domingo, 25 de janeiro de 2026

Uma riqueza de rimas, imagens e humor. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta revivem um formato dos bambas: a dupla de cantores

'Bicudos Dois' vai de clássicos esquecidos e joias perdidas a inéditos por sambistas de hoje

Enquanto houver um microfone para Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, a música brasileira terá presente, passado e futuro. Juntos ou separados, os dois valem por uma equipe de cantores, arqueólogos e campeões do que de melhor se fez em samba, dos primórdios até hoje. Seu repertório vai de clássicos esquecidos de 1935 e joias perdidas de 1955 até inéditos de 2025 —não deles, que não precisam disputar com o gigantesco cancioneiro que têm na cabeça, mas de sambistas de hoje, que, contra todas as marés, continuam a produzir.

Seu novo disco, disponível no streaming¸"Bicudos Dois", é a sequência há muito esperada de "Dois Bicudos", de 2004, em que eles reviviam um formato favorito dos velhos bambas: os cantores em dupla, batendo-se um contra o outro, esgrimindo contracantos, atrasando-se ou adiantando-se e, juntos ou sozinhos, da harmonia à picardia. Alfredo e Pedro Paulo não concordarão, mas, para mim, esse novo disco os torna melhores do que ilustres predecessores —Noel Rosa e Marilia Baptista, Joel e Gaúcho, Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro—, só empatando com seus inspiradores, Francisco Alves e Mario Reis.

As letras de "Dois Bicudos" são uma enciclopédia de rimas, imagens e humor em sambas como "O Que Vier Eu Traço", "Não Levo Nada Não" e "Falso Patriota", por antigos compositores de quem você nunca ouviu falar, ou "Pergunta a Meus Tamancos", que você jamais adivinharia ser de... Lupicinio Rodrigues. E os arranjos se apoiam numa riqueza de sopros e percussão, esta incluindo prato e faca, caixeta e chapéu de palha.

"Doralice", de Caymmi e Antonio Almeida, mais conhecido pela versão de João Gilberto em 1959, recupera a riqueza da gravação original de 1945 pelos Anjos do Inferno, com Alfredo e Pedro Paulo fazendo o que os Anjos precisaram de cinco para fazer. E quem senão eles desencavaria a "Marcha do Canto do Rio", o mais obscuro dos hinos que Lamartine Babo compôs para os clubes de futebol do Rio —no caso, de Niterói?

Quem sabe, sabe. É bom estar aqui para aprender.

 

 

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