Supremo que pode tudo não é bom para o país
Por Folha de S. Paulo
Reforma da corte exige fim de vínculos com
parentes, decisões individuais duradouras e inquéritos anômalos
Hoje não há norma ou lei que resista ao STF quando elas contrariam interesses pessoais e corporativistas dos ministros; isso deveria mudar
A hipertrofia do Supremo Tribunal Federal e
do poder pessoal de seus 11 integrantes atingiu uma dimensão difícil de
conciliar com a tranquilidade institucional. Se não for reformada, a corte
caminhará para tornar-se uma organização de Estado imune a controle,
responsabilização e limites.
O escândalo do Banco Master expôs as entranhas e os riscos dessa anomalia que se desenvolve há décadas, favorecida pelo desenho constitucional de 1988 e moldada pelas más escolhas de agentes públicos.
Num exemplo da latitude dos ministros para
determinar individualmente as fronteiras de seu campo de atuação, Dias Toffoli ordenou
a subida do caso para o STF baseando-se
num negócio imobiliário que nem chegou a ser consumado entre o dono do banco
fraudador e um deputado.
Decerto já conhecia a sociedade entre
parentes seus e um fundo envolvido nas falcatruas do Master, num resort
frequentado pelo ministro. Não se declarou suspeito para atuar no caso
nem mesmo
quando esta Folha revelou
aquelas ligações familiares.
O fogo do conflito de interesses já passara
perto de Toffoli sem lhe chamuscar. Duas de suas canetadas subtraíram dos
cofres públicos R$ 18,8 bilhões em multas por corrupção confessada da J&F e
da Odebrecht, a despeito de a empresa dos irmãos Batista manter sob contrato a
então esposa do magistrado.
Toffoli estava imune ao impedimento em razão
do superpoder dos ministros de derrubar leis que imponham limites éticos a sua
atuação. Foi o que ocorreu em agosto de 2023, quando sete ministros declararam
inválida a norma que proibia juízes de atuar em casos de clientes de parentes,
mesmo que representados por outro escritório.
A acompanhar o voto de Gilmar Mendes contra
a regra moralizadora perfilaram-se Luiz Fux, Cristiano
Zanin, Kassio
Nunes Marques, André
Mendonça, Toffoli e Alexandre
de Moraes, cuja mulher teve escritório contratado por R$ 129 milhões pelo
Master.
Por causa da decisão, Moraes está livre para
julgar ações de interesse do cliente de sua cônjuge.
A derrubada da lei escancarou o caminho para quem deseja exercer influência por
fora dos autos sobre este ou aquele magistrado. Levantamento do jornal O Estado
de S. Paulo mostrou que parentes de ministros do STF participam de 1.860 casos
na corte e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Se o choque de descrédito sobre o Supremo
recomendaria autocrítica aos seus integrantes, no caso de Moraes foram mais
fortes os estímulos dos superpoderes para dobrar a aposta.
Ele abriu mais
um de seus inquéritos anômalos, sem ter sido provocado pela Procuradoria,
desta feita para investigar servidores que, acredita, são os autores de
vazamentos de informações sobre ele e outros ministros.
Juízes não devem meter-se no que a polícia
vai investigar nem atropelar a titularidade do Ministério Público nas ações
penais. Precisam manter equidistância e desviar-se de causas em que eles mesmos
são as vítimas.
Tamanha liberdade para atuar sem freios
produziu outras aberrações, como banir pessoas de redes sociais sem culpa
formada, contraditório ou publicidade.
Até hoje as liminares dos perdões bilionários
de Toffoli não foram julgadas por seus pares.
Em outra liminar monocrática, de dezembro,
Gilmar tirou do bolso do colete uma regra inventada por ele mesmo para proteger
ministros do Supremo de ações de impeachment no Senado. Para admitir o
pedido, decretou o decano, serão necessários dois terços dos senadores, não a
maioria simples da lei.
Hoje não há norma de conduta, lei ordinária
ou emenda constitucional que resista ao Supremo quando elas contrariam
interesses pessoais e corporativistas dos ministros. O próprio Senado nunca fez
tramitar pedido de impeachment de juiz da corte.
O
código de conduta defendido pelo presidente Edson Fachin seria
um passo para reenquadrar os 11 juízes na boa prática de não conceder poder sem
impor limites e cobrar responsabilidade. Urge acabar com a promiscuidade de
parentes advogados, vedar a concessão de viagens e presentes por interessados
em causas e disciplinar a falação fora dos autos.
