Ministros devem apoiar Fachin em código de ética
Por O Globo
Relatoria da ministra Cármen Lúcia tem tudo
para superar impasses e alcançar os objetivos
Ao discursar na abertura do ano judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, defendeu a adoção de um código de ética pela Corte. É uma discussão que já se anunciava e se tornou incontornável. Diante dos líderes dos dois outros Poderes, Fachin anunciou a escolha da ministra Cármen Lúcia como relatora do código. Não se discute a competência de todos os ministros, mas o espírito conciliador de Cármen faz dela uma escolha adequada, capaz de aparar as arestas que eventualmente se apresentem, dada a controvérsia despertada pela iniciativa dentro do próprio tribunal.
Fachin também fez bem em dissipar, no
discurso, as dúvidas despertadas pela nota que emitiu há duas semanas a
propósito das críticas à condução do caso do Banco Master no Supremo. Na nota,
críticas foram tratadas como um desafio institucional ao STF. No discurso, em
contraste, ele foi enfático na defesa da liberdade de expressão e de imprensa,
que, afirmou, “não são concessões, uma vez que estruturam o debate público e
oxigenam a democracia”. “A crítica republicana não é mesmo ameaça à
democracia”, disse.
Em seu pronunciamento, Fachin foi
especialmente feliz ao constatar que “os ministros respondem pelas escolhas que
fazem”. “As decisões que nós todos tomamos, os casos que priorizamos, a forma
como nos comunicamos, tudo isso importa”, disse. Foi uma declaração de escopo
amplo. Vale tanto para as escolhas judiciais quanto para aquelas do campo
individual, atinentes a um código de ética. Ele criticou juízes que se
consideram “criaturas sobre-humanas” acima de críticas e suspeitas.
Por fim, ao refletir sobre o “momento
histórico”, Fachin deu sua declaração de maior relevância. Afirmou ter chegado
a hora de “ponderações e autocorreções”. Não se trata apenas de temperança,
comedimento ou autocontenção. Autocorreção pressupõe a existência de erros,
incluindo alguns em casos recentes apontados pela imprensa — e é vital para o
futuro da democracia brasileira que o Supremo esteja disposto a, ele mesmo,
corrigi-los. Por isso são oportunos a discussão, a publicação e o respeito a um
código de ética.
A entrega da principal promessa de Fachin
dependerá de como o próprio tribunal reagir internamente à ideia. Não faria
sentido adiar a discussão sobre o código para depois das eleições. A Corte tem
plenas condições de debatê-lo neste ano. Um risco é adotar um texto vago, sem
poder de coerção. Será fundamental esclarecer quem terá a responsabilidade de
zelar pelo cumprimento e dirimir as eventuais controvérsias que surjam na
aplicação. Há vários temas sensíveis, como a atuação nas Cortes superiores dos
escritórios de advocacia de parentes de ministros. Certamente, a relatora
haverá de encontrar uma solução que satisfaça à necessidade de evitar conflitos
de interesse e de reforçar a percepção de isenção do tribunal.
A confiança dos cidadãos na imparcialidade do
Supremo depende da capacidade de reação que Fachin demonstrou em seu discurso.
“Seguirei buscando dar à sociedade brasileira segurança jurídica com
legitimidade”, declarou ao fim. “Reafirmo o compromisso com a adoção de um
código de ética para o tribunal.” Todos os demais ministros do STF têm o dever
de ajudá-lo a cumprir essa promessa.
Em vez de blindar emendas, Congresso deveria
se esforçar por reduzi-las
Por O Globo
PF continua a desbaratar esquemas de desvios
Brasil afora, mas Motta quer preservação do mecanismo
Em seu discurso de abertura do ano
legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB),
não poderia ter sido mais explícito na defesa do mecanismo das emendas
parlamentares. “Cabe a este plenário, soberano e independente, (…) fazer valer
a prerrogativa constitucional de destinar as emendas parlamentares aos rincões
Brasil afora que, na maioria das vezes, não estão aos olhos do Poder Público”,
afirmou. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), secundou-o ao
proclamar uma luta “pelas prerrogativas parlamentares e pela autoridade deste
Congresso Nacional”.
