O Globo
Vamos ver como o carnaval filtra tudo isso
para que mergulhemos de novo num ano eleitoral
Quando menino, o carnaval era uma festa de
acasalamento: Ai, morena/ Seria meu
maior prazer/ Passar o carnaval contigo/ Beijar a sua boca e depois morrer.
Aos olhos do adulto, o carnaval é apenas um filtro político. Que enredos sobreviverão a ele, quantos escândalos ainda serão lembrados, pois, no Brasil, depois do carnaval é que começa o ano, com seu sabor de novidade. Algumas CPIs já estão no final, como a do crime organizado e a do assalto aos velhinhos do INSS. Seu último esforço é se agarrar à cauda do cometa, o escândalo do Banco Master.
A do crime organizado tenta convocar Viviane
Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para explicar o contrato
milionário com o Banco Master: R$ 3,6 milhões por mês, num total de R$ 130
milhões. A do INSS tenta trazer o próprio Daniel Vorcaro. Todas buscam um gran
finale para seu trabalho e, com isso, apostam, como nós, que o escândalo do
Master tem uma generosa sobrevida depois do carnaval.
Outro tema com expectativa de longa vida é a
luta contra os supersalários nos três Poderes da República. O ministro Flávio
Dino proibiu os penduricalhos, que elevam os salários às alturas, e pediu
regras claras para as verbas indenizatórias. Auxílio-panetone no Natal e auxílio
iPhone estão entre os artifícios bizarros para turbinar os salários, assim como
excesso de folgas, que passam a ser vendidas como trabalho extra. Segundo
alguns cálculos, os supersalários — remuneração de 53 mil servidores — custam
R$ 20 bilhões ao ano, com a parcela maior no Judiciário, R$ 10,5 bilhões. Isso
para juízes, pois, no Ministério Público, o custo é de R$ 3,2 bilhões.
Os supersalários são aqueles acima do máximo
permitido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do Supremo,
R$ 46,4 mil. Com ou sem penduricalhos, quem ganha mais que isso está fora da
lei — vale dizer que boa parte dos juízes do Brasil está nessa condição.
A Câmara tem um projeto para regulamentar
tudo isso. Nele, não se podem receber penduricalhos, exceto em 30 casos.
Equivale simbolicamente a um queijo suíço. De qualquer forma, o Supremo
analisará a decisão de Dino e pode dar uma ajuda proibindo os penduricalhos.
Isso pode melhorar sua imagem num momento difícil. Apenas melhorar, pois o caso
Master continua desgastando dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias
Toffoli.
Bem que fizeram discursos defensivos na
retomada dos trabalhos do Judiciário. Esgrimiram argumentos contra acusações
hipotéticas e se esqueceram de responder a seus reais problemas.
Enfim, vamos ver como o carnaval filtra tudo
isso para que mergulhemos de novo num ano eleitoral. De novo, teremos
esperanças, promessas de novos tempos, enfim, o ritual clássico de uma eleição.
Cada vez mais, no entanto, alguns problemas
se repetem tristemente no Brasil, e não encará-los é perigoso, porque a
democracia pode ser vista como farsa. Nesse caso, teremos profundo desânimo ou
sinal verde para aventureiros autoritários, inclusive no poderoso Congresso.

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