O Globo
Participação de ministros em enventos sem
transparência em eventos é parte mais perceptível da crise no Supremo
Liderando a bancada do Supremo Tribunal
Federal (STF) que se opõe à pactuação de um código de conduta pela Corte, o
ministro Alexandre de Moraes argumentou que “como o magistrado só pode dar
aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras.” Será?
Em julho de 2023, o ministro viu-se envolvido num lastimável episódio no aeroporto de Roma quando foi insultado por bolsonaristas. Na versão inicial, Moraes vinha de uma palestra na renomada Universidade de Siena. Instituição milenar, sua faculdade de Direito lustraria a biografia do magistrado, mas o repórter Eduardo Oinegue mostrou que a coisa não era bem assim.
O Fórum Internacional de Direito, patrono do
evento, pertencia à empresa UniAlfa, controladora de uma faculdade de Direito
de Goiânia, todas integrantes do Grupo José Alves, dono de um laboratório onde
produzia a ivermectina, prima da cloroquina.
O fórum onde Moraes falou reuniu-se antes na
cidade espanhola de Valladolid. Dos 31 conferencistas arrolados pelos eventos,
20 eram brasileiros e 11 pertenciam aos quadros da UniAlfa.
Quem demonizou o quê? Em 2024, um ministro do
Supremo recebia R$ 44 mil mensais. Era um bom dinheiro, acompanhado de uma
invejável infraestrutura. Aquele ano foi o do esplendor das farofas de
magistrados. Entre junho de 2023 e maio de 2024, os juízes estiveram presentes
em ao menos 22 agendas internacionais. Quase todas no circuito Elizabeth Arden
(Paris, Londres, Nova York e Roma.)
Quem demonizou as palestras foram os
magistrados metidos em farofas demoníacas. Registre-se que os juízes não têm o
monopólio dessas farofas, nem a anomalia é brasileira. O genial juiz Antonin
Scalia, da Corte Suprema dos Estados Unidos, morreu em 2016 durante uma farofa.
Em 2024 o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair — farofeiro cosmopolita —
participou de um evento em Londres. Pagou pela sua presença o falecido Banco
Master.
É impossível criar-se uma métrica para o
valor de palestras. Mesmo assim, para servidores ativos do Estado e até mesmo
para jornalistas, é razoável acreditar que uma palestra vale, no máximo, a
quarta parte dos vencimentos mensais do bem-aventurado. Afinal, ele cobrará a
remuneração de uma semana por um ou dois dias de trabalho.
Pelo andar da carruagem, o código de conduta
de Edson Fachin e Cármen Lúcia faz água. Quanto mais condutas condenáveis
houver, maiores serão as dificuldades.
As palestras são a parte mais visível da
erosão do Supremo, e não se consegue sequer que os magistrados informem quanto
receberam ou de quem.
Se tão pouco é tão difícil, mexer com
exuberantes parentelas seria tarefa de Hércules. Pode-se torcer pelo código,
mas pode-se também acompanhar cada passo do seu funeral, ou da sua diluição.
Haddad na frigideira
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, corre
o risco de ser frito numa frigideira especial, a do êxito. Tendo sido um
ministro que passou limpo pelo cargo, querem empurrá-lo candidato numa eleição
majoritária.
Disputou quatro eleições. Venceu a primeira
como poste de Lula e levou a prefeitura de São Paulo. Perdeu a reeleição, foi
para o sacrifício disputando a Presidência com Bolsonaro enquanto Lula estava
na cadeia.
Disputou o governo de São Paulo contra o
carioca Tarcísio de Freitas e foi batido.
Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e acredita em tudo o que
o governo diz.
Lula contou que, a pedido do ex-ministro
Guido Mantega, recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro em dezembro de 2024 deixando
claro que qualquer solução para o Master deveria seguir os padrões técnicos do
Banco Central.
Desse encontro participaram Lula, Mantega,
Vorcaro e Gabriel Galípolo, então numa diretoria do Banco Central, mais outras
duas testemunhas. Segundo o site Poder 360, Galípolo não contou esse encontro
ao presidente do BC, Roberto Campos Neto.
A repórter Consuelo Dieguez revelou na
revista Piauí que, em abril de 2025, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor
de Crédito um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Banco Master. O FGC
aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de R$ 11 bilhões, liberou
R$ 5,7 bilhões.
Eremildo acredita em tudo isso, afinal, é um
cretino.
Marco Buzzi está encrencado
O ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal
de Justiça (STJ), sempre foi mais conhecido por seu comportamento do que pela
sua jurisprudência. Com a denúncia de que assediou a filha de um casal de
hóspedes, de 18 anos, precisa de bons advogados.
Leitura útil
Antes de embarcar para Washington valeria a
pena que Lula lesse as conversas de seus antecessores com os presidentes
americanos.
São parecidas, com o brasileiro apresentando
algum tipo de pleito.
O ponto fora da curva foi o encontro do
general Emílio Médici com Richard Nixon. Medici só lhe fez uma insinuação,
embutindo um pedido, a promoção a general do coronel Arthur Moura.
Descendente de açorianos, o coronel Moura
falava um português impecável e transitava com rara facilidade, do porão ao
Alto Comando.
Nixon atendeu o pedido, em termos claros:
“Isto é uma ordem e não quero ouvir conversas de burocratas”.
Moura foi a general, e ficou no Brasil até
1975. Mais tarde, trabalhou na empreiteira Mendes Júnior.
Um diplomata que serviu a esse tempo na
embaixada contou: “O verdadeiro orientador político da embaixada era o general
Moura. Eu participei de reuniões que ele praticamente presidia”.
Moura era um protegido do general Vernon
Walters, a quem conheceu como tenente. Em 1971, Walters foi o intérprete da
conversa de Médici com Nixon e dias depois escreveu ao amigo:
“Arthur, a tua estrela está garantida”.
Pássaro no Post
Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o diário
Washington Post, sua entrada no negócio foi saudada como uma redenção.
Bastaram três anos para que o encanto se
quebrasse.
O jornal anunciou que demitirá um terço de
seus funcionários. Sua redação, que tem cerca de 800 jornalistas, mandará
embora 300.
O Post esteve nas mãos de um banqueiro, cujo
genro era considerado um gênio, até que começou a ter um comportamento errático
e meteu uma bala na cabeça.
O Post ficou para a herdeira Katharine Graham
(1917-2001), uma simples viúva rica.
Foi com ela que o Post viveu seus dias de glória, com o escândalo do Watergate. Kay Graham foi tudo isso e também a mais requisitada figura da vida social no serpentário de Washington.

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