No Brasil, como em qualquer democracia, é
prerrogativa do Parlamento legislar sobre o Orçamento. Mas a execução dos
gastos deve caber primordialmente ao Executivo, de acordo com políticas
públicas estabelecidas no programa de governo que recebe o voto popular. A
explosão recente das emendas parlamentares — destinadas sem exigências
satisfatórias de transparência e eficácia — não encontra paralelo no mundo. De
2014 a 2026, seu valor mais que triplicou (em valores atualizados). Foi só
graças a um veto oportuno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que deverá
ficar neste ano ao redor de R$ 50 bilhões. Mesmo assim, é perto de um quarto
dos gastos livres da União, num Orçamento engessado, com 95% de despesas
obrigatórias.
Ao contrário do que sugere Motta, boa parte
dos recursos é alocada aos “rincões” mais bem relacionados em Brasília, e não
aos esquecidos ou aos que mais precisam. Além disso, as emendas abrem a porta a
toda sorte de desvio e corrupção. Basta lembrar que, dias antes dos discursos
de Motta e Alcolumbre, a Polícia Federal (PF) deflagrou mais uma operação para
apurar suspeitas de desvios nas emendas. O alvo, desta vez, foi o deputado
Eduardo Velloso (União-AC). A PF investiga R$ 912 mil remetidos por ele ao
pequeno município acreano de Sena Madureira, para contratar uma empresa
produtora de shows musicais em setembro de 2024. Velloso já foi citado em
reportagens do GLOBO que revelaram o destino de emendas anteriores. O dinheiro
chegou ao município e foi repassado a uma ONG que, por sua vez, o transferiu à
clínica privada do pai dele.
Devido à total falta de controle sobre os recursos, diversas ações chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Desde 2024, estão sob a relatoria do ministro Flávio Dino, que tem tentado disciplinar as emendas por meio de várias liminares. Ainda neste primeiro semestre, ele começará a remeter casos ao julgamento do plenário da Corte. Na agenda de março já estão previstos processos que tratam de emendas da bancada de deputados da Paraíba, estado de Motta, e de repasses ao Mato Grosso. Os julgamentos desses processos deveriam levar o Congresso a promover uma reflexão profunda sobre os abusos contumazes com as emendas. Em vez de apoiar a alocação de valores tão exorbitantes em emendas, Motta e Alcolumbre deveriam criar mecanismos para contê-las e discipliná-las. A distorção já foi longe demais.
Desta vez, Fachin terá a opinião pública a
seu lado
Por Folha de S. Paulo
Presidente do STF reconhece momento adverso e
dá passo inicial para o imperativo código de conduta
A própria corte derrubou uma norma que impedia magistrados de julgarem casos com partes que fossem clientes de escritórios de seus parentes
Na abertura do ano judiciário, o presidente
do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin,
fez um discurso à altura da crise de credibilidade vivida pela instituição.
Fachin deixou de lado o surrado
recurso corporativista de atribuir qualquer questionamento ao
Supremo a tentativas de sabotar a ordem democrática. "A crítica
republicana não é mesmo ameaça à democracia", disse.
Mais que isso, reconheceu que a corte deve
respostas e atitudes. "A questão é a de saber se já chegou a hora de o
Tribunal sinalizar, por seus próprios atos, que o momento é outro. Minha
convicção é que esse momento chegou."
Era desnecessário mencionar as relações
vexatórias de Dias Toffoli e Alexandre de
Moraes com o escândalo do Master, que puseram o tribunal em
xeque. Bastou dizer que "os ministros respondem pelas escolhas que
fazem".
De mais prático, Fachin anunciou ter
encarregado a colega Carmén Lúcia de relatar um código de conduta para a corte
—objeto de resistências anônimas, mas poderosas, entre os togados.
Não será simples a missão de impor limites a
práticas viciosas com as quais boa parte dos ministros tem se refestelado. Elas
incluem de manifestações públicas fora dos autos a participações em eventos
luxuosos bancados por potenciais litigantes, do recebimento de favores à
contratação a peso de ouro de escritórios de advocacia de familiares.
Neste último caso, recorde-se que o
próprio STF derrubou,
há pouco mais de dois anos, uma norma
moralizadora do Código de Processo Civil. Por 7 votos a 4, julgou-se
inconstitucional texto que vedava a um magistrado participar de processo em que
uma das partes fosse cliente de escritório de advocacia de seu cônjuge ou de
parente até terceiro grau, mesmo que representada por profissional de outra
sociedade.