Decisões individuais precisam ser reduzidas
ao mínimo emergencial e ainda assim não deveriam passar mais de 30 dias sem o
crivo coletivo. Elas jamais deveriam suspender efeitos de leis aprovadas pelo
Congresso. A proscrição é o melhor caminho para os inquéritos de ofício.
Regras menos elásticas para o julgamento de
autoridades com foro especial deveriam ser readotadas. O Brasil se beneficiaria
se a corte julgasse poucas causas de grande relevância pública e
constitucional, distanciando-se de minudências políticas e criminais de uma
pequena elite.
É um erro estratégico de alguns ministros recorrer aos poderes excessivos que amealharam para defender-se a si próprios. Desta vez não há ameaça à democracia que lhes empreste razão nem apoio social. É a democracia que exige uma corte constitucional mais equilibrada e contida.
Decisões controversas do Supremo Tribunal
Dias Toffoli suspendeu multas de R$ 18,8
bilhões por corrupção admitida de J&F e Odebrecht
Por 7 a 4 plenário derrubou em 2023 lei que
impedia juiz de atuar em caso de cliente de parente, mesmo defendido por outro
escritório
Alexandre de Moraes abriu inquéritos anômalos
e intermináveis, sem pedido da PGR em que é ao mesmo tempo investigador, juiz e
vítima
Colegiado alargou em 2025 interpretação para
julgar políticos mesmo depois de eles terem deixado cargo com foro especial
Gilmar Mendes em 2025 aumentou para 2/3 o
quórum de admissão no Senado de ações de impeachment de ministros do STF
Gilmar impediu em 2016 posse de Luiz Inácio
Lula da Silva como ministro de Dilma Rousseff e abriu caminho para condenação e
inelegibilidade do ex-presidente em 2018
Edson Fachin em 2021 decidiu que Curitiba não
era foro para processar Lula, derrubou suas condenações e o reabilitou para
disputar a eleição de 2022
Moraes baniu pessoas de redes sociais em atos
secretos e sem contraditório
Prisão em 2ª instância foi proibida em 2009, autorizada em 2016 e novamente vetada em 2019
Não há como evitar uma nova reforma na
Previdência
Por O Globo
O próprio governo petista admite que mudanças
de 2019 são insuficientes para equilibrar sistema
O ajuste nas aposentadorias promovido pela
reforma de 2019 foi suficiente para segurar o crescimento do rombo da
Previdência, mas os efeitos positivos já se esgotam. Sem demora, o Brasil
precisa de uma nova rodada de mudanças. Como proporção do Produto Interno Bruto
(PIB), o déficit previdenciário cresceu de 2,64% em 2015 para 5,59% no início
da pandemia. De lá para cá, caiu até 3,42% ao fim do ano passado. A queda
recente é consequência das novas regras para aposentadoria e do aumento das
receitas previdenciárias resultante do desemprego baixo. Ambos os fatores,
porém, não são duradouros. O envelhecimento contínuo da população reduzirá o
efeito da reforma de 2019, e o mercado de trabalho não seguirá aquecido para
sempre.
Embora muito se fale sobre expectativa de
vida ao nascer, o conceito mais relevante em termos previdenciários é a
“expectativa de sobrevida”. Na década de 1970, um homem com 60 anos esperava
viver em média mais 16. Hoje são 21. No caso das mulheres, a projeção cresceu
de 17 anos para 24. Não há, obviamente, o que reclamar das conquistas que
permitem uma vida cada vez mais longa. Mas a longevidade cresce ao mesmo tempo
que a fecundidade cai. Até 2060, a população de 0 a 14 anos encolherá 39% em
termos absolutos. No mesmo período, a faixa de 15 a 59 anos sofrerá redução de
18%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
analisados pelo economista Fabio Giambiagi.
Com cada vez menos gente no mercado de
trabalho e idosos vivendo cada vez mais, não há sistema previdenciário que pare
de pé. O próprio governo do PT, partido que sempre relutou em apoiar mudanças
na Previdência, hoje reconhece a necessidade de nova reforma. “É preciso
normalizar ajustes da Previdência, porque ela tem de acompanhar o aumento da
expectativa de vida”, disse ao GLOBO o secretário do Tesouro, Rogério Ceron.
A reforma de 2019 aumentou a idade mínima de
aposentadoria na iniciativa privada (mulheres aos 62 anos e homens aos 65),
mediante regras de transição. Antes, a idade média de aposentadoria por tempo
de contribuição no meio urbano era de inacreditáveis 54 anos, um disparate na
comparação internacional. Apesar dos avanços da última reforma, algumas
aberrações permaneceram intocadas e precisam ser alvo de uma nova rodada de
mudanças.
