Folha de S. Paulo
Distanciamento de evangélicos tende a reduzir
influência do clã
Michelle ajuda a justificar Bolsonaro como
parte de um plano divino para o país
Uma mulher tomou para si o papel de denunciar
o nepotismo dentro do clã Bolsonaro. Depois de chamar Nikolas Ferreira —e
não Flávio—
de líder da direita, a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro declarou apoio à candidatura de Carol de Toni ao Senado, por Santa Catarina, contrariando
a indicação de Carlos Bolsonaro para a vaga.
Há muito em jogo para Michelle neste ano. A decisão de Tarcísio de Freitas de disputar o governo de São Paulo —e não a Presidência— a afetou diretamente. Ela era apontada como possível candidata a vice em uma chapa considerada mais competitiva do que a encabeçada por Flávio.
Diferentemente dos filhos de Jair
Bolsonaro, Michelle construiu um espaço próprio na direita
brasileira, porque dialoga com um segmento que o ex-presidente não alcança.
Reconhecida como crente legítima, ajudou a suavizar a imagem do marido junto
a mulheres
conservadoras.
Michelle impõe obstáculos à candidatura de
Flávio por diferentes razões. Como esposa, tem um acesso e uma influência sobre
o marido que os filhos não possuem. Além disso, em um campo marcadamente
masculino —formado por executivos, motoristas de aplicativo, empresários do
agronegócio, policiais e lutadores de MMA—, ataques a Michelle tendem a ser
lidos como agressões a uma mulher, produzindo ruído negativo adicional.
Em eventos públicos e encontros com
evangélicos, Michelle costuma ser comparada a Ester, figura do Velho Testamento: uma jovem judia que,
durante o exílio, se casa com um rei persa e arrisca a própria vida ao
denunciar um plano de extermínio contra seu povo.
Durante a campanha de 2022, ela mobilizou
essa simbologia ao afirmar a eleitoras evangélicas: "Não olhe para o meu
marido, olhe para mim,
que sou uma serva do Senhor".
Como pesquisador, observei mulheres
evangélicas que no passado votaram em Lula, Dilma e Marina passarem a ter, em
Michelle, uma referência de liderança feminina mais afinada com seus valores e
modo de vida. Ela aparece como alguém que, pela fé e pela coragem, defende seu
povo da perseguição e ajuda a justificar Bolsonaro como parte de um plano
divino para a nação.
Os filhos de Bolsonaro dispõem de quadros no
campo evangélico capazes de substituir, se necessário, o pastor Silas
Malafaia como intermediário junto a lideranças religiosas. Em
dezembro, Flávio buscou a bênção do pastor André Valadão, da Igreja da Lagoinha.
Terão mais dificuldade, porém, para fazer o mesmo em relação a Michelle.
Analistas políticos vêm apontando que, embora
ainda seja cedo, Flávio
Bolsonaro tende a ser o nome da direita a chegar ao segundo
turno e que, nesse cenário, o presidente Lula aparece como favorito à
reeleição.
Se Flávio continuar se distanciando de
evangélicos, sua candidatura se mostrará menos competitiva não apenas para
vencer a eleição como também para preservar a representatividade do
bolsonarismo nas disputas estaduais e no Congresso Nacional.

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