A sociedade contemporânea é extremamente fragmentada. É possível discordar sobre questões essenciais ou acessórias. A convivência pressupõe o diálogo entre os diferentes, a contraposição de pontos de vista, a abertura para convencer e ser convencido. Mas há limites em relação a princípios centrais que são verdadeiras cláusulas pétreas da existência, onde não cabem adjetivos, relativizações, concessões ou seletividade.
Não é fácil construir uma visão de futuro diante
de um mundo dominado pelo anárquico pragmatismo autoritário de Trump, pela
perversa e obscura hegemonia de Putin, pelo antidemocrático e eficaz
Capitalismo de Estado de Xi Jinping, pela agressividade de Netanyahu, pela
fragilidade das lideranças europeias, pela insanidade dos que patrocinam o
terrorismo, pela caricatura decadente em que se transformaram as ditaduras
socialistas. Pouca coisa restou de sonho e utopia. O futuro parece pendurado em
um fio de cabelo. Os velhos paradigmas
ideológicos já não empolgam.
Restaram duas palavras: liberdade e
democracia. São o que são. Essência da natureza humana. Se não há nenhuma grande
ideia que nos inspire, que pelo menos tenhamos espaço de liberdade para juntos,
em ambiente plural, a partir das divergências e contradições, democraticamente
construirmos um rumo, imaginar um futuro. A opinião pública internacional e os
democratas precisam defender de forma contundente a democracia como valor
universal e único caminho legítimo, no Irã, nos EUA, na Venezuela ou no Brasil.
Qual é a diferença entre aqueles que matam
milhares de manifestantes nas ruas de Teerã; assassinaram a militante estadunidense,
Renee Nicole Good, em seu carro, apenas por protestar contra a insana política
de imigração de Trump; o governo que matou o policial oposicionista venezuelano
Edilson Torres, dentro de seu sistema prisional; ou aqueles que mataram, na
tortura, o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho nos porões
da ditadura brasileira? Do ponto de vista moral dos valores da liberdade, da
democracia e do humanismo que nos devem guiar: nenhuma.
E aí filtros ideológicos e verdades de
ocasião obscurecem convicções e relativizam princípios. Sou de esquerda, logo,
contra o imperialismo americano, portanto condeno Trump e o fascismo
brasileiro, mas me calo em relação à Venezuela e ao Irã. Achei inacreditável a
imagem na Cinelândia, no Rio, onde manifestantes entoavam em alto e bom som:
“Não sou yankee, nem quero ser, tô com Maduro, Chavez e com Che”, passando por
cima das atrocidades cometidas pelas ditaduras em Cuba e na Venezuela e
desconhecendo que a concentração de renda e a mortalidade infantil cresceram e o
PIB per capita caiu, nos 25 anos de chavismo bolivariano.
Em contraposição, sou de direita, logo,
contra a conspiração comunista internacional, portanto, condeno a Venezuela e o
Irã, aliados da China e da Rússia, e defendo Trump e seus absurdos e nego a
ditadura brasileira, que inclusive inspirou a tentativa de golpe de 8 de
janeiro de 2023.
Os verdadeiros democratas precisam semear clareza, coerência e coragem. A democracia é o reino da liberdade. Aqui ou em qualquer parte do mundo. Essa é a única esperança que restou.

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