Militares ainda não estão sujeitos a idade
mínima e passam para a reserva automaticamente depois de 35 anos de serviço. A
diferença de critérios para aposentadorias urbanas e rurais também merece
revisão. O mesmo deve ser feito em relação às diferenças nas regras para homens
e mulheres. O governo também precisa acabar com a indexação das aposentadorias
ao salário mínimo. O Brasil pode escolher se enfrentará a questão
previdenciária logo ou se postergará as mudanças. O certo é que o problema não
desaparecerá. Pelo contrário. Quanto mais tempo se levar para promovê-las, mais
delicada será a situação e mais drásticas terão de ser as medidas necessárias
para equilibrar o sistema.
É sensato alerta emitido pela Anvisa sobre
canetas emagrecedoras
Por O Globo
Registros de efeitos adversos são mínimos,
mas aumento nas notificações exige maior rigidez
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) demonstra sensatez ao exigir maior cuidado no uso das canetas
emagrecedoras, que viraram febre nos tratamentos para perda de peso. Elas são
muitas vezes compradas de fabricantes pouco confiáveis, sem prescrição ou
acompanhamento médico. Embora a medida tenha sido tomada na esteira do aumento
de casos suspeitos de reações adversas, não deve servir de motivo para pânico,
pois os efeitos colaterais não são significativos.
A exigência de retenção da receita
(determinada em junho) e a emissão do alerta atual foram motivadas
principalmente pelo risco de pancreatite, inflamação no pâncreas que pode
surgir de forma rápida e, em casos graves, até levar à morte. A Anvisa
argumenta que o aumento de notificações dentro e fora do país exige mais
rigidez nas regras. De 2020 a dezembro de 2025, foram registradas 145 suspeitas
de efeitos adversos e seis casos com mortes no Brasil.
A pancreatite aguda é incomum e acomete de
0,1% a 1% dos casos. Vários fatores de risco estão implicados no
desenvolvimento da condição, incluindo diabetes e obesidade. De
acordo com a fabricante Novo Nordisk, os pacientes devem ser informados sobre
os sintomas e orientados a suspender o tratamento em caso de suspeita. A
ocorrência de pancreatite por uso de medicações injetáveis para obesidade e
diabetes representa percentual muito pequeno das 40 mil internações por ano
pela doença, segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas Gomes. A maioria dos casos é causada por
cálculos na vesícula ou excesso de bebida alcoólica.
O alerta da Anvisa, diz Gomes, é importante
para conscientizar os pacientes sobre o uso adequado das canetas. “Isso não
deve ser motivo para ninguém suspender o tratamento”, afirma. “O importante é o
paciente ter indicação para usar o medicamento, que ele seja prescrito por um
médico capaz de também fazer o acompanhamento e, sobretudo, que seja adquirido
de um fabricante legalmente estabelecido no Brasil.”
Essas orientações nem sempre são seguidas à
risca. Em janeiro, a Anvisa proibiu venda, distribuição, importação e
propaganda de canetas emagrecedoras contrabandeadas do Paraguai. Elas não têm
registro no Brasil, e sua qualidade, eficácia e segurança não foram atestadas.
Os produtos se tornam atraentes pelo preço mais baixo e entram pelas rotas
usadas pelo tráfico de drogas. Os riscos à saúde são enormes.
A decisão da Anvisa tem o mérito de chamar a atenção para as canetas emagrecedoras. Elas têm sido usadas com sucesso em tratamentos contra diabetes e obesidade, mas, como qualquer produto, exigem cuidados. A automedicação, a compra de canetas falsificadas ou de origem duvidosa podem trazer riscos. Não é o caso de condená-las por efeitos adversos previsíveis e incomuns, mas de usá-las de forma correta, de modo que os benefícios sejam maiores que os danos raros e eventuais.
A irresponsabilidade das citações do Caso
Epstein
Por Correio Braziliense
Aquilo que é de ordem privada e não tem
interesse público jamais deve ser objeto de publicação
Circula nas mídias sociais e em portais de
notícia o fato de a apresentadora e modelo brasileira Luciana Gimenez ter seu
nome citado nos arquivos da investigação envolvendo Jeffrey Epstein —
homem morto em 2019 e condenado por abuso de menores e por operar uma rede de
exploração sexual. Até que se prove o contrário, a simples citação de uma
pessoa nos arquivos - que tiveram o sigilo retirado recentemente por decisão do
presidente dos EUA, Donald Trump — não representa qualquer envolvimento
daquela pessoa nos atos criminosos.
