Mendonça tem impacto positivo no caso Master
Por O Globo
Ao suspender obstáculos à atuação da PF, novo
relator contribui para a qualidade das investigações
O novo relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, foi feliz nas primeiras decisões que tomou no processo. Mesmo mantendo o caso sob sigilo, autorizou que a custódia, a extração e a análise das provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero seguissem o fluxo normal de todas as operações policiais e determinou que qualquer perito habilitado poderá ser designado para o trabalho. Mendonça também permitiu que a PF voltasse a compartilhar com a CPMI do INSS os dados sigilosos sobre o caso cujo acesso estava restrito à presidência do Senado.
Todo o material recolhido pela PF — incluindo
cem dispositivos eletrônicos — deixará de ficar sob a guarda da
Procuradoria-Geral da República (PGR), e o acesso às provas não estará mais
limitado aos peritos escolhidos pelo relator. A responsabilidade pela
integridade e pela qualidade das provas caberá à PF, como em qualquer
investigação. Os técnicos habilitados a extrair informações de celulares e
computadores serão, como de costume, obrigados a zelar pelo sigilo. A PF também
foi autorizada por Mendonça a seguir a rotina- padrão de colher depoimentos de
investigados ou testemunhas que não requeiram novas autorizações judiciais.
As decisões de Mendonça refletem o bom senso.
Não havia motivo para manter tantas restrições. Ao adotar as regras usuais, ele
permite que o trabalho da PF e da PGR flua sem obstáculos, para que as
informações deem embasamento a acusações e denúncias bem fundamentadas. Ao
permitir acesso à CPMI do INSS, ele dá ao Parlamento a capacidade de promover
uma investigação mais robusta. Com o tempo, poderá decidir se é necessário
manter todo o processo tramitando no Supremo ou se vale a pena devolver à
primeira instância os trechos relativos a suspeitos que não detêm prerrogativa
de foro. Também avaliará se é preciso conservar o nível de sigilo tão alto
sobre todas as informações.
A liquidação do Master, apesar do impacto
reduzido no sistema financeiro, envolve somas bilionárias e gerou um custo
enorme para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido pelos próprios bancos
como seguro para investidores (até determinado limite de aplicação). No
primeiro semestre do ano passado, o FGC tinha em caixa cerca de R$ 150 bilhões.
Pelas últimas estimativas, a quebra do grupo Master, incluindo Will Bank e
Pleno, custará quase R$ 52 bilhões ao fundo. O FGC já anunciou a necessidade de
o sistema bancário repor esses recursos — e tal custo deverá ser repassado aos
clientes. Além disso, entre os ativos do Master não cobertos pelo FGC, parte
relevante está em poder de fundos previdenciários de estados e municípios — e
essa conta recairá sobre o contribuinte. Será preciso também elucidar as
conexões políticas que favoreceram esse tipo de investimento temerário.
Por envolver tantos interessados, é essencial
que qualquer investigação seja conduzida de forma profunda, detalhada e,
sobretudo, transparente. Isso é necessário não apenas para definir
responsabilidades e punir criminosos, mas também para aperfeiçoar a supervisão
e a vigilância do setor financeiro. Mendonça tem plena condição de avançar, com
ajuda da PF, de forma serena no esclarecimento de todas as ramificações do
caso. O êxito nessa empreitada será vital para preservar a confiabilidade do
sistema financeiro.
Uso da IA para conteúdo ilegal expõe
necessidade de maior vigilância
Por O Globo
Plataforma Grok foi usada para criar imagens
eróticas sem consentimento, conteúdo terrorista e desinformação
A exemplo de autoridades estrangeiras, a
Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) emitiu neste mês uma nota técnica
tendo como alvo o Grok, robô de inteligência
artificial da plataforma X, a rede social de Elon Musk.
De acordo com o documento, a plataforma pouco tem feito para evitar ser usada
para gerar imagens hiper-realistas simulando conteúdo erótico até com crianças,
mesmo depois de ter sido admoestada em janeiro por ANPD, Ministério Público
Federal e Secretaria Nacional do Consumidor. Em resposta, advogados da xAI
questionaram os testes realizados pelos técnicos da ANPD e exigiram mais
informações para tomar as providências necessárias.