Apoiaram a derrubada do dispositivo
moralizador Toffoli, Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Luiz Fux, Kassio
Nunes Marques e André Mendonça. A favor do código de conduta, votaram Fachin,
Cármen, Rosa Weber e Luís Roberto Barroso.
Relator do processo na época, Fachin e outros
seis ministros têm hoje parentes na advocacia que podem se beneficiar dessa
condição —e o caso mais notório a esta altura envolve Moraes, cuja esposa
firmou contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master.
À diferença de 2023, quando passou quase
despercebida a decisão corporativa da corte, que se mostraria um divisor de
águas do desmando que se seguiu, hoje esse é um dos temas que mais mobilizam a
opinião pública brasileira.
Apontado o caminho reformista, resta
percorrê-lo. Atenção a limites e às prerrogativas de cada Poder, transparência
e colegialidade são diretrizes que não precisam esperar um código de ética, que
por sua vez não precisa esperar o desfecho das eleições ou outro marco temporal
ou político. Como também afirmou Fachin, "momentos de adversidade exigem
mais do que discursos".
Não saber matemática atrasa o Brasil
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa mostra que 8 em cada 10 alunos
formados no ensino médio não têm conhecimento básico da disciplina
A taxa de alunos capacitados para lidar com
situações numéricas do cotidiano foi de 21,4% em 2023; nenhum estado conseguiu
chegar a 30%
Dentre os fatores que explicam as últimas
décadas de crescimento econômico baixo e irregular do Brasil, estão o nível
precário de aprendizagem de seus alunos, principalmente em matemática.
Pesquisa da Fundação Itaú de 2024 mostrou que
trabalhadores em ocupações que fazem uso intensivo da disciplina tinham
rendimento médio que chegava ao dobro da média nacional.
Ainda segundo o estudo, em 2022, essas
profissões geraram 4,6% do Produto Interno Bruto brasileiro —cerca de R$ 450
bilhões. Em países como Reino Unido e França,
o percentual vai a 18% e tende a subir, num mundo movido a inovação
tecnológica.
Os números mostram por que o Brasil está
atrás nessa corrida.
A taxa nacional dos alunos que concluíram o
ensino médio até os 18 anos com aprendizado considerado básico em
matemática foi de apenas
21,4% em 2023, ante 25,5% em 2019 —a pandemia só piorou o que
já estava ruim.
O cálculo é do Índice de Inclusão Educacional,
desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, que
articula dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica
(Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad) Contínua.
Isso quer dizer que 8 em cada 10 estudantes
não sabem resolver problemas com porcentagens ou lidar com situações numéricas
do cotidiano. Nenhum estado consegui chegar a 30%, e as discrepâncias regionais
são grandes. Enquanto o Paraná, primeiro colocado, obteve 28,1%, Amapá, na
última posição, marcou 8,2%.
Na mais recente edição do Pisa (2022), que
avaliou jovens de 15 anos de idade de 81 países, o Brasil
ficou no 65º lugar com a nota 379, ante 472 da média da OCDE; mesmo
vizinhos como Peru, Colômbia e Chile nos superaram.
Já passa da hora de o país melhorar a gestão
dos expressivos recursos destinados à educação para focar na aprendizagem.
Seguindo o exemplo de nações que apresentam
bons resultados no setor, é preciso investir na formação e na capacitação
contínua dos professores e na educação desde a primeira infância.
Políticas de progressão continuada (passar de
ano sem obter aprovação) que não dão a devida atenção aos alunos em defasagem
podem criar distorções; o mesmo cuidado é necessário com aqueles que ainda
sofrem os efeitos da pandemia.
Ademais, avaliações de desempenho não são meros diagnósticos. Devem ser usadas para corrigir falhas, recompensar bons desempenhos dos docentes e diminuir desigualdades regionais.
O Supremo como deveria ser
Por O Estado de S. Paulo
Na abertura do ano judiciário, Fachin
desenhou o STF ideal. Agora, resta ver se seus colegas assumirão a
responsabilidade que lhes cabe pela mais grave crise reputacional da história
da Corte
O presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Edson Fachin, proferiu um discurso irretocável na abertura do
ano judiciário. O texto merece ser lido e relido, principalmente por seus
pares, como um raro momento de lucidez em uma Corte desgastada como nunca em
seus quase 135 anos de história republicana – e graças, em grande medida, a
falhas internas.