Em investigações que compreendem um grande
volume de informação, é comum que grandes conglomerados de jornalistas dediquem
meses, até anos, àquele material. Aconteceu, por exemplo, com os Panama Papers,
conjuntos de dados de empresas offshores sediadas em paraísos fiscais. Na
ocasião, um time de diferentes veículos investigativos de diversos países se
voltou à publicação de uma série de reportagens - bem apuradas e com a
necessária contextualização - para expor esquemas de lavagem de dinheiro.
A liberação dos arquivos das investigações
contra Epstein, de maneira livre para qualquer pessoa com acesso à internet,
mais atrapalha do que ajuda. Confunde-se transparência com irresponsabilidade.
Todos os dias, dezenas de teorias da conspiração circulam nas mídias sociais,
especialmente no X (antigo Twitter), sobre o envolvimento de fulano ou de
ciclano nos escândalos. Circulam-se listas com todos os nomes citados, como se
todos estivessem no mesmo patamar de suspeição. Algumas acusações fazem
sentido, enquanto outras não se sustentam até que se prove o contrário.
A onda de especulações do Caso Epstein não
tem como combustível somente a divulgação irrestrita dos arquivos das
investigações. A impunidade que cerca todo o escândalo cria na sociedade uma
sede por vingança e punição dos envolvidos, especialmente no ambiente digital,
sempre sedento por caça às bruxas e cancelamentos.
Infelizmente, a verdade é que Jeffrey Epstein
está morto há mais de meia década, outros envolvidos também já faleceram, e até
mesmo testemunhas imprescindíveis para apuração completa dos fatos não estão
mais entre nós. Nunca houve vontade política de apurar o escândalo com
seriedade, diante das primeiras denúncias feitas há até 30 anos.
Epstein, pela enorme condição financeira que
ostentava, estava sempre cercado por gente poderosa. A história conta que essa
elite financeira, branca e masculina raramente sente o peso da responsabilidade
por seus atos. Acontece no Brasil, nos Estados Unidos, na União Europeia e em
qualquer outra parte do mundo.
Em suma, aquilo que é de ordem privada e não tem interesse público jamais deve ser objeto de publicação. Em um mundo no qual dados representam ferramenta de poder, é preciso muita responsabilidade com aquilo que é compartilhado — desde os arquivos Epstein até o consentimento dos direitos de uso de um determinado aplicativo. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica entender o que é verdade, exagero ou mentira nos arquivos da Justiça dos EUA.
A festa dos demagogos
Por O Estado de S. Paulo
No embalo da eleição, Congresso e Executivo
disputam o protagonismo na tramitação do fim da escala de trabalho 6x1,
empobrecendo um debate que pode causar estragos à economia
Diz-se que a eleição é a “festa da
democracia”. A julgar pelo tratamento inconsequente dado pelo Congresso e pelo
Palácio do Planalto às propostas que acabam com a escala de trabalho 6x1, o
pleito deste ano também será uma festa para os demagogos. Como sói acontecer
neste país, o calendário eleitoral dá asas ao pensamento mágico dos próceres de
Brasília. Temas complexos, de profundas consequências sociais e econômicas, são
empacotados para consumo rápido nos palanques físicos e digitais. A discussão
sobre o fim da escala 6x1 caminha a passos largos para ser mais um desses
casos.
A movimentação recente do Legislativo e do
Executivo não deixa dúvidas. O presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), decidiu acelerar a tramitação de uma proposta de emenda à
Constituição que extingue a escala 6x1, enviando-a à Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ). Aparentemente, o rito constitucional – CCJ, comissão especial e,
depois, dois turnos de votação em plenário, com quórum qualificado – contrasta
com a pressa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que gostaria de tratar do
tema por meio de projeto de lei com urgência constitucional. A divergência
formal, contudo, é a superfície de uma disputa pela paternidade da pauta, cujo
apelo popular é ativo valioso neste ano eleitoral.
Motta foi explícito ao confessar que “o
Parlamento quer puxar para si o protagonismo desse tema”. Mais do que isso,
adotou um discurso de fazer chorar de orgulho o mais aguerrido dos militantes
petistas ao classificar o fim da escala 6x1 como “uma pauta histórica da classe
trabalhadora”. É curiosa, mas não surpreendente, essa mudança de atitude do
presidente da Câmara, que, até pouco tempo atrás, tratava o fim da escala 6x1
com as reservas que a matéria impõe. Mas a proximidade da eleição causa mesmo
esse tipo de mutação.