A ação conjunta para limitar o Grok seguiu
denúncias, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, sobre a circulação de
imagens eróticas produzidas ou alteradas pelo robô. Nos Estados Unidos, o
procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, instaurou inquérito para investigar
a xAI e a proliferação não consentida dos conteúdos. Também foram abertos
processos individuais contra o X. Houve bloqueios imediatos de conteúdos, ainda
em janeiro, em países como Indonésia, Malásia, Reino Unido e na União Europeia.
Se há um mercado integrado e globalizado, é o digital.
A rápida difusão de imagens criadas pelo Grok
chamou a atenção da AI Forensics, ONG europeia com sede na Itália,
especializada em auditoria de algoritmos e sistemas de IA em plataformas
digitais. Entre 25 de dezembro e 1º de janeiro, ela coletou 50 mil menções ao
Grok e 20 mil imagens. Desse total, 51% exibiam pessoas em trajes mínimos, 81%
delas mulheres. Cerca de 2% retratavam indivíduos aparentando ter 18 anos ou
menos. A maioria dos textos que acompanhavam as imagens estava escrita em
inglês, seguido de espanhol, português, francês, turco e japonês.
A pesquisa da AI Forensics constatou o uso do
Grok também na difusão de propaganda de cunho nazista e do grupo jihadista
Estado Islâmico. Foram identificadas ainda 350 personalidades conhecidas nos
arquivos analisados, um terço delas do mundo político, como Donald Trump,
Benjamin Netanyahu ou Emmanuel Macron. A análise da ONG europeia sugere que a
plataforma se tornou um foco para a criação de conteúdo usado para
desinformação.
O Grok é apenas um dos robôs de IA que têm conquistado a cada dia mais público em razão de suas inúmeras aplicações positivas. No X, tem funcionado também para esclarecer dúvidas expondo campanhas de desinformação ou simples conteúdos mentirosos. A tecnologia continuará evoluindo, e não há motivo para duvidar de seus efeitos benéficos e transformadores. Os governos nacionais precisam, contudo, estar atentos. Além de legislações atualizadas, é fundamental que os organismos de supervisão se mantenham vigilantes. Tem de ser um trabalho sem descanso. Que também exigirá tecnologia avançada e recursos para ser realizado com eficácia.
Trump pode muito mas não pode tudo
Por Folha de S. Paulo
Suprema Corte decide que tarifas excepcionais
não podem ser impostas, sob pretextos vagos, por decreto
Desde o chamado Dia da Libertação, em abril
de 2025, o Tesouro americano amealhou cerca de US$ 240 bilhões em receitas
tarifárias
A decisão da Suprema Corte dos Estados
Unidos de declarar
ilegais as tarifas globais impostas pelo governo de Donald Trump representa
um enorme revés político para a Casa Branca. Trata-se de um imperativo
pedagógico sobre os limites do Poder Executivo em democracias consolidadas.
Por uma maioria de 6 a 3, o tribunal decidiu
que a condução da política comercial e a imposição de tarifas excepcionai não
podem ser exercidas por decreto, sob pretexto de necessidades vagas, sem a
autorização do Congresso.
O cerne da questão foi a interpretação
abusiva da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que a
administração Trump utilizou como cheque em branco para remodelar acordos
comerciais à força.
Como bem anotou o presidente da corte John
Roberts, se o Legislativo pretendesse delegar tal poder extraordinário, o teria
feito de forma explícita. Ao ignorar a premissa, o governo não apenas atropelou
ritos institucionais, mas mergulhou a maior economia do
mundo em um cenário de insegurança jurídica.
Os números da aventura protecionista são
vultosos. Desde o
chamado "Dia da Libertação", em abril de 2025, o Tesouro
americano amealhou cerca de US$ 240 bilhões em receitas tarifárias. Estimativas
da consultoria Capital Economics sugerem que o governo pode ser obrigado a
desembolsar cerca de US$ 120 bilhões às empresas prejudicadas.
