quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Está difícil de furar a frente ampla da cara-de-pau no caso Master. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Apesar do excesso de indícios e evidências, lideranças do Congresso querem abafar CPI

Política politiqueira e agora todos os Poderes aprimoram sistema de acordão, a velha pizza

Vaza sujeira de cada cano furado dessa rede de finança, empresa e política do caso Master. Puxa-se uma pena, vem não uma galinha, mas um avestruz enlameado. Quase diariamente. Quase semanalmente, há tentativa de abafar o caso.

As lideranças do Congresso começam o ano com a firme intenção de engavetar CPIs, com apoio discreto de partes de Supremo e governo. No caso da política politiqueira, os motivos óbvios são a pressão da bancada do Master e o temor de que apareça mais um contratado de Daniel Vorcaro entre governistas.

Além disso, há uma atitude de prudência geral, por assim dizer, de modo cínico. Isto é, tentativa de não fazer marola enquanto se negociam acertos no Congresso e as complicadas coalizões nacionais e regionais para a eleição. Estão indefinidas as candidaturas presidenciais; é incerto como muito partido vai lidar com elas. Vide o caso do PSD, que ameaça ter candidato e, ao mesmo tempo, sugere que vai liberar políticos estaduais para apoiar quem quiserem.

Um bloco regional incomodado com a CPI do Master pode criar caso com cabeças de partidos, do Congresso ou até do governo: enrolar alianças ou criar encrencas na tramitação de leis e votação de vetos. "Business as usual", com o complicador Master, mas não apenas. Há ainda pagamento de emendas, tentativa de barrar inquéritos de roubança de emendas ou algum risco na CPI do INSS (ainda tocada na base do acordão). A ideia geral, pois, é não complicar também os negócios eleitorais.

Mas as notícias de rolo grande são diárias, em todos os Poderes, em menor ou maior grau, e muito empresário mui amigo dos Poderes está inquieto. O que pode abalar o acordão preventivo das lideranças (mas não de metade dos parlamentares)?

Nesta terça, foi preso o ex-presidente do RioPrevidência, que investiu dinheiro da aposentadoria de servidores em empréstimos para o Master. Foi acusado de sumir com documentos e bens.

Também nesta terça soube-se que o BRB, sob "nova administração", contou à Polícia Federal e ao Banco Central que uma auditoria já achou indícios de rolo com o Master. O BC acha que é muito mais do que isso, que o Master vendeu mesmo terrenos na Lua para o BRB. Em suma, tentava-se desovar um banco quebrado no colo do banco estatal do Distrito Federal. Agora, o próprio BRB sugere que tal coisa aconteceu.

O Brasil do acordão político aprendeu a administrar CPIs de modo que não saia nada dos inquéritos, que papeis perigosos não vazem e que testemunhas inconvenientes e descontroladas não joguem denúncias no ventilador. O acordão foi aprimorado depois da dúzia de anos de escândalos que começaram com o mensalão (2005). Se sobra para todo mundo, da direita à esquerda, agora em qualquer Poder, é melhor pegar leve.

Em alguns momentos, quando há risco menor de destruição mútua assegurada, processos políticos vão adiante, sejam CPIs ou outros. Foi o caso do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, muito minoritários no ambiente de 2015-2018. Os vitoriosos, hegemônicos, trataram apenas de matar os feridos. Agora, pode sobrar para muita e variada gente, de novo.

Furar essa frente ampla da cara-de-pau é difícil, a não ser no caso de movimento espontâneo de rua ou de vazamento fatal e incontornável. Uma delação dos envolvidos principais vai demorar, se vier, até porque tem funcionado o esquema para diminuir riscos e penas para os principais envolvidos.

 

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