Na visão de Motta, os críticos ao fim da escala
6x1 são os mesmos “pessimistas” que, no passado, teriam sido “contra o fim da
escravidão” ou “a criação da carteira de trabalho”. Segundo esse gigante do
pensamento político brasileiro, sempre que o Brasil teve “coragem de enfrentar
essas pautas”, venceu. A um só tempo, essa analogia é intelectualmente
indigente e politicamente reveladora. Ora, colocar no mesmo patamar a abolição
da escravidão – uma causa civilizatória para cicatrizar uma chaga moral – e a
redução da jornada de trabalho, cujos impactos econômicos são incontroversos, é
o tipo de simplificação que deve ser evitada na tramitação de qualquer projeto
no Congresso, especialmente um dessa envergadura. Eis o nível do debate que se
prenuncia.
A realidade, sempre ela, insiste em
atrapalhar a demagogia. No fim de 2024, quando o fim da escala 6x1 ganhou
tração nas redes sociais, o economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas
(FGV), estimou que a redução da jornada para 40 horas semanais implicaria perda
de 2,6% da renda da economia. Se a redução chegasse a 36 horas, a queda seria
de 7,4%, impacto semelhante ao da recessão causada pelos desatinos da
ex-presidente Dilma Rousseff (ver editorial Uma PEC feita para o palanque,
21/12/2025).
Não se trata, portanto, de ser contra ou a
favor da redução da jornada de trabalho por si mesma, mas de não causar uma
queda deliberada do potencial de crescimento econômico, de emprego e de renda
no País. Mais bem dito: falar no fim da escala 6x1 é, necessariamente, falar em
aumento da produtividade. E o Brasil está longe disso. O País ocupa a
vergonhosa 58.ª posição, entre 69 nações, no Ranking de Produtividade 2025 do
International Institute for Management Development (IMD), atrás de países como
Bulgária e Quênia. Entre 1995 e 2024, mostrou um estudo do Observatório da
Produtividade Regis Bonelli, da FGV, apenas o agro registrou ganhos de
produtividade, na ordem de 5,8% ao ano. A indústria amargou queda média de 0,3%
ao ano no mesmo período.
Ignorar esse quadro é escolher o atraso.
Reduzir a jornada de trabalho pode ser um objetivo legítimo no futuro, não
agora. Tratar do tema sob influência das paixões do debate eleitoral, sem
enfrentar a questão da baixa produtividade, é impingir uma pesada conta à economia
brasileira. E ela chegará depois da festa.
Transição energética só no papel
Por O Estado de S. Paulo
Cobrança de ONGs expõe atrasos, disputas e
fragilidade política do governo Lula na implementação do Plano Clima e na
condução realista da transição energética – um debate que exige pragmatismo
Organizações da sociedade civil têm cobrado
publicamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em duas frentes
centrais da agenda ambiental. De um lado, a execução efetiva do Plano Clima,
instrumento que traduz, em políticas setoriais e ações concretas, os
compromissos assumidos pelo Brasil no combate às mudanças climáticas até 2035.
De outro, a formulação do chamado Mapa do Caminho da transição energética, para
que ele não se transforme em mera peça retórica. O Mapa do Caminho para o fim
da dependência dos combustíveis fósseis e do desmatamento foi apresentado pelo
País durante a COP-30, em Belém, como sinal de liderança climática.
O movimento é revelador. Quando a pressão
parte justamente de entidades ambientalistas, grupo historicamente alinhado à
ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, fica evidente que
há um problema real de ritmo, coordenação e substância na política climática
anunciada como prioridade do governo Lula. Revela também uma disputa de espaço
e direcionamento dessa agenda. Há um tensionamento crescente em torno de seu
conteúdo, que para setores ambientalistas mais empedernidos exige a supressão
acelerada dos combustíveis fósseis, como se a física, a economia e a política
fossem variáveis secundárias.
O Plano Clima é um instrumento previsto desde
a Política Nacional sobre Mudança do Clima, de 2009, e deveria orientar a ação
do Estado brasileiro até 2035 no enfrentamento do aquecimento global. É nele
que se traduz, em metas setoriais e instrumentos operacionais, a Contribuição
Nacionalmente Determinada (NDC) assumida pelo Brasil no âmbito do Acordo de
Paris. Sem esse plano plenamente operacional, os compromissos internacionais
correm o risco de permanecer no campo da retórica, dissociados da gestão
orçamentária e da execução administrativa.
Em dezembro, o governo anunciou a aprovação
das diretrizes nacionais do Plano Clima pelo Comitê Interministerial sobre
Mudança do Clima. Mais de 50 dias depois, porém, a resolução ainda não foi
publicada no Diário Oficial da União, e um conjunto decisivo de estratégias
transversais segue sem validação final. São elas que tratam dos meios de
implementação, do financiamento da transição, da chamada transição justa e dos
mecanismos de monitoramento e transparência. Sem esses elementos, o plano perde
densidade operacional e se fragiliza como política de Estado.