Na tarde de anteontem, Fachin desenhou o STF
ideal. Um tribunal cioso de seus limites (“é hora de um reencontro com o
sentido essencial da República, da tripartição real de Poderes”), íntegro do
ponto de vista institucional (“unidade não é unanimidade”) e humilde (juízes
não são “criaturas sobre-humanas”). São atributos que hoje são relativizados na
Corte até no campo das intenções, que dirá no comportamento cotidiano de alguns
ministros.
Ao tratar da necessidade de “autocorreção”
diante dos colegas, Fachin reconheceu implicitamente que algo está errado no
Supremo. Não é trivial um chefe de Poder admitir falhas em público. Lembrando
que “momentos de adversidade exigem mais do que discursos” e que “os ministros
respondem pelas escolhas que fazem”, o presidente do STF rompeu com o espírito
de corpo e a autoindulgência que, em tempos recentes, levaram à confusão entre
críticas legítimas à Corte e “ataques” contra a instituição. Fachin, desta vez,
fez questão de explicitar que o “respeito à liberdade de expressão e de
imprensa não são concessões” e que “a crítica republicana não é mesmo ameaça à
democracia”. Este jornal não poderia esperar um posicionamento melhor do que
esse.
As referências à autocorreção, ao respeito
aos limites institucionais e ao resgate da reputação social do STF não foram
gratuitas. Tampouco o é a proposta de um código de conduta, tratada por Fachin
como um “compromisso de sua gestão” e materializada na indicação da ministra
Cármen Lúcia como relatora do texto que, oxalá, verá a luz do dia no futuro
próximo. Instituições só têm o valor que têm no Estado de Direito porque os
cidadãos confiam que seus integrantes se pautam pela impessoalidade, pelo
interesse público e pelo estrito cumprimento das leis e da Constituição. Quando
essa confiança se esvai, instituições não são mais do que os mármores que as
adornam.
Os fatos que têm degradado a confiança da
sociedade no STF são irrefutáveis. Há ministros que parecem acreditar piamente
que estão acima de quaisquer controles ou obrigações morais. O caso do Banco
Master é o exemplo mais bem acabado dessa degeneração. Dias Toffoli não se
sente impedido de relatar as investigações de executivos do banco suspeitos de
crimes financeiros, não obstante seus irmãos terem mantido relações comerciais
com alguns dos investigados. Seu colega Alexandre de Moraes, por sua vez,
gravita perigosamente em torno do mesmo caso em razão da contratação do
escritório de advocacia de sua mulher pelo dono do banco, Daniel Vorcaro, sem
descrição de serviços prestados compatível com a exuberância dos honorários (R$
129 milhões). A mera suspeita de compra de acesso a um ministro do STF é
devastadora para a credibilidade da Corte.
É nesse contexto que as palavras de Fachin
soam como música para os ouvidos dos verdadeiros democratas. Ao lembrar Piero
Calamandrei, ao defender a liberdade de imprensa como pilar do debate público e
ao reconhecer que o respeito à separação real de Poderes é condição
indispensável para a saúde da República, o presidente do STF apontou o caminho
correto. Mas discurso, por mais bem construído que seja, não substitui ação.
Se os ministros “respondem pelas escolhas que
fazem”, como disse Fachin, é mais que hora de demonstrar a coragem e a
humildade de assumir a responsabilidade que lhes cabe por comportamentos
impróprios e em tudo contrários à dignidade da toga. É indispensável que
conflitos de interesse sejam tratados com transparência, que a colegialidade seja
restaurada e que, por fim, o Supremo abandone a tentação de governar o País a
partir do plenário ou, pior, de um gabinete.
Fachin deu o norte. Agora, resta ver se seus
colegas terão a coragem de se reconhecer no espelho que lhes foi apresentado
para, finalmente, recobrar o prumo da institucionalidade.
