O Globo
Presidente enfrenta desgastes, e sua gestão
se tornou vidraça entre os eleitores independentes
A pesquisa Quaest divulgada ontem traz uma notícia preocupante para a campanha à reeleição de Lula: a perda de votos entre eleitores independentes, que representam quase um terço do eleitorado. No segundo turno com Flávio Bolsonaro (PL), a vantagem de Lula nesse grupo era de 22 pontos, em agosto de 2025. Despencou, agora, para cinco pontos. Quando o adversário é Ratinho Junior (PSD), governador do Paraná, Lula, que vencia por quatro pontos em outubro, agora perde por sete.
O eleitor independente, ou eleitor-pêndulo
(32% da amostra), costuma definir a eleição em cenários polarizados. Lula já
tem a maioria disparada de lulistas e da esquerda não lulista, parte expressiva
do eleitorado (34%). Mas precisa avançar entre os independentes para vencer. Em
2002, ganhou com apoio do centro depois da edição da Carta ao Povo Brasileiro.
Também repetiu o aceno em 2022, na frente ampla em defesa da democracia.
Agora a dificuldade é maior porque Lula está
no governo, enfrenta desgastes, e sua gestão se tornou vidraça entre os
independentes: 67% dizem que ele não deve continuar mais quatro anos como
presidente. A aprovação do governo no grupo sofreu queda: de 46%, em outubro,
para 37% — a margem de erro entre os independentes é de 3%, pouco maior que os
2% da amostra geral. Os que avaliam o governo como positivo também recuaram de
26% para 19%, enquanto os que o avaliam como negativo saltaram de 30% para 36%.
Outras hipóteses para o desgaste entre esses eleitores são as polêmicas
envolvendo o STF e o Banco Master, casos que parte do eleitorado associa ao
governo.
A corrida pelo eleitor independente ficou,
portanto, mais complexa. No primeiro turno, a depender do cenário, Lula teria
de 21% a 26% das intenções de voto desse eleitor. Flávio, de 17% a 20%. No
segundo turno, o presidente teria 31% das intenções ante 26% de Flávio. Em
agosto, essa diferença era muito mais folgada: 41% a 19% de Flávio. Não que a
situação seja fácil para o senador. Ele avançou entre os bolsonaristas e na
direita não bolsonarista, mas ainda encontra 64% de rejeição entre os
independentes, assim como Lula. Mais da metade desse eleitorado (52%) diz que
não votaria num candidato apontado por Bolsonaro (o percentual de eleitores que
consideram um erro Jair ter indicado o filho, no entanto, caiu de 56%, em
dezembro, para 44%).
Dados complementares da Quaest trazem outro
alerta para a campanha de Lula: ele perdeu fôlego também entre os que ganham
até dois salários mínimos, embora ainda vença nesse segmento, o maior do país.
Passou de 58%, em agosto, para 51%. Flávio melhorou entre os mais pobres: foi
de 23% para 29%. O governo, com a caneta na mão, tem possibilidade de estancar
a sangria, e o efeito de políticas como Gás do Povo e isenção do IR deverá
ajudar. A máquina da campanha também não começou a explorar a rejeição dos
Bolsonaros, e o discurso de defesa da democracia, que tocou o centro em 2022,
será resgatado.
De qualquer maneira, a Quaest mostra que Lula
não está em condições de bobear com o centro. Daí a insistência nas
candidaturas de Haddad, Simone Tebet e Geraldo Alckmin em São Paulo, que
tradicionalmente dialogaram com esse eleitor-pêndulo.

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