Jornal da Unicamp
Agendas do passado, emergências do presente e
o futuro em risco
É difícil acompanhar o debate público no Brasil sem tropeçar, quase diariamente, em alertas sobre a crise fiscal iminente, o crescimento dos gastos e a trajetória da dívida pública. É claro que a situação fiscal do país importa e que ignorar esses números seria irresponsável, ainda assim, confesso um incômodo persistente perante esse debate. Tenho a sensação de que ele ignora as pessoas: fala-se de corte de gastos como imperativo técnico, muitas vezes necessário para reduzir desperdícios, ineficiências e práticas inaceitáveis, como a corrupção, mas raramente se discute com a mesma ênfase onde esses cortes incidem e como afetam a provisão de serviços públicos essenciais e a vida das pessoas. Ajustes fiscais aparecem como abstrações, ignorando que seus efeitos sobre a saúde, a educação e outras políticas básicas se manifestam de forma muito concreta sobre a população, particularmente a mais vulnerável. Discute-se a insustentabilidade da previdência, mas quase nunca a velhice e o destino de milhões de pessoas que envelhecerão fora dos modelos que organizam essas contas.
Esse desconforto leva a algumas perguntas
simples e incômodas: será que, como sociedade, estamos de fato nos preparando
para o futuro, ou apenas reagindo, com categorias antigas, a problemas que já
mudaram de natureza? Quando o futuro chegar – e ele chegará – teremos condições
de cuidar de nossas crianças, apoiar as mães, amparar os idosos, prover
segurança básica e garantir cidadania a quem vive fora do trabalho fixo e
regular?
É claro que enfrentar os desafios associados
às transformações em curso e às exigências do futuro passa, necessariamente,
pelo crescimento econômico, pelo aumento da produtividade, pela redução da
informalidade, da criminalidade e da injustiça tributária, bem como por um
ambiente institucional que estimule investimento, inovação e geração de renda.
Sem isso, a capacidade do Estado é estruturalmente limitada. Mas o ponto aqui é
outro: mesmo quando – e se – o crescimento vier, esses problemas não se
resolverão automaticamente. Eles dizem respeito à forma como o Estado se
organiza, decide, coordena e sustenta direitos em uma sociedade que está
mudando mais rápido do que suas instituições.
A conversa que proponho é olhar o Estado para
além da sustentabilidade das contas, como uma construção histórica voltada a sustentar
direitos, coordenar expectativas e oferecer alguma previsibilidade ao longo do
ciclo de vida. Esse deslocamento revela um descompasso mais profundo e mais
preocupante do que o fiscal: entre uma sociedade que já funciona em modo
digital e um Estado ainda operando no modo analógico.
O Estado diante da incerteza em transformação
O Estado moderno se constituiu para tornar a
incerteza socialmente administrável e para assegurar direitos, organizando a
vida coletiva por meio de regras, instituições e políticas públicas. Essa dupla
função – central na construção dos sistemas de proteção social e na garantia de
direitos ao longo do século XX – passa a ser tensionada por transformações
profundas e simultâneas que alteram o ambiente em que o Estado opera. Mudanças
no mercado de trabalho, no perfil demográfico, na tecnologia, no clima e na
própria política se acumulam, comprimem o tempo de resposta institucional e
ampliam a distância entre os instrumentos disponíveis e os problemas a
enfrentar, em um contexto agravado pela fragilização das instituições
multilaterais e pela erosão das regras compartilhadas, cada vez mais
substituídas pela política do mais forte.
Nesse contexto, o desafio central deixa de
ser lidar com choques isolados e passa a ser administrar seus efeitos
combinados. Mecanismos de coordenação, planejamento e proteção social
concebidos para contextos mais previsíveis revelam limites crescentes. É nesse
deslocamento silencioso – menos visível do que uma crise fiscal, mas mais
profundo – que se consolida uma crise de adequação histórica, da qual os
problemas de financiamento são apenas a face mais visível.
Quando a exceção deixa de ser exceção
Durante muito tempo, crises foram tratadas
como interrupções da normalidade, às quais o Estado respondia mobilizando
instrumentos excepcionais para, em seguida, retomar o funcionamento regular de
suas instituições. O que parece estar em curso hoje é uma mudança de regime:
choques deixaram de ser episódios pontuais e passaram a compor o próprio
ambiente em que o Estado opera. Pandemias, eventos climáticos extremos,
instabilidades econômicas recorrentes e crises humanitárias não apenas se
repetem, como frequentemente se sobrepõem, produzindo pressão contínua sobre a
ação pública.
A esse cenário soma-se uma transformação
decisiva na percepção social do tempo. Esperam-se respostas imediatas, decisões
rápidas e soluções visíveis em prazos cada vez mais curtos, mesmo quando os
problemas se tornam mais complexos, interdependentes e difíceis de resolver. A
demora, ainda que necessária, passa a ser interpretada como falha ou omissão.