Segurança pública sem improviso
Por O Estado de S. Paulo
É bem-vindo o compromisso da Câmara de
priorizar a PEC da Segurança na volta aos trabalhos. Mas, se o debate for
capturado pela disputa ideológica, o crime, mais uma vez, agradecerá
A ansiedade da população com a segurança
pública não é produto de histeria nem de manipulação eleitoral, mas de um
fenômeno alarmante. O Brasil, historicamente um dos países mais violentos do
mundo, já não enfrenta apenas a criminalidade difusa ou episódica, mas
organizações altamente estruturadas. Como resumiu, em entrevista ao Estadão, uma das maiores
autoridades no combate ao crime organizado, o promotor Lincoln Gakiya,
organizações como PCC e Comando Vermelho atingiram outro patamar: dominação
armada de território, infiltração na economia formal e atuação transnacional.
Confrontos espetaculares, com alto custo
humano e baixo retorno estratégico, rendem manchetes, mas não resultados
duradouros. No polo oposto estão iniciativas baseadas em inteligência, articulação
institucional e foco econômico. Operações como a Carbono Oculto mostraram como
as facções operam como agentes econômicos sofisticados, explorando brechas
regulatórias e mercados formais. Para combater essas “multinacionais do crime”
é preciso rastrear fluxos financeiros, confiscar ativos e desarticular redes
empresariais.
Nada disso autoriza incorrer na tentação,
comum a certo idealismo progressista, de recriminar o uso legítimo da força ou
desmoralizar o papel das polícias. A repressão deve ser implacável e, quando se
enfrentam narcomilícias, combates armados são incontornáveis. No entanto,
“quando a gente fala em retomada do território, não é só entrar em confronto
com aquele criminoso que está armado”, adverte Gakiya. Sem ocupação permanente
do Estado, o desfecho é previsível: “Quando a polícia sai, o crime organizado
retorna, e retorna com mais força e oprimindo ainda mais a população”. A
inteligência e a força são complementares e devem ser articuladas como parte de
uma estratégia de Estado, e não instrumentos de improviso político.
Diante desse quadro, é bem-vindo o
compromisso da Câmara dos Deputados de priorizar a PEC da Segurança Pública no
início dos trabalhos legislativos. Mas, em ano eleitoral, o risco é repetir
erros recorrentes. Um deles é o de produzir sinais contraditórios. Não faz
sentido endurecer penas de um lado e, de outro, afrouxar a sua execução ou
multiplicar brechas jurídicas. Quando o Estado se mostra severo no discurso e
leniente na prática, alimenta o descrédito institucional e fortalece quem se
pretende combater.
Outro vício é o de transformar um problema
estrutural em arena de rivalidades partidárias ou corporativas. Como alerta
Gakiya, disputas institucionais e políticas prejudicam o combate a organizações
criminosas. A Lei Antifacção, por exemplo, trouxe avanços no fortalecimento de
instrumentos patrimoniais e na ampliação da cooperação entre órgãos. Persistem,
contudo, lacunas relevantes. A resistência à criação de uma autoridade
antimáfia – inspirada em modelos bem-sucedidos da Itália, do Reino Unido ou dos
EUA – revela mais apego a feudos institucionais do que compromisso com
resultados. Enquanto o crime coopera, se integra e se adapta, o Estado se
fragmenta.
Crimes interestaduais e transnacionais não
podem ser combatidos por estruturas isoladas. Isso não significa centralização
cega nem atropelo federativo, mas integração funcional: polícias, Ministérios
Públicos, órgãos de controle e inteligência financeira atuando de forma
articulada, com objetivos claros e responsabilidades definidas. A PEC não é
panaceia, mas pode – se bem calibrada – corrigir distorções, fortalecer a
coordenação e oferecer base legal a instrumentos que hoje operam de forma
precária ou conflitiva.
O Brasil já perdeu tempo demais encenando
respostas fáceis – e inócuas – a desafios estruturais. Uma esquerda míope já
perdeu tempo demais tratando a criminalidade como mera questão de justiça
social. Uma direita míope já perdeu tempo demais tratando facções como mero
caso de polícia. A escolha é enfrentar o crime como ele é ou continuar
administrando o medo.
A segurança pública exige menos bravata,
menos simbolismo e mais método. Se o debate da PEC servir para isso, terá
valido a pena. Se for capturado pelo partidarismo ideológico, o País
desperdiçará mais uma oportunidade – e o crime, mais uma vez, agradecerá.
