Valor Econômico
Uma ala do governo intensifica as
recomendações para que o presidente tenha cautela na abordagem do caso Master
Enquanto aguarda as primeiras pesquisas de
opinião do ano com a expectativa de que os efeitos das mudanças no Imposto de
Renda (IR) elevem a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma
ala do governo intensifica as recomendações para que ele tenha cautela na
abordagem do caso Master. “A Lava-Jato começou assim”, alerta um aliado
próximo, “e a postura dele está muito parecida com a de Dilma”.
O cálculo é simples. Há poucos dias, pela primeira vez milhões de trabalhadores receberam seus contracheques de janeiro sem deduções do Imposto de Renda. Um aliado de Lula lista: também serão beneficiados funcionários públicos de todo o país, professores e aposentados.
Como se sabe, a proposta sancionada no ano
passado prevê a isenção do Imposto de Renda Pessoa Física para quem ganha até
R$ 5 mil por mês e estabelece descontos para rendas de até R$ 7.350 mensais.
Autoridades podem tentar envelopar esses dados com um discurso antissistema e,
também, com a bandeira da justiça tributária. Mas o fato é que, do ponto de
vista eleitoral, há a perspectiva de aumento do consumo de milhões de famílias
de todas as regiões. Segundo dados do governo, cerca de 15 milhões de
brasileiros deixarão de pagar Imposto de Renda com a nova lei, sendo 10 milhões
que passarão a ser isentos e outros 5 milhões que contarão com redução no
imposto. “O coração das pessoas tem um bolso”, comenta essa fonte.
Ainda assim, é verdade, os estrategistas do
governo veem a necessidade de amplificar o alcance da notícia, que ainda não é
de pleno conhecimento da sociedade. De acordo com a pesquisa Genial/Quaest
divulgada em dezembro, por exemplo, 69% dos entrevistados aprovavam a nova lei
e 12% desaprovavam. Porém, 19% das pessoas ouvidas ainda não conheciam a
medida. Em setembro, 30% das pessoas não sabiam da isenção do IR, contra 60%
que aprovavam e 10% que não apoiavam a iniciativa.
Não é sem razão, portanto, que Lula tenha
voltado a tratar do tema nas redes sociais recentemente. O mesmo tende a ser
feito em viva voz, por exemplo, durante discurso no encontro de aniversário de
46 anos do Partido dos Trabalhadores a ser realizado em Salvador nos próximos
dias - oportunidade, aliás, que ironicamente o caso Master pode gerar
constrangimentos para o PT da Bahia.
De qualquer forma, e para alerta de
integrantes do governo, Lula tem partido para cima. No fim de janeiro, foi
contundente durante evento em Maceió. Sem citar Daniel Vorcaro, afirmou,
citando o impacto do suposto esquema no Fundo Garantidor de Crédito (FGC): “Não
é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um
cidadão, do Banco Master, que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões, mais de R$
40 bilhões. E quem vai pagar é os bancos, é o Banco do Brasil, é a Caixa
Econômica que vai pagar, é o Itaú”. Acrescentou que falta vergonha na cara a
quem defende o dono do Master.
Na posse do novo Ministro da Justiça e
Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, foi mais ameno e destacou que
seu governo estava comprometido com o combate ao crime organizado. E mais
recentemente, na abertura do ano do Judiciário, enfatizou em sua fala que ações
coordenadas estão atingindo os “magnatas do crime”.
Internamente, o tema está em pauta com mais
frequência. O presidente tem tratado muito com auxiliares sobre o caso e, de
acordo com relatos, tem demonstrado indignação: nessas conversas, não há quem
discorde da gravidade do caso, que expõe o setor bancário do país, o mercado
financeiro, governos estaduais, integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e
tende, também, a envolver lideranças políticas de diversos partidos. Nomes
ligados ao governo também estão citados, reconhece-se, mas, diferentemente do
que ocorreu em um passado não tão longínquo, o Master não possui contratos
diretos com estatais nem executa obras federais. Ainda assim, muitos
integrantes do governo têm alertado o presidente que a Lava-Jato começou assim.
Está fresca na memória a Lava-Jato e como a
ex-presidente Dilma Rousseff tratou do escândalo ao longo do tempo.
Em um primeiro momento, Dilma deu apoio
irrestrito às investigações. Disse, por exemplo, que o PT não estava acima de
qualquer suspeita, que a legenda precisava apurar o ocorrido e não poderia
compactuar com qualquer desvio. Naquela época, as investigações eram
incipientes, restritas à Petrobras e não havia indícios públicos de
envolvimento de integrantes do governo no esquema.
O mesmo tom foi adotado durante a disputa de
2014. Em campanha à reeleição, a então presidente prometeu se empenhar pelas
investigações independentemente de quem pudesse ser alcançado. “Não vai ficar
pedra sobre pedra”, assegurou em uma entrevista.
Reeleita, Dilma teve que calibrar o discurso
à medida que a operação avançava. Manteve o apoio, mas passou a argumentar que
as apurações eram frutos de melhorias institucionais das administrações
petistas. Quando as manifestações nas ruas pedindo seu afastamento aumentaram,
reclamou do que considerava ser o uso político dos inquéritos. Passou, então, a
criticar com mais veemência, até compará-la a um golpe.
Integrantes do governo ponderam que Lula tem
tudo para se reeleger em outubro e alertam que uma “bagunça” não interessa a
quem está nesta condição. Até mesmo por isso acompanham as movimentações da
Procuradoria-Geral da República (PGR). Em outros tempos, delações premiadas já
estariam em negociações avançadas.

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