quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Trump pode apequenar queda de Maduro. Por César Felício

Valor Econômico

Influência dos EUA nas eleições brasileiras e colombianas deve se dar por outra forma

Há algum tempo, desde o início da colonização das redes sociais pela direita, política externa tornou-se um assunto da política doméstica brasileira, e o repúdio a Nicolás Maduro, o ditador venezuelano capturado pelos Estados Unidos no último sábado, é quase uma unanimidade nacional. Ele deixa a esquerda, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tabela, em uma saia justa por unir em sua pessoa socialismo, autoritarismo, corrupção e debacle econômica.

Não por outro motivo os presidenciáveis da direita se ouriçaram em ir às redes sociais logo na manhã de sábado para colar Maduro em Lula e procurar capitalizar dividendos para a eleição deste ano. De acordo com levantamento comparado da Atlas Intel de outubro do ano passado, logo após a escolha de Maria Corina Machado para o Prêmio Nobel da Paz, só na diáspora venezuelana a imagem de Maduro é mais negativa do que no Brasil.

Mesmo nos Estados Unidos a captura de Maduro conta pontos no cenário das eleições do Congresso no fim do ano. Não apenas pelo retumbante sucesso militar, mas por sensibilizar o eleitorado de origem hispânica, oscilante na polarização entre republicanos e democratas e estratégico em um momento em que a popularidade do presidente Donald Trump claudica.

Mas a maneira como Trump anunciou ao mundo a sua façanha reembaralhou as cartas.

Trump falou que os Estados Unidos iria governar a Venezuela temporariamente e disse que a vice de Maduro seria a interlocutora na Venezuela, desde que acatasse suas ordens. Esse não era um roteiro esperado e afasta a hipótese de uma redemocratização venezuelana sob auspícios da Casa Branca. Como fica o fim do autoritarismo, da corrupção e mesmo do socialismo em Caracas? A única perspectiva favorável que a intervenção abre no momento é uma eventual recuperação da economia com a retomada da produção de petróleo.

Para Andrei Roman, responsável pela pesquisa de outubro, na hipótese do regime autoritário ter continuidade haverá frustração no eleitorado de origem hispânica nos Estados Unidos. E o eventual impacto eleitoral na Colômbia e no Brasil, dois países com eleição presidencial este ano e no momento governados pela esquerda será minimizado. “A esquerda não ganhará nada com essa história, mas a direita deixará de receber dividendos”, afirmou. Neste primeiro momento, contudo, em que a imagem existente é a de Maduro algemado, o cenário com que Roman trabalha é que há muito mais eleitores satisfeitos nos Estados Unidos, Colômbia e Brasil do que preocupados.

No caso dos Estados Unidos, uma pesquisa da Reuters Ipsos divulgada nesta segunda mostrou uma divisão em três partes iguais do eleitorado entre os que não tem opinião sobre a ação militar, os que a apoiam e os que a deploram.

Quando a pergunta é sobre alguns pontos colocados por Trump em seu pronunciamento, aí só há repercussão positiva predominante na bolha republicana. A maioria não quer ocupação militar, nem tomada dos campos de petróleo, nem tem posição firmada sobre a correção ou não da afirmação de Trump de que a Venezuela expropriou indevidamente empresas americanas.

Se 34% do eleitorado concorda com a tese da Venezuela ser governada temporariamente pelos Estados Unidos —algo que ainda não se materializou—44% é contra.

Com o fim de Maduro amortecido pela ação trumpiana, o efeito do que se passou não é o de uma segunda queda do Muro de Berlim. A eleição presidencial brasileira pode ser decidida pela franja de 4 ou 5 milhões de eleitores que foram bolsonaristas em 2018 e que votaram em Lula em 2022, de acordo com Mauricio Moura, do Instituto Ideia. É um eleitorado pouco ideológico, de classe média, fora da zona de conforto do PT, mas que não se guia apenas pelo antipetismo. Segundo Moura, Trump e Maduro para estes eleitores pouco ou nada querem dizer. “Não vivem de notícia ou pela notícia, vivem da realidade cotidiana”, definiu.

A sombra do que se passou na Venezuela passa a pairar sobre o processo eleitoral brasileiro dentro de uma outra perspectiva: o que a Casa Branca poderá fazer para influenciar na sucessão de Lula?

A atuação de Trump em relação ao processo eleitoral colombiano poderá ser um “test drive”. Os colombianos irão às urnas em maio para escolher o sucessor de Gustavo Petro, que não pode se reeleger. Petro é impopular, muito mais impopular do que Lula e em tese um candidato de direita, potencialmente alinhado ao trumpismo, teria favoritismo, mas as pesquisas dizem que a esquerda não está fora do jogo.

Segundo o especialista Feliciano Sá Guimarães, do Cebri e professor da USP, Trump deverá calibrar sua interferência no processo. “Ele mostra disposição de interferência direta e tudo vai depender da viabilidade do candidato da direita. Tem as redes sociais como instrumento e tem o seu próprio aprendizado sobre o que funciona e o que não funciona”, comentou, em um raciocínio que vale tanto para a Colômbia quanto para o Brasil.

No caso do Brasil, Trump mudou de tática ao perceber que as sanções econômicas que decretou em solidariedade ao ex-presidente Jair Bolsonaro estavam inflando a aprovação popular de Lula. No caso de Honduras, a tática funcionou, mas aí havia um candidato alinhado ao trumpismo eleitoralmente viável. Em relação ao Chile, o presidente americano provavelmente concluiu que uma intervenção americana no processo eleitoral era desnecessária, já que a derrota da esquerda em um segundo turno era uma das maiores barbadas em processos eleitorais recentes.

Na visão de Sá Guimarães, sobreviver a um Estados Unidos que se sente ameaçado em um mundo multipolar e procura demarcar a América Latina como sua esfera de influência é o grande desafio para Lula.

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