Valor Econômico
Maior escândalo financeiro em ano de eleição
hiperpolarizada aumenta a indefinição mas é Mendonça quem mais surpreende
governo
A CPMI do INSS pautou e aprovou, no atropelo do regimento, a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República. A mesma comissão sequer pautou a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. Os dois controlam uma empresa sediada nas ilhas Virgens Britânicas, suspeita de lavagem de dinheiro.
Na véspera, durante a sessão da outra CPI, a
do Crime Organizado, no Senado, esta sob controle governista, a convocação de
Letícia foi, pelo menos, pautada. Como o senador que propôs sua convocação não
estava presente no momento em que foi requerida a defesa de seu requerimento, a
proposição foi derrotada por 7 votos a 3.
Esta CPI do Crime Organizado aprovou outras
três convocações referentes às fraudes nos benefícios dos aposentados. Já a do
INSS aprovou 11 requerimentos referentes ao banco Master que tem dominado os
trabalhos lá na CPI do Crime Organizado. Esta comissão convidou o atual
presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o ministro da Casa
Civil, Rui Costa, mas convocou o
anterior, Roberto Campos Neto,
e o ex-ministro da Economia Paulo Guedes,
tornando o comparecimento compulsório.
Essas comissões se confundem nos seus
propósitos e convocações, entre outras razões, porque este é um ano eleitoral e
o maior escândalo financeiro da história do país é alvo de um inquérito no
Supremo Tribunal Federal. Presidentes e relatores destas comissões, o
senador Carlos Viana (Podemos-MG)
e o deputado Alfredo
Gaspar (PL-AL), na CPMI do INSS, e o senador Fabiano Contarato (PT-ES)
e o senador Alessandro
Vieira (MDB-SE), na CPI do Crime Organizado, buscam a
recondução dos seus mandatos. A exceção é Gaspar, que sonha mais alto. Quer
derrubar seja o deputado Arthur
Lira (PP-AL), seja o senador Renan Calheiros (MDB-AL)
na disputa pelo Senado do seu Estado.
Todo ano de eleições gerais é a mesma coisa.
As CPIs, que já têm vocação para o palco na era das redes sociais, têm um
incentivo exponencial para o espetáculo em ano eleitoral. O ministro André Mendonça, que conduz
tanto o inquérito do INSS quanto o do Master, no Supremo Tribunal Federal,
baixou algumas das cortinas ao tornar facultativo o depoimento dos irmãos do
ministro Dias Toffoli na
CPI do Crime Organizado. Pautou-se na jurisprudência do Supremo. Por outro
lado, liberou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha, com uma
fundamentação desconhecida uma vez que a decisão está em segredo de justiça.
O governo, aparentemente, foi pego de
surpresa pela informação de que o sigilo
de seu filho já havia sido quebrado pela PF por autorização de Mendonça, em
janeiro passado. Ao assumir o inquérito do Master, o ministro disse que
proibiria o compartilhamento de informações para superiores hierárquicos, na
PF, da mesma forma que o fez no inquérito do INSS, do qual também é relator.
Com o diretor-geral da PF excluído do que se passa na investigação do Master,
não custará ao Palácio do Planalto ser também surpreendido pela condução do
inquérito. Se Mendonça não tem motivos para proteger Lula, Flavio Bolsonaro
tampouco pode ser considerado um nome de sua predileção. O senador trabalhou
contra sua indicação e aprovação para o Supremo, em 2021. É um jogo mais sutil
do que aquele que se passa no Congresso.
As CPIs estão incorporadas ao grande circo das operações anticorrupção que varrem o país há décadas. Noves fora a espetacularização, aproximam o cidadão comum de investigações que, no mais das vezes, correm em segredo de justiça ou cifradas no hermetismo da linguagem dos tribunais. O que há de se perguntar é se, na balança entre espetáculo e esclarecimento, seu funcionamento em anos eleitorais não pende excessivamente para a primeira bandeja, deixando o leitor mais distante das luzes e dos fatos.

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