Financiando a má qualidade
Por O Estado de S. Paulo
Cerca de R$ 3,7 bi do Fies sustentam cursos
de Medicina mal avaliados, distorção que precisa ser corrigida
O Estadão revelou
recentemente que o governo federal destinou R$ 3,7 bilhões do Fundo de
Financiamento Estudantil (Fies) a cursos de Medicina com avaliação
insatisfatória, incluindo universidades com notas 1 e 2 no Exame Nacional de
Avaliação da Formação Médica (Enamed). Essas instituições concentram quase 17%
dos contratos ativos do Fies em Medicina, segundo dados do Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do Ministério da Educação (MEC). O
porcentual pode ser ainda maior, se considerados os cursos não avaliados pelo
Enamed.
Extraídos de informações oficiais, os números
expõem uma distorção grave e persistente na política de financiamento do ensino
superior: recursos públicos vêm sendo usados para sustentar formações caras e
de baixa qualidade, sem mecanismos eficazes de indução à melhoria. O quadro se
torna ainda mais perturbador quando confrontado com os resultados do Enamed,
divulgado há duas semanas, segundo os quais um terço dos cursos de Medicina do
País não alcançou desempenho satisfatório.
O diagnóstico desmonta a ideia de falhas
pontuais. Mostra que o Estado não apenas falhou em exigir qualidade como
condição para o repasse de recursos, como acabou funcionando como sustentáculo
de instituições reiteradamente malsucedidas. Após a divulgação do Enamed, o MEC
proibiu novos contratos do Fies em cursos com menos de 50% de alunos
proficientes e anunciou a abertura de processos administrativos e medidas de
supervisão para todos os cursos mal avaliados. É uma reação necessária, ainda
que tardia.
Nada disso, afinal, é novidade. Nos últimos
anos, relatórios do Tribunal de Contas da União e estudos acadêmicos sobre a
expansão do Fies no setor privado já apontaram que o programa passou a operar
com incentivos frágeis à qualidade. Ao reduzir o risco econômico das
instituições sem exigir contrapartidas acadêmicas robustas, o financiamento
público estimulou a proliferação de cursos de alto custo e baixo valor
formativo.
No caso da Medicina, os efeitos dessa lógica
são ainda mais sensíveis. A abertura e o financiamento de vagas dissociados de
critérios rigorosos de infraestrutura, corpo docente e desempenho acadêmico
produzem impactos duradouros, como a formação deficiente de profissionais, a
concentração regional de cursos mal avaliados e a pressão adicional sobre o
Sistema Único de Saúde (SUS), que passa a absorver médicos com lacunas
formativas relevantes.
O problema, portanto, vai além do desperdício
fiscal. Financiar cursos ruins numa área sensível como a Medicina significa assumir
riscos sociais relevantes. O argumento da ampliação do acesso não pode servir
de álibi para a complacência com a mediocridade. Inclusão sem qualidade é uma
forma disfarçada de exclusão.
O poder público não pode mais alegar desconhecimento. Os dados são reiterados, os diagnósticos são antigos e as consequências, conhecidas. Persistir nesse modelo é aceitar conscientemente uma política pública que falha justamente onde não poderia falhar. Urge corrigir o rumo.
STF começa o trabalho de criação um de código
de ética
Por Valor Econômico
As suspeitas levantadas pelo caso Master
sobre a legitimidade da atuação de ministros da Casa contribuíram à exigência
de normatização da conduta republicana para a Corte
Após grande clamor da sociedade civil, o
ministro Edson Fachin colocou como compromisso de sua gestão no comando do
Supremo Tribunal Federal (STF) a criação de uma Comissão de Ética para
elaboração de um código de conduta para a instituição. Na abertura do ano do
Judiciário, Fachin deu o primeiro passo para isso ao nomear a ministra Cármen
Lúcia para ser a relatora da comissão. O presidente do tribunal ressaltou, logo
na abertura de seu discurso, que um momento de “adversidade” como o atual exige
“responsabilidade institucional, clareza de limites e fidelidade absoluta à
Constituição da República”.
