Folha de S. Paulo
Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta revivem
um formato dos bambas: a dupla de cantores
'Bicudos Dois' vai de clássicos esquecidos e
joias perdidas a inéditos por sambistas de hoje
Enquanto houver um microfone para Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, a música brasileira terá presente, passado e futuro. Juntos ou separados, os dois valem por uma equipe de cantores, arqueólogos e campeões do que de melhor se fez em samba, dos primórdios até hoje. Seu repertório vai de clássicos esquecidos de 1935 e joias perdidas de 1955 até inéditos de 2025 —não deles, que não precisam disputar com o gigantesco cancioneiro que têm na cabeça, mas de sambistas de hoje, que, contra todas as marés, continuam a produzir.
Seu novo disco, disponível no
streaming¸"Bicudos Dois", é a sequência há muito esperada de
"Dois Bicudos", de 2004, em que eles reviviam um formato favorito dos
velhos bambas: os cantores em dupla, batendo-se um contra o outro, esgrimindo
contracantos, atrasando-se ou adiantando-se e, juntos ou sozinhos, da harmonia
à picardia. Alfredo e Pedro Paulo não concordarão, mas, para mim, esse novo
disco os torna melhores do que ilustres predecessores —Noel Rosa e Marilia
Baptista, Joel e Gaúcho, Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro—, só empatando com
seus inspiradores, Francisco Alves e Mario Reis.
As letras de "Dois Bicudos" são uma
enciclopédia de rimas, imagens e humor em sambas como "O Que Vier Eu
Traço", "Não Levo Nada Não" e "Falso Patriota", por
antigos compositores de quem você nunca ouviu falar, ou "Pergunta a Meus
Tamancos", que você jamais adivinharia ser de... Lupicinio Rodrigues. E os
arranjos se apoiam numa riqueza de sopros e percussão, esta incluindo prato e
faca, caixeta e chapéu de palha.
"Doralice", de Caymmi e Antonio
Almeida, mais conhecido pela versão de João Gilberto em 1959, recupera a riqueza da gravação
original de 1945 pelos Anjos do Inferno, com Alfredo e Pedro Paulo fazendo o
que os Anjos precisaram de cinco para fazer. E quem senão eles desencavaria a
"Marcha do Canto do Rio", o mais obscuro dos hinos que Lamartine Babo
compôs para os clubes de futebol do Rio —no
caso, de Niterói?
Quem sabe, sabe. É bom estar aqui para
aprender.

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