O Povo (CE)
Toda violência tem um significado, manifesta
um discurso implícito. No caso da violência de gênero, a agressão expressa a
negação de que a mulher é um ser autônomo, com vida e dignidade próprias
O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio foi lançado na
última quarta-feira em Brasília. Ele é fruto da articulação dos Poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário no esforço de reduzir os índices de
violência contra a mulher no país. “O Estado precisa chegar antes”, foi o que
declarou a Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, enfatizando a importância de
boas políticas públicas para a mudança de uma cultura.
A iniciativa insere o tema do feminicídio e da violência de gênero na agenda pública não só de governo, mas dos outros poderes. Quando o Presidente da República, parlamentares e juízes anunciam uma meta comum, temos a evidência de um consenso interinstitucional sobre o cenário de risco, banalização do ódio e dificuldade de respostas eficientes para a proteção das mulheres em situação de violência no Brasil.
Só entendemos com clareza a epidemia de violência
quando analisamos a agressão em seu sentido simbólico. Toda violência tem
um significado, manifesta um discurso implícito. No caso da violência de
gênero, a agressão expressa a negação de que a mulher é um ser autônomo, com
vida e dignidade próprias.
A ideia de que a mulher paga com a vida pela
desobediência está presente sempre que um homem mata ou tenta matar uma
mulher por ciúme, pela não aceitação do fim de um relacionamento, por
não concordar com seu comportamento. “Se ela não é minha, não será de ninguém”
é um pensamento comum no imaginário de homens agressores, que manifestam na
materialidade da violência o seu desejo de dominação.
Alguns conservadores mal intencionados
costumam atribuir a violência masculina à emancipação das mulheres,
ao esforço de décadas de trabalho do movimento feminista. Hoje, pelo menos
perante o Direito, podemos dizer que somos sujeitos, que há um estatuto
normativo que assegura nossa liberdade e nossa proteção.
O direito ao divórcio, os direitos políticos,
os direitos reprodutivos, o direito ao trabalho, o direito à educação são
apenas alguns exemplos do que podemos pretender e exigir do mundo. Um espaço de
autonomia e autorrealização independente da permissão de qualquer outro
indivíduo. É extremamente desonesto atribuir às mulheres culpa por
vivenciarem sua liberdade.
Na semana em que o Brasil assina esse pacto,
recebemos a notícia de que, no Afeganistão, o regime no poder
reconhece que as esposas pertencem ao marido e que as mulheres estão banidas do
sistema educacional do país. Ao contrário do que muitos pensam, é bastante
frágil o espaço que conquistamos. É preciso vigilância coletiva, esforço
político da sociedade civil e disposição do Estado para que nossa liberdade
seja possível. A disposição de nos tornar uma pauta prioritária é louvável,
necessária e urgente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.