A demora alimenta a insegurança e expõe uma
dificuldade recorrente do atual governo: anunciar diretrizes e propagá-las em
palanques públicos sem garantir uma execução tempestiva. Diretrizes não reduzem
emissões, não organizam investimentos e não alinham interesses setoriais.
Políticas públicas exigem cronogramas, definição clara de responsabilidades e
capacidade de coordenação interministerial.
Esse quadro se insere num contexto mais amplo
de disputa em torno da transição climática e energética. Setores ambientalistas
têm elevado o tom ao cobrar compromissos mais explícitos, sobretudo quanto à
redução da dependência de petróleo e gás. Propostas recentes para o Mapa do
Caminho defendem metas mais claras e prazos definidos. A crítica central é que,
sem isso, o documento corre o risco de se limitar a um exercício declaratório.
A pressão, contudo, não elimina a necessidade
de cautela. A transição para uma economia de baixo carbono é um processo
complexo, que atravessa energia, agropecuária, indústria, transportes e uso da
terra. Exige investimentos vultosos, requalificação produtiva e avaliação
cuidadosa de impactos sociais e regionais. Transições conduzidas por
voluntarismo ou desprezo pelos custos tendem a produzir reação social e
insegurança regulatória.
É por isso que o governo precisa cercar o
Plano Clima e o Mapa do Caminho de cuidados essenciais. Governança,
transparência técnica, realismo e diálogo federativo não são acessórios, mas
condições de viabilidade. O atraso na consolidação do Plano Clima testa a
capacidade do governo de transformar discurso ambiental em política pública
efetiva. Lula gosta de se apresentar como salvador do planeta, mas liderança
climática não se proclama. Exercita-se com planejamento, execução e
responsabilidade.
Portugal escolhe a previsibilidade
Por O Estado de S. Paulo
Socialista se elege como contraponto à
aventura populista do Chega – que se fortalece
Por 67% a 33%, o socialista António José
Seguro venceu o segundo turno da eleição presidencial em Portugal, derrotando
André Ventura, do partido populista de direita Chega. Com a vitória, o Partido
Socialista retorna à presidência após 20 anos.
Em Portugal, o presidente não é chefe de
governo, função que cabe ao primeiro-ministro. Mas, como chefe de Estado, é o
presidente quem tem o poder de, por exemplo, dissolver o Parlamento e convocar
eleições.
Entre os portugueses que votaram – a
abstenção foi bastante elevada, em torno de 50% –, prevaleceu o apreço pela
previsibilidade, já que o segundo colocado, Ventura, viabilizou-se
politicamente pregando a ruptura e vociferando contra imigrantes.
Apesar da forte abstenção, Seguro recebeu o
maior número de votos da história de Portugal: foram quase 3,5 milhões. Além
disso, o porcentual de votos do socialista foi o segundo melhor de um candidato
a presidente desde 1991, quando Mário Soares se elegeu para um segundo mandato
com 70,35%.
É razoável afirmar que em torno de Seguro
formou-se uma verdadeira frente ampla, já que ele recebeu o apoio de partidos
de esquerda à direita. O primeiro-ministro Luís Montenegro, do Partido Social
Democrata (PSD), não apoiou nenhum candidato.
Ventura, por sua vez, teve dificuldade em
aglutinar a direita portuguesa em torno de sua candidatura. Ex-comentarista
esportivo convertido em liderança política, ele é a versão portuguesa do que no
mundo convencionou-se chamar de “antissistema”.
Políticos como Ventura são muito hábeis em
capturar a angústia dos cidadãos com o aumento do custo de vida e a pressão
sobre serviços públicos, como saúde e educação, e em apontar culpados óbvios
para esses problemas: o “sistema” ou a imigração, por exemplo.
Embora questões como o envelhecimento da
população e queda nas taxas de natalidade, especialmente em países europeus
como Portugal, guardem grande relação com as pressões financeiras sobre
serviços públicos, além de justificarem a necessidade de mão de obra imigrante,
é inegável que no dia a dia o cidadão que perde poder de compra fica vulnerável
ao argumento populista de líderes hábeis como Ventura.
Não à toa, apesar de não ter conquistado a
presidência, o Chega emerge fortalecido do pleito eleitoral. O partido, que no
ano passado já havia se convertido na maior força de oposição do Parlamento
português, sai dessa eleição com votação inédita, um feito e tanto para uma
sigla criada em 2019.