Processos decorrentes da liquidação do Banco
Master, que desvendou uma rede de apoio a malfeitos financeiros do banqueiro
Daniel Vorcaro, foram assumidos, polemicamente, pelo STF, e as investigações da
imprensa e da Polícia Federal revelaram ligações financeiras de parentes de
magistrados com envolvidos no inquérito da instituição financeira. Foi mais uma
crise para o Supremo, já assediado durante anos pelos ataques do então presidente
Jair Bolsonaro e seus partidários e pela rebelião do Legislativo diante das
exigências absolutamente legítimas do STF por absoluta transparência no trato
das emendas parlamentares.
Fachin, em princípio, fez uma correção em relação
a uma manifestação anterior na qual identificou críticas ao tribunal como
ataques à democracia, para deixar claro agora que “a liberdade de expressão e a
de imprensa não são concessões” e que “a crítica republicana não é mesmo ameaça
à democracia”. Em sua visão, a realidade vivida pelo Supremo é resultado de um
“deslocamento da pressão institucional”. As demandas por inclusão política,
social e por representação e direitos, que são “estruturais”, persistem e são
absorvidas, mediadas e transformadas em políticas públicas pelas instituições.
Mas agora parecem ter deixado de sê-lo, com a “saturação” dos canais por onde
os conflitos são resolvidos: partidos políticos, Legislativo e Executivo.
O diagnóstico é que a pressão institucional
se deslocou porque a fragmentação partidária “impede a formação de maiorias
estáveis, o custo de governabilidade se torna proibitivo, a responsividade do
sistema representativo cai abaixo de um limiar mínimo e a confiança nas
instituições representativas se erode”. O deslocamento da pressão foi também em
direção ao Judiciário. “O Supremo foi impulsionado e ao mesmo tempo colocou-se
em direção ao centro do sistema institucional das decisões do Estado de Direito
democrático”, afirmou.
Nessas circunstâncias, o papel institucional
do Supremo tem de ser reafirmado e garantido por comportamentos estritamente
delineados pela Constituição e por imperativos éticos. As suspeitas levantadas
pelo caso Master sobre a legitimidade da atuação de ministros da Casa foram
mais um estímulo à exigência de normatização da conduta republicana para a
Corte, quando antes o pressuposto ético era tido como imanente ao cargo
exercido, independentemente das ações dos ministros.
O regramento ético tornou-se então
necessidade. “O protagonismo tem seus ônus e efeitos para a legitimidade
institucional. Os ministros respondem pelas escolhas que fazem. As decisões que
tomamos, os casos que priorizamos, a forma como nos comunicamos — tudo isso
importa”, afirmou Fachin, para quem chegou a fase da “retomada plena da
construção institucional de longo prazo”. A retomada é na verdade um
“reencontro” como a essência da República, a saber “a tripartição real de
Poderes e da convivência harmônica e independente, com equilíbrio
institucional”.
Na balança de poderes, o Judiciário terá de
ocupar seu lugar, aceitando o “desafio de reconhecer o protagonismo do sistema
político nas funções que são dele”. Para Fachin, a melhoria das instituições
virá pelo exemplo da Corte, um desafio que pode ser mais difícil que outros já
vividos pela Corte, porque “exige não a coragem de agir, mas a sabedoria de
calibrar a ação, a paciência da construção institucional”. O código de ética
inscreve-se nessa missão. Não à toa Fachin cita em seu discurso o jurista
italiano Piero Calamandrei, que criticou, diante de problemas da justiça, a
ideia de que os magistrados são “criaturas sobre-humanas, não atingidas pelas
misérias desta terra”.
A escolha de Cármen Lúcia, hábil e
persistente negociadora, foi feliz. Em sua missão ela terá de avaliar com atenção
a permissão, aceita em decisões recentes do STF, de que ministros julguem
causas nas quais advoguem parentes seus, da falta de transparência da
remuneração direta ou indireta de membros da Corte que participem de eventos
privados financiados por empresas e bancos com interesses em causas no Supremo,
da conveniência dessa participação, e das declarações públicas sobre assuntos
que ainda serão objeto de julgamento, entre muitos outros assuntos em que a
imparcialidade, integridade e transparência das decisões possam estar em jogo.
Não está claro, mas precisaria em algum momento ficar, quem será o responsável pela aplicação do código e por apontar seus desvios. Se bem-sucedida, a iniciativa de Fachin trará um dos mais importantes aperfeiçoamentos das práticas do STF em muitos anos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.