Esse encurtamento do tempo social entra em
tensão direta com o funcionamento das instituições públicas e da própria
democracia. Procedimentos, controles, coordenação entre níveis de governo, negociação
entre interesses divergentes e respeito a marcos legais exigem tempo. Esses
mecanismos, que funcionam como garantias contra arbitrariedades e erros graves,
passam a ser percebidos como entraves em um ambiente que valoriza a velocidade
acima de quase tudo.
O resultado é um descompasso crescente entre
expectativas sociais e capacidade institucional. A ação estatal tende a ser
julgada menos por sua consistência ao longo do tempo e mais por sua capacidade
de reagir rapidamente. Decisões complexas são avaliadas antes mesmo de produzir
efeitos, o espaço para planejamento estrutural se estreita e a exceção deixa de
ser um desvio temporário, passando a moldar de forma persistente o cotidiano da
ação estatal.
O Estado no limite
Pensar o futuro do Estado exige deslocar o
foco do quanto ele gasta para como ele se organiza, decide e sustenta direitos
ao longo do tempo. Esse deslocamento revela, no cotidiano da ação pública, um
descompasso crescente entre demandas que se multiplicam, expectativas que se
ampliam e a capacidade efetiva de hierarquizar prioridades. O Estado é chamado
a agir em mais frentes, sob maior intensidade e escrutínio permanente, com
instrumentos institucionais concebidos para contextos menos turbulentos,
fragmentados e polarizados.
Um aspecto central dessa dinâmica –
frequentemente negligenciado no debate público – é que as demandas dirigidas ao
Estado não incorporam limites de capacidade fiscal, administrativa ou
institucional. Elas se apresentam como necessidades imediatas, direitos
legítimos ou injustiças a serem reparadas e, do ponto de vista de quem as vive,
muitas vezes são exatamente isso. O problema é que essas demandas
inevitavelmente se acumulam, em volume e complexidade muito superiores à
capacidade do Estado de absorvê-las e transformá-las em ação pública
consistente.
Essa pressão se exerce de forma vertical e
horizontal, atravessando níveis de governo e áreas de atuação distintas,
frequentemente sem clareza sobre competências, responsabilidades ou capacidade
de coordenação. Tudo parece urgente, tudo parece essencial, tudo exige resposta
imediata.
Essa lógica tem efeitos diretos sobre a
política. Quando tudo se apresenta como prioridade absoluta, escolher passa a
ser visto como negar direitos; hierarquizar, como arbitrariedade; planejar,
como demora injustificável. O espaço para decisões estratégicas se estreita, e
a política passa a operar sob gestão permanente de conflitos, mais voltada a
administrar pressões do que a sustentar escolhas no tempo.
O resultado é um Estado que opera cada vez
mais próximo do limite – não apenas fiscal, mas organizacional, político e
institucional. Emergências deixam de ser desvios temporários e passam a ocupar
o centro da ação estatal. A lógica do improviso e da resposta rápida tende a se
normalizar, substituindo o planejamento e a ação estruturante.
Não se trata, aqui, de incapacidade técnica
pura e simples. Em muitos casos, essa forma de operar é uma resposta racional a
um ambiente que pune a prudência, deslegitima a demora e recompensa o gesto
visível. Sob essas condições, o Estado passa a funcionar menos como organizador
estratégico da vida coletiva e mais como amortecedor permanente de choques
sucessivos.
Abrindo a conversa
Este primeiro texto não pretendeu oferecer
respostas nem soluções prontas. Seu objetivo foi outro: reorganizar a forma
como formulamos o problema do Estado, examinando seu funcionamento no presente
para iluminar os riscos que se projetam no horizonte. As transformações aqui
discutidas não são apenas desafios imediatos, mas sinais de tensões estruturais
que, se mantidas, tendem a se aprofundar nas próximas décadas.
A pergunta central, portanto, não é apenas
como o Estado funciona hoje, mas que tipo de Estado será capaz de sustentar, no
futuro, funções básicas de proteção, cuidado, coordenação e garantia de
cidadania em uma sociedade que já não se organiza como antes. Uma sociedade que
envelhece com trajetórias de trabalho cada vez mais irregulares, famílias
menores e mais dispersas, redes tradicionais de cuidado fragilizadas e demandas
por proteção que atravessam todo o ciclo de vida. Nada disso se resolve apenas
com ajustes fiscais, nem pode ser tratado como emergência pontual.
Abrir essa conversa significa reconhecer que o desafio central não é apenas administrar melhor o Estado que temos, mas perguntar se ele está se preparando – institucional, política e socialmente – para o mundo que vem pela frente. Nos próximos textos, essa reflexão será aprofundada a partir de alguns desses pontos críticos: o Estado que passa a operar sob emergência quase permanente; a crise da proteção social ao longo do ciclo de vida; os limites de poder, autoridade e capacidade que atravessam a ação estatal; e, por fim, a necessidade de repensar o futuro do Estado para além dos dilemas simplificadores que dominam o debate atual.

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