Folha de S. Paulo
Há no ar uma nostalgia da polarização épica,
que cedeu terreno para temas ocasionais e dispersão dos dois lados
À espera da eleição, esquerda erra sobre Irã
e jornalismo, enquanto bolsonaristas atacam 'O Agente Secreto'
Como se sabe, a prisão de Jair
Bolsonaro foi o ponto culminante da polarização entre esquerda e
direita que se seguiu à eleição de Lula em 2022.
Os sinais de uma trama golpista, que se avolumaram e ganharam mais evidência
com a barbárie do 8/1, foram alvo da Polícia Federal, com posterior denúncia da
Procuradoria-Geral da República e julgamento do Supremo Tribunal Federal.
Foram anos de enfrentamento em todas as frentes políticas, com acirrada guerra de posições nas redes sociais, na mídia e nas ruas. Não preciso rememorar aqui, todos assistimos ao show.
Agora que o capitão golpista, seus generais e
outros menos votados foram sentenciados, a
direita, desorientada, ainda tenta emplacar uma anistia que sabe que
não virá e já vai se concentrando na mais provável redução de penas, apesar do
veto cinematográfico de Lula.
Por seu turno, a esquerda, ao ganhar o jogo,
perdeu o brinquedo. Saiu do embate épico com a faixa de campeã, mas agora está
naquele limbo à espera da eleição.
Na tentativa de manter a chama viva nesse interregno,
começou a cometer erros primários: atacar
o jornalismo para defender o ministro Alexandre de Moraes, que ao ser
associado ao Master (não adianta fingir que não está) poderia ser alvo de um
imaginário impeachment.
Atacar Xandão seria abrir alas para a
anulação do processo contra os golpistas. Uma mobilização, convenhamos,
rocambólica e delirante, além de negacionista: a advocatícia família do
magistrado indicado por Temer tinha um contrato
com o banco para defendê-lo e abocanhar R$ 129 milhões. Agora, com o
surgimento em cena de Fabiano
Zettel, o cunhado de Daniel Vorcaro, pastor e doador milionário de
Bolsonaro e Tarcísio, as coisas prometem esquentar no mundo Master.
As redes de esquerda também derraparam em
temas candentes, como
o banho de sangue no Irã. Depois do estúpido e duradouro apoio do PT a
Maduro, que acabou solapando
a moral do governo brasileiro para exercer alguma liderança nessa
crise, reluta-se agora em condenar a teocracia do Irã. Ah, vai ser pior com o
Trump, pontificam.
Bem, é dessa maneira, com essa lógica de
promover grande investimento emocional e pouca racionalidade —basta um isso é
nós e aquilo é eles—, que a máquina dos embates polarizados se move. São
tsunamis na profundidade de um pires.
Enquanto isso, a direita dedicou-se nos
últimos dias a atacar "O Agente
Secreto", seu diretor Kleber
Mendonça Filho e o ator Wagner Moura, pelo pecado de terem feito um
grande filme, recebido prêmios e alertado para riscos de aventureiros
fascistóides como Bolsonaro e Trump. Até a múmia Mario
Frias saiu das catacumbas para manifestar seu ódio espumante.
Já conformados com a condenação do líder, bolsonaristas
tentam realçar as agruras do prisioneiro, com seus problemas de saúde.
Querem prisão
domiciliar —o que seria, aliás, razoável. Grande parte da esquerda
prefere, para não explorar o assunto, responder com piadinhas sádicas
punitivistas. Discutem-se ainda escaramuças eleitorais a respeito da ex-primeira
dama Michelle, do governador Tarcísio de Freitas e do até aqui
candidato Flávio
Bolsonaro.
Há no ar uma nostalgia de tempos em que tudo
era golpismo, Xandão, tornezeleira e cadeia. Mas essa fase, graças a Deus,
passou.

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