Num mundo em que líderes populistas de países
relevantes governam ao sabor de sua vontade pessoal, liquidando a
previsibilidade e aprofundando problemas econômicos, geopolíticos e sociais, é
salutar que os portugueses tenham, neste momento, optado pelo candidato que não
promete nem ruptura nem soluções fáceis.
Contudo, as inquietações econômicas e sociais que desembocaram na criação de legendas como o Chega não deixaram de existir. Ao contrário. As votações recordes que o partido de extrema direita vem recebendo são prova disso. Seguro venceu a eleição, mas Ventura sabe que também tem muito a comemorar.
Estados se livram dos juros na renegociação
de dívidas
Por Valor Econômico
O avanço dos gastos dos Estados teve papel
relevante no aumento do PIB nos últimos anos, e incentivá-los faz parte da
orientação oficial de expandir a economia via financiamento estatal, mesmo que
a dívida pública da União esteja em trajetória de rápida ascensão
O plano de renegociação da dívida dos Estados
será o maior de todos até agora feitos pela União desde o Plano Real. E um dos
mais generosos para os devedores, desde o primeiro acordo feito em 1997 durante
o governo Fernando Henrique Cardoso, proposto para que os Estados se adaptassem
ao fim da hiperinflação. Das várias opções do cardápio oferecido pelo Plano de
Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag), os entes federados escolheram
a melhor delas: 17 dos 27 Estados optaram pela fórmula que lhes permite se
livrar dos juros (hoje de 4%) e ter a dívida corrigida apenas pelo IPCA, além
de prorrogá-la por mais 30 anos, em uma rolagem que se estenderá por 60 anos
após o primeiro acerto.
Vinte e dois dos 27 membros da federação
ingressaram no Propag, segundo o Globo (9-2). Paraíba e Rondônia pagarão IPCA
mais 1% ou 2%. Distrito Federal, Mato Grosso, Paraná, Pará e Santa Catarina não
aderiram.
O Propag foi gestado a partir da iniciativa
do senador Rodrigo Pacheco (MG), então presidente do Senado e pretendente a se
candidatar ao governo mineiro. A tramitação foi rápida, e, após a aprovação, os
vetos do presidente Lula ao plano foram derrubados. O Congresso reinstituiu a
inclusão do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional como parte das receitas
a serem dadas como amortização das dívidas (que reduz juros), um dinheiro que ainda
não existe. Pela reforma tributária, a União começará a repassar aos Estados R$
8 bilhões em 2029, em um crescendo que atingirá R$ 60 bilhões anuais e
totalizará R$ 630 bilhões em 15 anos.
A renegociação de 1997 foi flexibilizada ao
longo do tempo, sempre em favor dos Estados, especialmente a partir da recessão
de 2015. O problema do pagamento de dívidas não é generalizado e se concentra
em poucos dos Estados mais ricos do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul, que detêm 90% dos débitos. Apenas São Paulo
mantém-se em dia com suas obrigações. Mas a União aceitou a renegociação e
estendeu suas condições favoráveis aos Estados que estavam pagando em dia, e
que agora poderão também reduzir os encargos financeiros dos débitos.
Os juros cairão a zero para as unidades da
federação que anteciparam 20% da dívida, algo que pode ser feito com a entrega
de bens móveis e imóveis, cessão de créditos líquidos ou constantes da dívida
ativa, entre outras, que aportarem 1% da parcela devida em um Fundo de
Equalização e mais 1% dela em investimentos específicos. O Estado que não
antecipou nada mas resolveu destinar 2% para o Fundo e 2% para investimentos
também ganhou o direito de se livrar dos juros. O Fundo foi criado para premiar
os Estados que pagaram regularmente os débitos.
O custo do Propag não é pequeno. O governo
abre mão dos juros enquanto o Tesouro Nacional paga as maiores taxas desde 2006
para se financiar. Segundo Manoel Pires, do Centro de Política Fiscal do FGV
Ibre, a União renunciará a algo entre R$ 48 bilhões e R$ 62 bilhões no primeiro
ano do novo regime. Pires previu e acertou que a maioria dos devedores faria a
opção pelo juro zero.
O governo Lula, que não dá prioridade a
contas públicas saudáveis, reproduziu no Propag mecanismo semelhante ao do
regime fiscal criado em 2023, com as previsíveis consequências futuras nos
Estados semelhantes às que se veem agora no plano federal. Os Estados poderão
aumentar suas despesas pelo índice de inflação mais 50% do aumento de receitas,
quando houver, mesmo que seu resultado primário seja nulo ou deficitário. Em
caso de superávit, poderá elevar despesas em 70% do aumento da arrecadação. Até
hoje, os principais devedores, com exceções, se recusaram a cumprir regras de
contenção de despesas e até mesmo a pagar dívidas, obtendo respaldo do Supremo
Tribunal Federal para isso. Pela tradição, é bastante provável que, com mais
dinheiro para investir, aumentem despesas permanentes, como as de pessoal.
