “química excelente” com o homólogo brasileiro.
Os textos de Mello Franco trazem análises
certeiras e corajosas, que merecem ser relidas em perspectiva histórica. Não
surpreende, portanto, que Bolsonaro tenha fustigado jornalistas ao longo de todo
o governo: “Vocês são uma porcaria de imprensa!”, costumava bradar. Antes de
encerrar, vale resgatar a declaração do ministro Flávio Dino, do STF, por
ocasião dos 60 anos do golpe de 1964: “Não existe, em nosso regime
constitucional, um poder militar. O poder é apenas civil”. Perfeito! É
reconfortante saber que, diante de uma nova ameaça despótica, o Brasil
preservou a democracia.
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

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