Valor Econômico
Num mundo binário, agora vem a crítica ao FGC
por estimular o risco moral, mas deixar o sistema sem proteção também não é a
solução
Na história das finanças é comum a imagem de
investidores inconformados com os resultados da própria cupidez. Desde a
Tulipomania de 1634, passando pelas crises cada vez mais frequentes do século
XVIII (como a Bolha dos Mares do Sul, em 1720), e chegando aos desastres
financeiros do século XXI, o que mais impressiona o observador é a semelhança
entre episódios tão diferentes.
Primeiro é a fantasia do enriquecimento rápido, sem causa, milagroso, fruto de alguma esperteza inata ou habilidade singular; segundo, a formação de um consenso sobre o ineditismo das circunstâncias que parecem justificar a valorização rápida dos papéis (sempre há uma “nova economia”); terceiro, o envolvimento dos bancos na especulação, fornecendo crédito abundante para alimentar a euforia; quarto, o avanço do endividamento dos investidores, disfarçado pelos valores cada vez mais inflados da riqueza financeira ou imobiliária; quinto, a “correção de preços”, decepção e quebradeira.
A construção de pirâmides financeiras e de
esquemas Ponzi se assemelha às quedas de aviões. Não faltam os entendidos e
especialistas na busca da “caixa-preta”. Querem explicações e culpados. A busca
por regulação e fiscalização perfeitas é mais utópica do que a ilha de Thomas
More. São duas patologias inerentes ao comportamento humano: a ganância e o
sonho do dinheiro fácil, a tal alavancagem.
Nenhuma regulação, norma e instrução será
capaz de acabar com as fraudes, escândalos e esquemas Ponzi
Em bom português, ganhar dinheiro sem
esforço! No caso do Banco Master, nenhuma novidade, uso de triangulações,
vendendo carteira de crédito fictícia, abastecida pela massa de futuros novos
ricos adquirindo CDBs turbinados a 140% e 145% do CDI!
O debate especializado vive à busca de
culpados. Órgãos e instâncias normativas e de controle não faltam. O Conselho
Monetário Nacional, Banco Central do Brasil e Comissão de Valores Mobiliários,
nos brindam diariamente com resoluções, normas, portarias e instruções,
acreditam que esse arcabouço é capaz de coibir a ganância do ser humano e os
esquemas Ponzi. Não existe um sistema perfeito, mas pode ser mais eficiente. O
dinheiro só aceita e acata um mandamento: punição pecuniária no bolso.
Trata-se não só de reduzir a dispersão das
atribuições entre as agências encarregadas da supervisão e regulação, mas
também de ampliar o raio de atuação dos bancos centrais com o propósito de
“tomar em consideração os potenciais riscos e fragilidades sistêmicas”. Sigam o
dinheiro!
Nesse mundo binário, agora vem a crítica ao
Fundo Garantidor de Crédito (FGC) por estimular o risco moral. Os moral hazards
do Banco Master são protegidos pelo fundo; portanto, moralmente não correm
risco. Moral hazard estimula a tomada de risco, sabendo que alguém assumirá a
perda. Os especialistas alertam agora, que o problema é o FGC, precisa mudar.
Porém, essa visão binária, não enxerga que o sistema bancário funciona em vasos
comunicantes, irrigados pelo dinheiro. Deixar o sistema sem proteção é jogar
gasolina no fogo: risco sistêmico.
O noticiário sobre o Banco Master tem
frequentado com assiduidade os ambientes da mídia. As notícias veiculadas nos
meios de comunicação podem sugerir aos leitores e telespectadores que o refrão
“deixa quebrar” deve ser acolhido. A frase “deixa quebrar” pode conduzir a uma
grave deterioração do ambiente de confiança e pode ser interpretada de
diferentes maneiras, mas o efeito mais imediato e perigoso é a desestabilização
do sistema financeiro.
Sendo assim, seria conveniente resgatar o
conceito de risco sistêmico, fenômeno encontrado em todas as etapas de evolução
dos sistemas financeiros.
Risco sistêmico pode ser definido como a
possibilidade latente — desconhecida pelos participantes do mercado, ou contra
a qual eles não se protegeram — de que um evento possa ocorrer, movendo a
economia na direção de um equilíbrio socialmente ineficiente.
O risco sistêmico refere-se à possibilidade
de a falência de uma instituição financeira prejudicar gravemente, ou mesmo
causar a falência, de outras instituições. Se esse contágio se espalhar, poderá
afetar gravemente a economia como um todo.
Os bancos centrais — enquanto mediadores
entre o poder soberano do Estado e os riscos do sistema bancário privado —
procuram estabelecer, além de regras prudenciais e sanções, normas gerais de
acesso dos bancos à liquidez na moeda central. Ao mesmo tempo em que impõe
regras, sanções e condicionalidades, o Banco Central também funciona como um
redutor de riscos e de incerteza para os bancos privados, através dos
instrumentos usuais de abastecimento de liquidez. Nos momentos críticos, em que
pode estar comprometida a cadeia de pagamentos da economia, e, portanto, a
higidez do sistema bancário, ressalta o seu papel de “emprestador” de última
instância.
Deve-se ter claro o papel da autoridade
monetária em discernir a possibilidade de contágio e de risco sistêmico, seja
por fraude, insolvência ou falta de liquidez. A falsa dicotomia toma conta do
debate no caso Banco Master, cada queda de um avião tem causas diferentes, que
serão usadas pelos engenheiros projetistas para melhorar a segurança. Nenhuma
regulação, norma e instrução será capaz de acabar com fraudes, escândalos
financeiros e bancários e esquemas Ponzi. Novos Vorcaros, Madoffs apareceram.
Eliminar os sistemas de proteção tanto do investidor quanto da instituição
bancária não eliminou a ganância e o sonho de ganhar dinheiro fácil, pura
utopia.
Resta-nos uma certeza: outros Masters virão

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