O Globo
Espelhamos nossa percepção do adversário e os
vemos como ameaça existencial
Um dos resultados mais surpreendentes da pesquisa sobre polarização política é o espelhamento. Quem é muito de esquerda ou muito de direita distorce a percepção dos adversários, imaginando que são a negação de si mesmos. Isso parece acontecer por um mecanismo cognitivo que nos leva a perceber o outro como muito diferente porque nos tornamos muito iguais.
O que acontece parece complicado, mas é
simples de explicar. Quando perguntamos a alguém de esquerda o que define “ser
de esquerda”, dizem que é combater as desigualdades sociais e defender o
direito de minorias, como negros ou mulheres. E quando perguntamos a alguém de
esquerda o que é “ser de direita”, dizem que é o contrário de quem é de
esquerda; imaginam que ser de direita é ser a favor da desigualdade social,
machista e racista.
Quando fazemos as mesmas perguntas à direita,
aparece a mesma distorção. Quando perguntamos a alguém de direita o que é “ser
de direita”, dizem que é defender a família, os valores tradicionais e combater
a corrupção. Quando perguntamos o que é “ser de esquerda”, também mencionam
atributos contrários aos que veem em si: dizem que ser de esquerda é ser contra
a família e a favor da corrupção (no entendimento da direita, quem é de
esquerda não apenas apoia políticos corruptos, mas é a favor da corrupção).
Notem que quem tem identidade forte de
esquerda ou de direita expressa uma definição do adversário desalinhada com a
autodefinição — uma definição distorcida e espelhada. Esquerda e direita
manifestam autodefinições singulares. A esquerda enfatiza a justiça social; a
direita, a ordem e a tradição. Essas definições são apenas diferentes. Porém,
quando tentam definir o adversário, em vez de usar os traços que o outro se
atribui, projetam nele traços contrários aos que consideram seus.
Curiosamente, esse mecanismo de espelhamento
não acomete muito quem tem identidade de centro ou não tem identidade de
esquerda nem de direita. Esse grupo consegue com bastante propriedade definir
esquerda e direita de acordo com suas autodescrições — dizem que alguém de
esquerda é contra as desigualdades e alguém de direita é a favor da família e
da ordem tradicional. Em resumo, quem é de centro ou não tem identidade
política não espelha e consegue ler cada identidade pelo que ela é.
O espelhamento pode ser um dos motivos por
que a polarização afetiva — a hostilidade entre pessoas de esquerda e de
direita — está tão alta. Quem é de direita odeia quem é de esquerda por
acreditar que a esquerda ameaça aquilo que o constitui essencialmente. Acha que
ser a favor da família e da ordem é algo essencial e acredita que a esquerda
quer destruir isso. O mesmo acontece com a esquerda que odeia quem é de direita
por acreditar que a direita quer destruir o que lhe é mais caro e essencial, a
justiça social.
Em outras palavras, o espelhamento faz cada
lado pensar no outro como ameaça ontológica, algo que põe em risco sua própria
existência. Como o adversário não é apenas alguém diferente, mas alguém que
quer destruir o que sou, eu também passo a querer destruí-lo para me proteger.
Esse é o ciclo da polarização afetiva. É um ciclo baseado em distorção
perceptiva.
Não sabemos muito bem por que isso acontece.
Pode ser apenas porque, quando pessoas de direita e de esquerda pararam de se
relacionar, deixaram de viver a experiência direta do outro e começaram a
imaginá-lo como o contrário de si mesmas.
Mas pode ser também que isso seja decorrência
da maneira como percebemos as coisas. Uma teoria dos anos 1980, a “teoria da
autocategorização”, sustenta que separamos as pessoas em grupos de identidade
para facilitar processos cognitivos, usando categorias que nos identificam
enquanto grupo coeso e que nos distinguem ao máximo dos adversários. Uma das
decorrências desse mecanismo é que, quando ficamos muito parecidos
internamente, tendemos a maximizar a diferença percebida com os adversários — e
não há nada mais diferente do que aquilo que é espelhado.
Se essa for mesmo a explicação, espelhamos
nossa percepção do adversário e os vemos como ameaça existencial porque
esquerda e direita ficaram internamente muito parecidas, muito homogêneas.
Muitos progressistas se identificam com o lulismo, enquanto professores e
artistas aderem ao progressismo. Ao mesmo tempo, conservadores se aproximam do
bolsonarismo, e profissionais da educação física e da segurança pública se
alinham com o conservadorismo. Essa homogeneização nos torna parecidos demais,
disparando o espelhamento e, consequentemente, o medo do outro como ameaça
existencial. A intolerância política e a hostilidade são, assim, um mecanismo
de autodefesa contra essa percepção distorcida.

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