domingo, 8 de fevereiro de 2026

Há palestras e pale$tra$. Por Elio Gaspari

O Globo

Participação de ministros em enventos sem transparência em eventos é parte mais perceptível da crise no Supremo

Liderando a bancada do Supremo Tribunal Federal (STF) que se opõe à pactuação de um código de conduta pela Corte, o ministro Alexandre de Moraes argumentou que “como o magistrado só pode dar aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras.” Será?

Em julho de 2023, o ministro viu-se envolvido num lastimável episódio no aeroporto de Roma quando foi insultado por bolsonaristas. Na versão inicial, Moraes vinha de uma palestra na renomada Universidade de Siena. Instituição milenar, sua faculdade de Direito lustraria a biografia do magistrado, mas o repórter Eduardo Oinegue mostrou que a coisa não era bem assim.

O Fórum Internacional de Direito, patrono do evento, pertencia à empresa UniAlfa, controladora de uma faculdade de Direito de Goiânia, todas integrantes do Grupo José Alves, dono de um laboratório onde produzia a ivermectina, prima da cloroquina.

O fórum onde Moraes falou reuniu-se antes na cidade espanhola de Valladolid. Dos 31 conferencistas arrolados pelos eventos, 20 eram brasileiros e 11 pertenciam aos quadros da UniAlfa.

Quem demonizou o quê? Em 2024, um ministro do Supremo recebia R$ 44 mil mensais. Era um bom dinheiro, acompanhado de uma invejável infraestrutura. Aquele ano foi o do esplendor das farofas de magistrados. Entre junho de 2023 e maio de 2024, os juízes estiveram presentes em ao menos 22 agendas internacionais. Quase todas no circuito Elizabeth Arden (Paris, Londres, Nova York e Roma.)

Quem demonizou as palestras foram os magistrados metidos em farofas demoníacas. Registre-se que os juízes não têm o monopólio dessas farofas, nem a anomalia é brasileira. O genial juiz Antonin Scalia, da Corte Suprema dos Estados Unidos, morreu em 2016 durante uma farofa. Em 2024 o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair — farofeiro cosmopolita — participou de um evento em Londres. Pagou pela sua presença o falecido Banco Master.

É impossível criar-se uma métrica para o valor de palestras. Mesmo assim, para servidores ativos do Estado e até mesmo para jornalistas, é razoável acreditar que uma palestra vale, no máximo, a quarta parte dos vencimentos mensais do bem-aventurado. Afinal, ele cobrará a remuneração de uma semana por um ou dois dias de trabalho.

Pelo andar da carruagem, o código de conduta de Edson Fachin e Cármen Lúcia faz água. Quanto mais condutas condenáveis houver, maiores serão as dificuldades.

As palestras são a parte mais visível da erosão do Supremo, e não se consegue sequer que os magistrados informem quanto receberam ou de quem.

Se tão pouco é tão difícil, mexer com exuberantes parentelas seria tarefa de Hércules. Pode-se torcer pelo código, mas pode-se também acompanhar cada passo do seu funeral, ou da sua diluição.

Haddad na frigideira

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, corre o risco de ser frito numa frigideira especial, a do êxito. Tendo sido um ministro que passou limpo pelo cargo, querem empurrá-lo candidato numa eleição majoritária.

Disputou quatro eleições. Venceu a primeira como poste de Lula e levou a prefeitura de São Paulo. Perdeu a reeleição, foi para o sacrifício disputando a Presidência com Bolsonaro enquanto Lula estava na cadeia.

Disputou o governo de São Paulo contra o carioca Tarcísio de Freitas e foi batido.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e acredita em tudo o que o governo diz.

Lula contou que, a pedido do ex-ministro Guido Mantega, recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 deixando claro que qualquer solução para o Master deveria seguir os padrões técnicos do Banco Central.

Desse encontro participaram Lula, Mantega, Vorcaro e Gabriel Galípolo, então numa diretoria do Banco Central, mais outras duas testemunhas. Segundo o site Poder 360, Galípolo não contou esse encontro ao presidente do BC, Roberto Campos Neto.

A repórter Consuelo Dieguez revelou na revista Piauí que, em abril de 2025, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor de Crédito um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Banco Master. O FGC aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de R$ 11 bilhões, liberou R$ 5,7 bilhões.

Eremildo acredita em tudo isso, afinal, é um cretino.

Marco Buzzi está encrencado

O ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sempre foi mais conhecido por seu comportamento do que pela sua jurisprudência. Com a denúncia de que assediou a filha de um casal de hóspedes, de 18 anos, precisa de bons advogados.

Leitura útil

Antes de embarcar para Washington valeria a pena que Lula lesse as conversas de seus antecessores com os presidentes americanos.

São parecidas, com o brasileiro apresentando algum tipo de pleito.

O ponto fora da curva foi o encontro do general Emílio Médici com Richard Nixon. Medici só lhe fez uma insinuação, embutindo um pedido, a promoção a general do coronel Arthur Moura.

Descendente de açorianos, o coronel Moura falava um português impecável e transitava com rara facilidade, do porão ao Alto Comando.

Nixon atendeu o pedido, em termos claros: “Isto é uma ordem e não quero ouvir conversas de burocratas”.

Moura foi a general, e ficou no Brasil até 1975. Mais tarde, trabalhou na empreiteira Mendes Júnior.

Um diplomata que serviu a esse tempo na embaixada contou: “O verdadeiro orientador político da embaixada era o general Moura. Eu participei de reuniões que ele praticamente presidia”.

Moura era um protegido do general Vernon Walters, a quem conheceu como tenente. Em 1971, Walters foi o intérprete da conversa de Médici com Nixon e dias depois escreveu ao amigo:

“Arthur, a tua estrela está garantida”.

Pássaro no Post

Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o diário Washington Post, sua entrada no negócio foi saudada como uma redenção.

Bastaram três anos para que o encanto se quebrasse.

O jornal anunciou que demitirá um terço de seus funcionários. Sua redação, que tem cerca de 800 jornalistas, mandará embora 300.

O Post esteve nas mãos de um banqueiro, cujo genro era considerado um gênio, até que começou a ter um comportamento errático e meteu uma bala na cabeça.

O Post ficou para a herdeira Katharine Graham (1917-2001), uma simples viúva rica.

Foi com ela que o Post viveu seus dias de glória, com o escândalo do Watergate. Kay Graham foi tudo isso e também a mais requisitada figura da vida social no serpentário de Washington.

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