Folha de S. Paulo
Mudanças no país serão movidas a interesses
de Trump por petróleo, minérios e energia, além de disputa com a China
Ação deve ser feita em conjunto com o atual
governo, agora comandado pela líder interina Delcy Rodríguez
O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Maduro e sua esposa, violando a soberania e o Direito Internacional, são acontecimentos que ainda estão sendo decantados e que envolvem vários graus de incerteza. Mas as entrevistas de Donald Trump e de seu staff de secretários no último dia 3 de janeiro apresentam indicações importantes. A mais relevante é aquela que sustenta que haverá uma transição na Venezuela. Nem Trump nem seus conselheiros mencionaram a palavra democracia. Será uma transição movida a interesses: petróleo, minérios, energia e disputa com a China.
Trump e Marco Rubio (secretário de Estado)
afirmaram que a transição será feita em conjunto com o atual governo, agora
comandado pela líder interina Delcy
Rodríguez. Quais as razões dessa escolha de atores e de modelo? Há que se
notar que tanto para Delcy, quanto para o regime sobrevivente, parece não haver
alternativas: ou aceitam participar dessa transição ou os EUA farão novas ações
militares. O que há que se examinar são as razões das escolhas do governo
Trump.
Os Estados Unidos e a Europa tiveram
experiências amargas em algumas intervenções militares que traziam, de forma
subjacente, a ideia de democratização dos países atacados. O Iraque e o
Afeganistão, mas também a Líbia, são alguns dos exemplos mais notórios desses
fracassos. No Iraque, invadido em 2003, Sadam Hussein e a liderança política e
militar foram mortos. A transição foi marcada por vários conflitos entre grupos
internos e, até hoje, enfrenta desafios.
Em 2001, os Estados Unidos, com o apoio
da Otan,
invadiram o Afeganistão e derrubaram o regime do Talibã para implantar a
democracia. Em 2021, depois de uma longa guerra, as forças
ocidentais se retiraram de forma desastrosa e o Talibã voltou ao
poder. A derrubada e a morte de Muammar Gaddafi em 2011, com guerra civil e
bombardeios da Otan, mergulharam a Líbia numa guerra civil intertribal sem fim.
Trump, em sua campanha, foi muito crítico
dessas experiências e prometeu não envolver mais os Estados Unidos em conflitos
dessa natureza. A sua base eleitoral assumiu essa promessa como um dogma. As
movimentações contra a Venezuela receberam críticas não só dos democratas, mas
também de republicanos que temem a quebra da promessa.
A ideia de fazer uma transição em parceria
com o regime chavista sobrevivente na Venezuela levou em conta essas
experiências ruins e a rejeição de uma ocupação militar do território
sul-americano. O cálculo parece ter sido o seguinte: derrubar o regime chavista
poderia mergulhar o país num caos prolongado de desordens e conflitos. Afinal
de contas, o regime tem o controle das Forças Armadas, das polícias, dos grupos
paramilitares e de movimentos sociais. Um governo com as figuras da oposição
(María Corina Machado, Edmundo González e outros) teria muita dificuldade de
controlar essas forças e gerar estabilidade.
A escolha da transição em parceria com o
regime é fato. O formato e o processo estão em definição. A transição envolve
aspectos políticos e econômicos e deverá incorporar setores das elites
privadas, representantes de petroleiras norte-americanas, militares, opositores
etc. O governo americano fornecerá as diretrizes do processo. Em um ponto
futuro serão convocadas eleições se tudo correr certo.
Os teóricos das transições (Juan Linz e
Alfred Stepan) classificaram esse modelo como transição pactuada. Raymundo
Faoro o chamava de "transição transada". Foi o modelo adotado
no Brasil
na redemocratização. As forças do regime a ser superado definem os
parâmetros da transição em negociação com a oposição e com os diversos grupos
de interesses.
As características dessa transição são: pacto
entre as elites com exclusão do povo, mudança passiva sem transformação e
mudança da fachada institucional. O poder se caracteriza pelo ingresso de novos
atores, que estavam excluídos, e com a manutenção de atores da antiga ordem. É
mais ou menos isso que se desenha para a Venezuela. Orientados pelos
americanos, os governantes venezuelanos agirão com a espada de Dâmocles
pendendo sobre suas cabeças.

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