terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói. Por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Os que sofrem merecem empatia, mas não são heróis

A dor nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito

Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado terrorista no teatro Bataclan, em Paris.

À primeira vista, a decisão poderia passar sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a elevação da vítima a um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.

Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?

Nada disso: o desconforto da primeira decisão permaneceu. E foi precisamente esse desconforto que levou o filósofo Pascal Bruckner a formular uma pergunta simples e perturbadora: por que motivo as vítimas são vistas como heróis?

É uma boa pergunta, a que Bruckner responde no ensaio "Je souffre donc je suis" ("sofro, logo existo"), recentemente publicado.

As vítimas são vítimas, escreve o autor. Merecem empatia. Devemos recordá-las. Devemos honrá-las. A título de exemplo, Bruckner cita o memorial do 11 de Setembro, em Nova York, como a materialização poderosa dessa obrigação de memória.

Difícil discordar: aquele abismo central, engolindo a água, é uma metáfora solene sobre o terror que engoliu a vida naquela manhã. Quem viu não esquece.

Mas a memória não se confunde com o heroísmo. A memória reconhece uma ferida e, no limite do possível, procura curá-la. O heroísmo celebra uma ação que se inscreve acima da conduta normal.

Atribuir medalhas de heroísmo a quem esteve no lugar errado, à hora errada, significa confundir uma condição —trágica, obviamente— com um ato.

Claro que a centralidade da vítima na moral contemporânea não é um fenômeno recente. Para Bruckner, o cristianismo fundou-se sobre o sofrimento de um inocente —e esse gesto teve um impacto duradouro na ética e na jurisprudência ocidentais.

Pela primeira vez, o fraco, o humilhado e o oprimido, cuja relevância era secundária no mundo pagão, foram colocados no centro da moral.

Foi uma inversão decisiva: permitiu a revalorização dos mais frágeis, fundou uma ética de compaixão e lançou as bases da ideia moderna de dignidade humana.

Mas esse legado teve também uma face ambígua quando levado até o extremo do ressentimento (obrigado, Nietzsche). A impotência nem sempre é virtude e o sofrimento nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito. Será preciso lembrar que há masoquistas malignos?

Por outro lado, é inegável que a mensagem cristã da igualdade radical dos homens deixou sua marca nas doutrinas modernas dos direitos humanos e nos movimentos sociais que lutaram —e lutam— contra a opressão de povos e minorias.

O problema surge quando essa atenção concedida à vítima deixa de ser um princípio de proteção e se transforma numa identidade metafisicamente elevada, virtuosa, digna de culto, capaz de suplantar os verdadeiramente heroicos.

Isso tem implicações políticas —ou, melhor dizendo, antipolíticas. Como lembrava Hannah Arendt, a política se organiza em torno da ação, da responsabilidade e do julgamento.

A vitimização é uma recusa da política. Já não se discute o que deve ser feito; compara-se quem sofreu mais, em hierarquias de dor que se expandem continuamente.

Esse "culto da vítima", segundo Bruckner, tem efeitos nocivos. Se todos somos vítimas por alguma razão, deixamos de distinguir o sofrimento real do sofrimento subjetivo e, muitas vezes, imaginário.

Pior ainda: o sofrimento deixa de ser um mal a reparar e passa a ser um capital simbólico que deve ser mantido, exibido e protegido. Superá-lo implicaria perda de status.

De vez em quando, os jornais da Europa trazem estudos e pesquisas sobre a disponibilidade dos europeus para defender seus países em caso de agressão militar externa. É uma preocupação que se agravou depois da invasão russa da Ucrânia.

Os resultados são sempre desanimadores: com raríssimas exceções, poucos estariam preparados para se engajar pessoalmente na defesa. Motivos para a deserção?

Os especialistas divergem. Uns falam da paz como normalidade histórica. Outros lembram a crise do Estado-nação como objeto de lealdade. E alguns atribuem ao hiperindividualismo essa relutância em defender o coletivo.

Eu, com a devida vênia aos especialistas, prefiro respirar o ar do tempo e concluir: para os homens do século 21, é melhor ser vítima que herói.

 

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