segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Intolerância que não paga imposto, por Miguel de Almeida

O Globo

A renúncia fiscal dada às igrejas representa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e segurança

Virou o ano, e os velhos vícios brasileiros continuam em alta. Patrimonialismo, corrupção, imoralidade jurídica, penduricalhos a perder de vista — a lista é extensa. A maravilhosa novidade é que setores evangélicos agora criticam o uso de dinheiro público. O mote partiu do desfile hagiográfico da Acadêmicos de Niterói em torno da vida de Lula.

A hipocrisia é evidente: quem acusa é useiro de isenções fiscais — as igrejas recebem subsídios, não pagam qualquer imposto. Mais: pastores não pagam IR sobre seus vencimentos religiosos. Michelle Bolsonaro também reclamou e esqueceu que seu salário é pago pelo Partido Liberal com verbas públicas do fundo eleitoral. Ô vida fácil.

A renúncia fiscal dada às igrejas representa bilhões de reais que deixam de financiar saúde, educação e segurança pública. Ou mesmo políticas sociais. É um dinheiro que, se aplicado, teria resultado social e estaria em regime transparente. Ao contrário do uso do dinheiro que irriga templos e pastores, uma caixa-preta.

Nada disso alivia a obviedade da campanha antecipada de Lula da Silva. Só não concorda quem é partidário. No ano em que tentará a reeleição, o presidente torna-se tema de samba-enredo. Os demais candidatos não terão a mesma exposição. Tema para reflexão: é possível que o rebaixamento da escola seja algum sinal divino?

A vigilância sobre o carnaval intensificou-se com a polêmica escatológica perpetrada por Bolsonaro no carnaval de 2019. As objeções que partem de censura baseada em princípios religiosos sobre parcela da população que nada noutra margem — é como se os puritanos do passado pousassem na Sapucaí. E não de brasileiros nascidos sob o samba, o suor e as fantasias.

Vai longe o tempo em que a religião vivia enfronhada no Estado brasileiro. Apesar de a Constituição falar em Deus, o Brasil é legalmente laico. Significa que existe reconhecimento e respeito à convivência com diferentes deuses, credos e inclusive ateus ou agnósticos. O projeto de poder de algumas denominações evangélicas não parece tolerar a diversidade, a crença (ou descrença) alheia e o princípio da individualidade.

Com uso do dinheiro público (isentos de impostos na pessoa física e na jurídica), de seus púlpitos alguns pastores tratam de reprisar seus preconceitos. Mandam aos infernos os gays, mesmo sabendo da alta taxa de homicídio por homofobia. Pessoas LGBT são mortas por ódio, intolerância e incompreensão. Parte dela nascida em setores organizados que, com suas maldições, terminam por legitimar a violência.

Daí que parte dos evangélicos não gostou de ser satirizada no desfile da Acadêmicos de Niterói — cidade, aliás, vítima de ironias, todos sabem. Pois o carnaval é uma festa pagã em que qualquer crítica é permitida, mesmo as mais grosseiras e menos engraçadas. É tradição a sátira sobre gays, gordinhos, feios, papa-hóstias e pudicos em geral. Nas marchas e nos sambas, convivem o duplo sentido, a maledicência e a poesia das ruas. Deve-se lembrar que isso se chama cultura popular. Nascida na periferia, nos morros, nos cafundós do país, foi erigida por brasileiros. O que nasceu nas universidades são o cancelamento e a patrulha a esse cotidiano de ironias.

O desfile da Acadêmicos provocou a fúria dos conservadores. Mas a indignação mascara uma realidade incômoda para eles: parte significativa da sociedade apoia, celebra e se identifica com os temas que eles buscam censurar.

Na França, outro país laico, os imigrantes muçulmanos reclamam (até em atentados) das piadas dos franceses sobre Maomé. Seria um choque de civilizações se pensássemos que todos deviam se tornar crentes. É apenas intolerância. O modelo de família não é apenas a “família em conserva”.

Alas evangélicas foram confrontadas em samba e rima com parte da cultura popular que não reza por seus princípios. Isso é pecado? Já há algum tempo vários perseguem — até em atentados — as religiões de matriz africana. Diria-se que praticam demonização — literalmente — contra o candomblé e a umbanda — semelhante ao que os católicos faziam nas décadas iniciais do século passado ao proibir os terreiros.

Numa pitada histórica, lembro que o samba carioca prosperou e criou raízes escondendo-se nas saias das mães de santo, como Tia Ciata. Os católicos da época proibiam os cultos e as rodas de samba. Quem não tolera ser satirizado deveria refletir sobre por que exige dos outros a tolerância que não pratica. E, principalmente, deveria pagar seus impostos antes de reclamar do uso de dinheiro público.

 

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