sábado, 17 de janeiro de 2026

Sem adjetivos, sem concessões. Por Marcus Pestana

Nunca foi tão urgente. Nunca foi tão necessário. O mundo do século XXI parece, às vezes, teatro do absurdo, realismo fantástico, um sanatório geral.

A sociedade contemporânea é extremamente fragmentada. É possível discordar sobre questões essenciais ou acessórias. A convivência pressupõe o diálogo entre os diferentes, a contraposição de pontos de vista, a abertura para convencer e ser convencido. Mas há limites em relação a princípios centrais que são verdadeiras cláusulas pétreas da existência, onde não cabem adjetivos, relativizações, concessões ou seletividade.

Não é fácil construir uma visão de futuro diante de um mundo dominado pelo anárquico pragmatismo autoritário de Trump, pela perversa e obscura hegemonia de Putin, pelo antidemocrático e eficaz Capitalismo de Estado de Xi Jinping, pela agressividade de Netanyahu, pela fragilidade das lideranças europeias, pela insanidade dos que patrocinam o terrorismo, pela caricatura decadente em que se transformaram as ditaduras socialistas. Pouca coisa restou de sonho e utopia. O futuro parece pendurado em um fio de cabelo.   Os velhos paradigmas ideológicos já não empolgam.

Restaram duas palavras: liberdade e democracia. São o que são. Essência da natureza humana. Se não há nenhuma grande ideia que nos inspire, que pelo menos tenhamos espaço de liberdade para juntos, em ambiente plural, a partir das divergências e contradições, democraticamente construirmos um rumo, imaginar um futuro. A opinião pública internacional e os democratas precisam defender de forma contundente a democracia como valor universal e único caminho legítimo, no Irã, nos EUA, na Venezuela ou no Brasil.

Qual é a diferença entre aqueles que matam milhares de manifestantes nas ruas de Teerã; assassinaram a militante estadunidense, Renee Nicole Good, em seu carro, apenas por protestar contra a insana política de imigração de Trump; o governo que matou o policial oposicionista venezuelano Edilson Torres, dentro de seu sistema prisional; ou aqueles que mataram, na tortura, o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho nos porões da ditadura brasileira? Do ponto de vista moral dos valores da liberdade, da democracia e do humanismo que nos devem guiar: nenhuma.

E aí filtros ideológicos e verdades de ocasião obscurecem convicções e relativizam princípios. Sou de esquerda, logo, contra o imperialismo americano, portanto condeno Trump e o fascismo brasileiro, mas me calo em relação à Venezuela e ao Irã. Achei inacreditável a imagem na Cinelândia, no Rio, onde manifestantes entoavam em alto e bom som: “Não sou yankee, nem quero ser, tô com Maduro, Chavez e com Che”, passando por cima das atrocidades cometidas pelas ditaduras em Cuba e na Venezuela e desconhecendo que a concentração de renda e a mortalidade infantil cresceram e o PIB per capita caiu, nos 25 anos de chavismo bolivariano.

Em contraposição, sou de direita, logo, contra a conspiração comunista internacional, portanto, condeno a Venezuela e o Irã, aliados da China e da Rússia, e defendo Trump e seus absurdos e nego a ditadura brasileira, que inclusive inspirou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Os verdadeiros democratas precisam semear clareza, coerência e coragem. A democracia é o reino da liberdade. Aqui ou em qualquer parte do mundo. Essa é a única esperança que restou.

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