O Estado de S. Paulo
Com decisão de lançar governadores ao Planalto, PSD sinaliza mudança arriscada de trajetória
Quando o Partido Social Democrático (PSD) foi
criado, em 2011, sua principal liderança, Gilberto Kassab, definiu-o de forma
negativa: “o PSD não será de direita, não será de esquerda nem de centro”. A
frase não era um truque retórico. Ela revelava uma estratégia clara: abdicar do
protagonismo presidencial para maximizar poder político no Legislativo e na
política subnacional.
Desde então, o PSD seguiu essa trajetória. Ao evitar amarras ideológicas e candidaturas presidenciais, o partido se consolidou como ator pivotal no Congresso, capaz de integrar coalizões de governos ideologicamente distintos. Foi assim que passou a ocupar espaços tanto no governo Lula, quanto no governo Tarcísio, em São Paulo.
A estratégia deu resultados expressivos. Em
menos de 15 anos, o PSD tornou-se a maior bancada no Senado, uma das quatro
maiores na Câmara, além de liderar o número de governos estaduais e
prefeituras. Trata-se de um desempenho raro para um partido.
Esse sucesso, contudo, parece ter gerado nova
ambição. Ao lançar simultaneamente as pré-candidaturas presidenciais de três
governadores – Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite – o PSD envia um
sinal inequívoco de que não se contenta mais em ser coadjuvante. Quer se tornar
protagonista.
A mudança de trajetória, porém, não é trivial nem isenta de riscos. Em sistemas presidencialistas multipartidários, as estratégias de protagonismo presidencial e de centralidade legislativa tendem a ser incompatíveis. Disputar a Presidência exige personalização, maior nitidez programática e a aceitação de um risco elevado de derrota.
Perder uma eleição presidencial não significa
apenas ficar fora do Executivo. Para partidos acostumados a atuar como pivôs
legislativos, a derrota pode gerar custos reputacionais relevantes,
dificultando o retorno imediato ao centro da coalizão.
Há ainda custos financeiros e organizacionais
significativos. Campanhas presidenciais consomem recursos que poderiam ser
direcionados às disputas legislativas e subnacionais – justamente onde o PSD
construiu sua força. Ao entrar no jogo majoritário, o partido arrisca um ganho
seguro por uma aposta de retorno incerto.
O movimento do PSD, portanto, vai além de ambição eleitoral. Representa uma inflexão estratégica relevante em um sistema que depende da existência de partidos capazes de ancorar o centro e viabilizar coalizões estáveis. Se o partido conseguirá sustentar essa transição – ou se pagará um preço elevado por abandonar o papel que melhor soube desempenhar – será uma das questões centrais do próximo ciclo eleitoral.

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