Além disso, a parcela dedicada aos
investimentos poderá ser feita em uma ampla gama de atividades. Os Estados
trocarão juros por despesas que em muitos casos seriam parte de suas obrigações
precípuas como poder público: educação técnica profissional, educação em tempo
integral, saneamento, habitação, transportes, segurança pública etc.
O desenho fiscal do Propag reforçará a
tendência de aumento das receitas e gastos estaduais. As despesas primárias dos
Estados superaram as da União em 2024 e não vão parar de crescer. Constituem
hoje o maior impulso fiscal para a economia, enquanto as críticas pelos efeitos
negativos do excesso de gastos recaem apenas sobre a União. A renegociação,
porém, tem a cara do governo Lula, que acha mais importantes os gastos que o
equilíbrio fiscal.
A autorização para obtenção de créditos pelos Estados sem garantia cresceu mais de 30% em 2025, para R$ 85,8 bilhões (Folha de S. Paulo, 1-2), e o governo Lula reviu os critérios de suas capacidades de pagamento para assunção de dívidas. O avanço dos gastos dos Estados teve papel relevante no aumento do PIB nos últimos anos, e incentivá-los faz parte da orientação oficial de expandir a economia via financiamento estatal, mesmo que a dívida pública da União esteja em trajetória de rápida ascensão.
A repetição de um conflito previsível
Por O Povo (CE)
O que deveria ser apenas uma partida de
futebol entre Ceará e Fortaleza tornou-se um confronto de grandes proporções,
pois aos baderneiros interessa apenas o desejo de massacrar fisicamente o
adversário
Foi lamentável, porém previsível, o confronto
violento entre as torcidas organizadas dos times do Fortaleza e do Ceará,
acontecido antes do início do chamado "Clássico-Rei", no último
domingo, o primeiro do ano. Previsível pela repetição desses inaceitáveis
tumultos, como também pela convocação para o enfrentamento por meio de redes
sociais nos dias que antecederam o jogo.
O POVO teve acesso ao inquérito policial que
investiga as ações, mostrando ter havido premeditação para os atos criminosos.
A polícia identificou convocação de duas torcidas organizadas, uma de cada
time, para participar dos confrontos. Algumas imagens mostravam prédios
incendiados e depredados, como um incentivo ao cometimento de crimes.
O que deveria ser apenas uma partida para
cumprir tabela tornou-se um conflito de grandes proporções, pois aos
baderneiros interessa apenas o desejo de massacrar fisicamente o adversário,
que vale para a parcela criminosa de torcedores de ambos os clubes.
É preciso reconhecer que às forças de
segurança é difícil intervir no conflito, pois a briga espalha-se por diversos
bairros, dificultando a tarefa da polícia. Talvez uma ação mais efetiva de
inteligência ajudasse a prevenir futuros embates, antes que irrompam,
identificando os principais líderes dessas gangues, para chamá-los à
responsabilidade por meio de mecanismos legais, antes das partidas
futebolísticas.
Mas desta vez a Polícia Militar agiu com mais
rigor, pelo menos no que diz respeito à quantidade de detidos participantes dos
tumultos, que deixaram três feridos. Foram detidas 357 pessoas, incluindo a
apreensão de 116 adolescentes envolvidos no conflito. Entre os adultos, 57
estão com prisão preventiva decretada. O número de presos é três vezes
superior, se comparado aos detidos do primeiro jogo entre as equipes no ano
passado, quando foram detidos 115 integrantes de torcidas organizadas.
Se a situação já não fosse suficientemente
danosa, uma das principais organizações criminosas que age no Ceará, resolveu
também intrometer-se no assunto. Segundo reportagem publicada na edição de
terça-feira, o Comando Vermelho avisou, por meio de "salves" (ordens)
nas redes sociais, que a briga de torcidas está proibida "totalmente"
proibida, em todo o Estado, ameaçando líderes de torcidas que descumprirem a
decisão.
De acordo com esses comunicados, os
confrontos causam "problemas" para o Comando Vermelho, pois levam o
"sistema" (a polícia) para dentro das "quebradas" (áreas
sob o controle da facção).
Observem como a situação paradoxal, quado uma
facção ordena a outra organização criminosa que pare com seus crimes para não
atrapalhar os de sua suposta competência. Ao cidadão, restar perguntar: como
chegamos a esse ponto? Um questionamento que não vale apenas para o Ceará.

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