O Globo
Para driblar corporativismo da Justiça
Militar, procurador afirma que capitão traiu "prática da camaradagem"
na caserna
Depois de perder o poder e a liberdade, Jair
Bolsonaro pode perder também a patente de capitão. O Superior Tribunal Militar
(STM) abriu processo para apurar se o ex-presidente violou as leis castrenses.
Se condenado, ele será declarado indigno para o oficialato e expulso das Forças
Armadas.
Para o procurador Clauro Roberto de Bortolli,
Bolsonaro mostrou descaso pelos “preceitos éticos mais básicos” da vida
militar. Ele afirmou que o capitão atentou contra a probidade, a lealdade e a
disciplina ao liderar uma tentativa de golpe após a derrota nas urnas.
A acusação sustenta que a gravidade dos atos do ex-presidente é “incontroversa” e ficou comprovada no processo criminal que o levou para a cadeia. É tudo verdade, mas a Justiça Militar está 38 anos atrasada.
Em junho de 1988, o mesmo STM julgou
Bolsonaro por tramar atentados em quartéis. Além de atacar o comando do
Exército, o capitão havia elaborado um plano para explodir bombas em
instalações militares como protesto pelo aumento de salários.
Em janeiro daquele ano, um conselho de
justificação o considerou culpado por ter praticado atos contra “a honra
pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”. Cinco meses depois, o STM
ignorou as provas e absolveu o aspirante a terrorista por 9 votos a 4.
Inocentado, Bolsonaro ficou livre para se
lançar na política. Candidatou-se a vereador e iniciou a escalada que o levaria
ao Planalto. O general Ernesto Geisel se referiu ao caso das bombas ao
descrever o capitão como um “mau militar”, em depoimento ao CPDOC da Fundação
Getulio Vargas.
O ex-presidente não foi o único beneficiado
pelo corporativismo do STM. Num país com longo histórico de quarteladas, o
tribunal nunca puniu oficiais golpistas. Agora terá que julgar cinco. Além de
Bolsonaro, serão processados três generais e um almirante que tramaram contra a
democracia.
Numa tentativa de sensibilizar os ministros,
o procurador Bortolli não se limitou a enumerar os crimes cometidos pela
quadrilha. Também acusou Bolsonaro e seus comparsas de traírem a “prática da
camaradagem”. Apesar de se dizerem patriotas, eles ordenaram ataques aos
colegas de farda que se recusaram a embarcar no golpe.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.