Valor Econômico
A inserção internacional do Brasil precisa ser
mais proativa e estratégica, com uma visão mais contemporânea sobre comércio
internacional
O Brasil de 2026 enfrenta uma encruzilhada silenciosa, mas decisiva. Enquanto o debate público se concentra nos indicadores de curto prazo e em escândalos, cinco transições estruturais - climática, energética, digital, geopolítica e corporativa - redefinem as regras do jogo econômico global. Nossa capacidade de antecipá-las e gerenciá-las determinará não apenas taxas de crescimento, mas nosso lugar no mundo das próximas décadas.
O primeiro desafio é garantir que um de
nossos principais ativos, o agronegócio, continue a ser um pilar de riqueza
diante da reconfiguração do tabuleiro global da agricultura, e da alteração do
mapa da produção de alimentos, resultado de um planeta que esquenta e que teve
em 2025 o terceiro ano mais quente da história, de acordo com dados do
observatório climático da União Europeia, o Copernicus Climate Change Service.
Alterações no regime de chuvas e o aumento da
temperatura média não são mais cenários hipotéticos e sim variáveis que
impactam a produtividade do café, da soja, do cacau e definem o mapa do stress
hídrico do país. As perguntas cruciais para o planejamento público e privado
são: temos clareza sobre como nossa economia se comportará nos diferentes
cenários de aquecimento? Temos uma estratégia para redução e gestão de riscos e
vulnerabilidades? Sem um diagnóstico preciso dos impactos no emprego, na renda
e no PIB regional, estamos navegando no escuro e alocando recursos de forma
pouco eficiente. É estratégico que o Estado promova as respostas necessárias e
propicie as trajetórias de engajamento e de adaptação do setor produtivo.
Paralelamente, a transição energética exige
uma nova engenharia econômica e fiscal, capaz de responder como financiaremos a
necessária transição para uma economia menos intensiva em carbono, uma vez que
renováveis não geram dividendos no volume e proporção que suas alternativas
fósseis. O petróleo, que hoje injeta cerca de R$ 100 bilhões anuais em tributos
e sustenta orçamentos municipais e estaduais, segundo dados da Agência Nacional
do Petróleo (ANP) de 2024, tem seu horizonte alterado pela exaustão de campos
maduros e pela pressão global por descarbonização.
Como financiaremos, então, uma economia de
baixo carbono sem impactar, no curto prazo, esta importante fonte de receita
para o orçamento público brasileiro? Além disso, a expansão das renováveis
esbarra em gargalos crônicos, como a falta de linhas de transmissão e
capacidade de armazenamento e o desperdício de energia gerada. Este não é
apenas um tema técnico, mas um debate geopolítico e econômico-financeiro que
colocará o Nordeste, com seu potencial renovável, em novo patamar de
protagonismo político nos próximos anos.
Nossa inserção internacional também precisa
ser mais proativa e estratégica, com uma visão mais contemporânea sobre
comércio internacional. Em um mundo fragmentado por guerras e no qual cresce a
instabilidade e o protecionismo, o Brasil pode ser um fornecedor global estável
de alimentos, energia limpa e minerais essenciais. Para isso, além da
necessária adaptação a padrões de sustentabilidade exigidos internacionalmente,
como é o caso do Acordo UE-Mercosul, é urgente superar o desconhecimento
crônico sobre nossas soluções, como os biocombustíveis e as técnicas de
agricultura tropical que sequestram carbono. Precisamos liderar nos fóruns onde
as métricas são definidas, “tropicalizando” padrões que hoje não nos favorecem,
e empreender um esforço estratégico para reconstruir nossa imagem, ainda
ofuscada por velhos problemas crônicos como segurança pública e desmatamento.
Nesse mesmo tabuleiro regional, a situação da
Venezuela e a instabilidade projetada sobre a América Latina e sobre todo o
globo deixam de ser um tema periférico e passam a integrar a equação de
soberania, energia e minerais críticos, em um momento em que o Brasil busca
estruturar governança, previsibilidade e inserção competitiva nesses setores. A
Venezuela concentra algumas das maiores reservas de petróleo do mundo,
inseridas em um contexto de restrições operacionais, reconfiguração
institucional e forte influência de dinâmicas geopolíticas externas, justamente
quando o sistema global de energia e minerais passa por uma profunda
reorganização. Para o Brasil, ignorar esse entorno é desistir de exercer
liderança política econômica na América do Sul quando estabilidade,
previsibilidade e integração regional se tornam vantagens competitivas, além de
uma projeção internacional individual do país.
Ainda, a adaptação precisará ser um
imperativo também corporativo. Eventos climáticos extremos já perturbam cadeias
de suprimentos, afetam a produtividade do trabalho e exigem resiliência
operacional. Exemplos não faltam: a refrigeração de transporte de alimentos e
medicamentos precisará ser intensificada, operações de importação e exportação
serão impactadas por danos a infraestrutura portuária, centros de resfriamento
para pessoas precisarão ser criados. A mudança também afetará a área de
seguros, demandando novas linhas de produtos, o incentivo à adoção de técnicas
e ferramentas sustentáveis como critérios para acesso a coberturas e
precisaremos, ainda, de novos modelos de financiamento da segurança alimentar
brasileira, já que recursos públicos não serão suficientes para cobrir perdas
da produção resultado desses eventos.
Por último, como nos posicionaremos diante do
futuro da economia digital, que deixa de ser ferramenta comercial e passa a ser
infraestrutura crítica para a segurança nacional, com implicações sobre
soberania. Decisões sobre parcerias para redes inteligentes, energias renováveis
e agricultura de precisão vão determinar não apenas o custo e a velocidade de
nossa transição para uma economia de baixo carbono, mas também nosso grau de
autonomia estratégica e competitividade futura. Essas opções implicam
diferentes níveis de exposição à vigilância estrangeira, de vulnerabilidade a
sanções internacionais e de dependência tecnológica. Um exemplo claro está no
campo: dados sobre solo, clima e produtividade são ativos sensíveis: se
concentrados em mãos estrangeiras, colocam em risco a soberania sobre nossa
produção. Da mesma forma, o controle sobre redes de comunicação e satélites
afeta diretamente nossa capacidade de monitorar o território e de manter
comunicações vitais em crises.
A performance da nossa economia, e o
bem-estar das nossas pessoas, dependem das escolhas de hoje num mundo em
mudança. Há um ano novo começando, com eleições que se avizinham e, portanto,
com novas oportunidades para as escolhas que não podem mais ser adiadas.
*Mônica Sodré é CEO da
Meridiana, sênior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais
(Cebri) e cientista política com doutorado pela Universidade de São Paulo.

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