Valor Econômico
Unilateralismo, fragmentação e acordos
preferenciais transformaram as regras multilaterais em uma peneira
A ordem comercial multilateral baseada em
regras está se desfazendo, em meio a choques geopolíticos, uso do comércio como
arma, tarifas de importação empregadas como instrumentos de poder, dificuldades
econômicas, mudanças nas cadeias de abastecimento e avanços digitais, por
exemplo.
Sem surpresa, a Organização Mundial do Comércio (OMC) vive a pior crise de sua história. Uma crise que não começa com Donald Trump. Ela é mais antiga e estrutural. O que muda com Trump é a forma como uma tensão latente passa a ser explicitada de maneira brutal.
O unilateralismo, a fragmentação e os acordos
preferenciais transformaram as regras multilaterais em uma peneira.
É nesse cenário que uma combalida OMC
discutirá seu futuro na conferência ministerial que ocorrerá de 26 a 29 de
março, em Yaoundé, nos Camarões. Estará no centro da agenda uma proposta de
reforma estruturada em três pilares apresentada por um facilitador, o
embaixador norueguês Peter Olberg, aos 163 países-membros.
O primeiro é flexibilizar a tomada de
decisões. Hoje é necessário consenso para concluir qualquer negociação,
inclusive aquelas que se aplicariam apenas aos países participantes. É o caso
de acordos plurilaterais, como facilitação de investimentos e comércio
eletrônico, que seguem bloqueados. A ideia agora é impedir que o consenso seja
indevidamente usado como veto.
O segundo pilar é o “level playing field” -
condições equitativas de concorrência -, partindo do diagnóstico de que as
regras não estão alinhadas com a realidade atual do comércio global. O apoio
estatal às indústrias e outras políticas não orientadas pelo mercado se
multiplicaram, distorcendo a concorrência em escala global. Será necessário
reequilibrar direitos e obrigações. O foco é visivelmente enquadrar as práticas
da China. Uma sugestão é atualizar regras sobre empresas estatais e subsídios
não acionáveis juridicamente, e concentrar-se nos danos causados pelos
subsídios, em vez de em definições restritivas.
O terceiro pilar envolve o Tratamento
Especial e Diferenciado, alvo de países desenvolvidos que buscam impedir que
nações como Brasil, China e Índia continuem a se beneficiar de certas vantagens.
O facilitador defende a definição de critérios de diferenciação entre os países
- isto é, a graduação.
Pelas discussões atuais, parece altamente
provável que não haverá consenso para lançar uma reforma. Os países dizem
apoiar um mandato nessa direção. Mas alguns consideram a proposta tímida, e
outros excessivamente ambiciosa.
Um eventual fracasso da parte oficial da
conferência ministerial não impedirá reações rapidamente. E não será surpresa
se um grupo de países decidir começar a discutir quais poderiam ser novas
regras para o sistema multilateral de comércio. O formato do grupo, quem
participa, quando os EUA e a China se juntariam, e como vincular com a OMC são
coisas a se definir. Certo é que o centro dinâmico poderá ser outro lugar, no
que alguns já chamam de uma espécie de “OMC do B”. Até que surjam novas regras,
muita água ainda passará debaixo da ponte.
A primeira grande movimentação está marcada
para a próxima semana. A União Europeia (27 países), maior bloco comercial do
mundo, organiza no dia 11, em Bruxelas, uma reunião com outros 16 países para
“refletir coletivamente sobre os objetivos comuns para a evolução do sistema
multilateral de comércio”. Foram convidados Austrália, Brasil, Canadá, Chile,
Costa Rica, Japão, Coreia do Sul, México, Nova Zelândia, Noruega, Peru,
Filipinas, Singapura, Suíça, Tailândia e Reino Unido.
Já não se trata apenas de criticar o
unilateralismo dos EUA, mas de reconhecer que certos pilares do sistema
precisam ser repensados. Cerca de 70% do comércio global ainda opera sob as
regras da OMC. Mas ninguém mais fala em livre-comércio, e sim em comércio
administrado. E isso altera o DNA da OMC.
Para o comissário europeu de Comércio, Maro
efcovic, um sistema comercial previsível e baseado em regras não é um ideal
abstrato; é uma necessidade estratégica. “Precisamos urgentemente de um novo
sistema de governança comercial global adequado ao século XXI. A Europa deseja
uma OMC reformada que preserve a previsibilidade, ao mesmo tempo que
proporcione equidade e flexibilidade”, diz ele. A UE defende salvaguardar
regras da OMC que funcionam como regulamentação técnica, avaliação aduaneira e
monitoramento de políticas., que facilitam o funcionamento do comércio no dia a
dia.
Para vários países, antes de decidir
claramente o que defender, talvez o mais importante seja entender com clareza
em que tipo de sistema estamos entrando. De seu lado, o primeiro-ministro do
Canadá, Mark Carney, mencionando ruptura da ordem global, advertiu
recentemente: “As potências médias devem agir em conjunto, porque, se não
estiverem à mesa, estarão no menu”. Significa “construir aquilo em que
afirmamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada,
significa criar instituições e acordos que funcionem conforme descrito”.
Para o Brasil, a aposta na OMC e no
multilateralismo continua sendo politicamente lógica. Mas, como ressalta um
importante observador, se os principais atores começarem a se mover para um
mundo pós-OMC ou para um sistema mais fragmentado, o Brasil precisará repensar,
sem preconceitos, questões como reciprocidade, o uso do estatuto de país em
desenvolvimento, o papel dos acordos preferenciais e o peso crescente da
geopolítica no comércio.

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