Folha de S. Paulo
Desde metade de 2025, dólar, Bolsa e
condições financeiras em geral têm melhorado
Se continuar, alívio pode elevar perspectiva
de crescimento de 2026
Quando chove ouro, tudo fica dourado, mesmo
que seja aquela folhazinha fina que cobre móveis e bife de rico ainda
mais cafona. Donos do dinheiro grosso do mundo resolveram que vão investir um
tico menos nos ativos financeiros inflados dos Estados
Unidos, ações em particular. Um pingo desses trilhões é uma
inundação para mercados financeiros como o do Brasil.
Por ora tanto faz o "risco político" (resultado incerto da eleição brasileira) e, em parte, até o problema fiscal (embora o problema continue e vá continuar lá, na forma de juros reais altos a perder de vista). A continuar, a chuva de dinheiro deste verão pode alterar até a perspectiva de crescimento da economia neste ano.
De modo mais "pop", essa enchente
aparece no preço do dólar,
ora na casa de R$ 5,18 e no nível real mais baixo desde abril de 2024, e no Ibovespa
a 190 mil pontos. Indo um pouco além, se pode dizer que as condições
financeiras continuam a melhorar ou, pelo menos, despiorar. Um índice de
"condições financeiras" é uma espécie de resumo ou síntese de
indicadores, na maioria financeiros, que afetam decisões econômicas, além
daquele mais óbvio, como a taxa básica de juros (Selic).
A depender de quem faz a conta, um índice de
condições financeiras inclui taxas básicas de juros do mercado, taxa de câmbio,
juros no exterior, preços de commodities (como petróleo, comida e minérios),
mercado de capitais (como preços de ações) ou risco Brasil. Desde julho ou
agosto do ano passado, com tropeços, tem havido um alívio no índice de
condições financeiras no Brasil.
Pode vir mais, "tudo mais
constante", com o começo
do corte da Selic, em março, talvez de 0,5 ponto percentual, a
julgar pelas apostas financeiras (dinheiro posto em jogo acreditando nesse
corte de meio ponto).
O efeito dessa melhora na atividade é
defasado, como dizem os economistas, leva meses, um ano, por aí. Mas,
ressalte-se, a melhora não começou agora e pode continuar, dada as tendências
apontadas pela maioria daqueles que fazem chutes mais ou menos informados no
campo do cenário econômico. Sim, tudo pode virar do avesso em poucas semanas.
Um exemplo recente e desastroso foi o pânico financeiro de dezembro de 2024,
mistura de retirada de investidores por motivos externos (Donald Trump)
e pelo espanto com o pacote fiscal frustrante de fins de novembro.
Além desse relativo alívio financeiro, note-se que a
economia desacelerou de modo bem moderado, em particular no mundo do
emprego. O número de pessoas empregadas (em relação ao ano anterior) continuou
a crescer, assim como o salário real, na média (5% ao ano).
A isenção ou a redução da cobrança de imposto
de renda deve ter efeito no comércio, entre outras medidas fiscais que animam
aquelas classes mais propensas ao consumo (da média para baixo). O crédito
bancário não levou um tombo. A safra de
grãos será pelo menos tão grande quanto a de 2024/2025 —não vai
dar impulso para o PIB, mas no mínimo não vai atrapalhar. O saldo do comércio
exterior parece se recuperar.
Não vai cair
maná do céu, no mundo real, claro. Mas há perspectiva de
economia um tico mais aquecida (e, claro, estamos falando só de curto prazo).
Além do mais, aquecimento mais expressivo pode até dificultar o trabalho do BC.
No curtíssimo prazo, há perspectiva de um ano 10% mais animado. Se Trump não
criar caso, se não houver surpresa eleitoral maior por aqui.
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