Folha de S. Paulo
Fundos faziam investimentos superfaturados em
outros fundos para esconder dinheiro
Questão agora é saber quem estava na ponta do
lucro gordo, Vorcaro ou mais poderosos
O Banco Master emprestava
dinheiro a empresas. Essas empresas investiam em fundos. Por exemplo, fundos
administrados pela Reag,
aquela gestora investigada pela polícia por administrar dinheiros do PCC ou
também de outras empresas criminosas. Ou também em fundos que tinham relações
com negócios e propriedades de Daniel
Vorcaro.
Esses fundos compravam voluntariamente gato magro por lebre, superfaturados. Isto é, compravam títulos (direitos e dinheiros a receber), como se relatava nestas colunas e como detalhado por colegas desta Folha.
Quem vendia o gato magro a preço de lebre de
ouro tinha ganho grande, aplicado em outro fundo, com outros haveres. Quem são
os donos finais desses haveres? Laranjas de Vorcaro, suspeitam as instituições
oficiais envolvidas na investigação. Ou quem mais? Para onde iria esse
dinheiro? Para investimentos imobiliários ou hoteleiro ou de outros serviços de
políticos e amigos poderosos? Para empresas de cônjuges dos poderosos? Outras
iniciativas financeiras e empresariais, por assim dizer?
Essa é uma questão que, diz o lugar-comum,
"tira o sono dos políticos em Brasília" (e de outras capitais,
aliás). Outra é saber quem incentivou fundos de
aposentadoria de servidores a comprar títulos do Master. Ainda
outra, das três maiores é saber por que o BRB,
o banco estatal do Distrito Federal, comprava um frango fantasma achando que
era uma galinha de ovos de ouro. Isto é, comprava créditos, direitos quaisquer
a receber, como o de empréstimos, que não existiam, segundo suspeita que Banco
Central levou ao Ministério Público. Enfim, o BRB parecia escalado para engolir
um banco fantasma, evitar a bancarrota do dono e apagar os rastros das
bandalhas.
Por ora, essa é a parte maior dos indícios de
crime. Por isso, tanto se teme que Vorcaro se veja obrigado a fazer delação
premiada a fim de escapar de cadeia longa (e, talvez, para preservar um
dinheiro, em um processo que pretende condenar o BC por irregularidades). O
alto risco de rolo federal, com gente graúda envolvida, motivou a onda de plantação
("fake") e vazamento (real) de notícias, lobby pesado de
advogados, campanhas
pagas pelas redes de influenciadores etc. Por tudo isso, é
intrigante a atitude de Dias Toffoli,
do STF, e de Jhonatan de
Jesus, do TCU, aquela investida agressiva contra o BC seguida de
recuo quando passaram a aparecer indícios graves de bandalha.
O BC continua a analisar o efeito dessas
transações na saúde financeira do BRB. Polícia Federal e Ministério Público
aprofundam a investigação das denúncias enviadas pelo BC. Mas a bola está
também com a Comissão de Valores Imobiliários. O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva acaba de indicar um
novo presidente para a CVM, Otto Lobo,
conhecido por decisões controversas na instituição. A intriga engrossa —governo
e cúpula da oposição e do Congresso tentam dar um jeito de evitar uma CPI.
Esse escândalo político federal é muito
importante e, de resto, rende fofoca animada. Mas se esquece do "filme que
deu origem à série": o Master era um morto-vivo pelo menos desde o início
de 2025, um zumbi, tanto por irresponsabilidade financeira como por seus
haveres fictícios. Para entender o caso e muito mais, é crucial entender como o
Master estava quebrado. Assunto para a coluna de amanhã.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.