O Estado de S. Paulo
A candidatura de Flávio começa a avançar em setores refratários ao clã Bolsonaro
A fotografia do momento – do momento – sugere
que a eleição presidencial de 2026 repete a de 2022 com sinal trocado. Na reta
final naquela ocasião era pervasiva a atmosfera do “qualquer coisa menos a
continuação do que está aí”. A mesma atmosfera está se consolidando agora.
A fotografia do momento – do momento – sugere que os R$ 90 bilhões para gastar e até os programas sociais de cunho eleitoreiro não estão trazendo para Lula os resultados esperados. E o principal culpado disso é... ele mesmo. Tornou-se, numa apreciação subjetiva, um personagem enfadonho.
Não é fenômeno recente, mas se agrava por
conta da centralidade de segurança pública e corrupção na cabeça do público
eleitor. De novo, não importam os fatos (quanto de fato Lula e o PT estão
enrolados ou não em qual escândalo), mas, sim, a percepção deles. É difícil
alterar isso através de marketing político.
Do outro lado, essa mesma atmosfera do “vamos
tirar essa turma do poder” ajuda a entender como setores produtivos e agentes
econômicos passaram a entender a candidatura de Flávio Bolsonaro. E a
concomitante ausência, até aqui, de nomes competitivos no campo da
centro-direita para derrotar Flávio no primeiro turno e repetir a “fórmula
chilena” (a direita unida no segundo turno contra o candidato do governo).
Há um fenômeno irônico no campo direitista
quando se fala o nome Bolsonaro. Sua popularidade é incontestável em largas
faixas do eleitorado. Mas essa mesma aura dissipou-se há longo tempo nas elites
do agro, da indústria e até mesmo dos serviços, incluindo os setores de
mercados de capitais, que são os principais consumidores (e propagadores) do
noticiário político.
Nesses segmentos, em que tem pouco voto, mas
considerável influência, o clã Bolsonaro é visto como fiscalmente
irresponsável, imprevisível do ponto de vista institucional, sem rumo e
estratégia – heranças que se consolidaram a partir da segunda metade do governo
de Jair. E não se manifestam muitas vozes com pena dele, embora nesses mesmos
setores seja arraigado o descrédito frente ao STF.
O que acontece neste momento – neste momento
– é a quinta fase do luto, a da aceitação. No vocabulário da psicologia, é
quando a pessoa finalmente aceita a perda (no caso, Tarcísio não vem) e passa a
encarar o “ciclo natural” da política. Se não tem esse, vamos com quem e quais
suas chances reais?
Neste momento – neste momento – Flávio está
descendo pela garganta de vários setores nos quais a simples menção do nome
Bolsonaro vinha causando arrepios de insatisfação. É um processo ainda inicial,
mas ganhando tração. Chama-se, na gíria política, deglutir um batráquio. •

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