Ainda não está claro se os EUA terão de
devolver o dinheiro das tarifas às companhias, mas isso seria a materialização
do alerta do juiz dissidente Brett Kavanaugh, que previu uma
"bagunça" administrativa e fiscal se ressarcimento for levado
adiante.
O argumento de Trump de que as tarifas sobre
países como México, Canadá e China eram
necessárias para conter o fluxo da droga fentanil ou reduzir déficits foi visto
com ceticismo não apenas pela Suprema Corte, mas por 11 juízes de instâncias
inferiores.
A tentativa de enquadrar questões de
segurança nacional e saúde pública como emergências econômicas para justificar
as tarifas demonstrou ser uma estratégia juridicamente frágil.
O impacto desse "caos tarifário" já
se faz sentir em centenas de processos de empresas que
buscam reaver o que pagaram. Enquanto isso, a projeção de arrecadar
US$ 1,5 trilhão ao longo de uma década —pilar das promessas de campanha da
segunda gestão Trump— desmorona, deixando um vácuo orçamentário e uma crise de
confiança nos mercados internacionais.
No dia seguinte à decisão da Suprema Corte,
Trump anunciou tarifa extra global de 15% com base na Lei de Comércio de 1974,
que permite taxar importações por 150 dias. Para ultrapassar esse prazo, ele
terá que justificar-se com investigações comerciais.
O episódio é um alerta de que o protecionismo
impulsivo, sedutor para certas bases eleitorais, pode naufragar diante da
racionalidade e do império da lei.
Militar que tenta golpe não é digno de sua
farda
Por Folha de S. Paulo
Se o STM não retirar patentes de Bolsonaro e
quatro oficiais, dirá que Forças toleram ruptura democrática
O julgamento não resolverá todos os problemas
da relação civil-militar, que exige reforma na qual fardados sejam afastados da
política
República fundada por um golpe militar em
1889, o Brasil conviveu durante todo o século 20 com a tutela das Forças
Armadas. Às vezes por iniciativa própria, outras em conluio com setores
da sociedade, os fardados têm uma longa ficha corrida a apresentar.
Tal passado parecia enterrado após o último
ciclo militar (1964-1985) só para ser chacoalhado do lixo da história por Jair
Bolsonaro (PL), após sua derrota para
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
em 2022.
A trama golpista que se estendeu até a
apoplexia dos atos do 8 de janeiro foi diagnosticada, escrutinada e tratada com
rigor legal durante o julgamento promovido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O
ex-mandatário cumpre mais de 27 anos de prisão.
Tão ou mais importante do que a condenação do
capitão reformado por indisciplina no Exército foi sua companhia: estão presos
três generais e um almirante de quatro estrelas, o mais alto posto da
hierarquia.
Nunca houve tal tipo de punição num país
marcado por quase uma dúzia de golpes militares ou tentativas, conta que varia
a critérios historiográficos.
Agora, um novo juízo para os personagens
surge no horizonte, com o fim do
prazo para a apresentação das defesas desses condenados ao
Superior Tribunal Militar (STM), a mais
antiga corte do país, instaurada em 1808.
Caberá aos 15 juízes do plenário do tribunal,
5 deles civis, julgar se os personagens em questão merecem perder suas
patentes. Nada acerca do mérito determinado pelo Supremo estará em jogo, apenas
as estrelas nos ombros dos envolvidos —mesmo seus vencimentos passam para o
parente mais próximo.
Soa e é bizantino, pois há a possibilidade de
alguém apenado por trair a pátria que jurou defender ser considerado pela mais
alta corte fardada digno de integrar o estamento militar.
Tal hipótese é acintosa ao Estado democrático
de Direito, mas pelos relatos vindos do STM não é impossível de ocorrer, apesar
de o Ministério Público Militar ter sido enfático acerca da necessidade de
perda de patente dos réus.
O julgamento não resolverá todos os problemas
da relação civil-militar, que precisa de corajosa reforma na qual políticos
entendam o valor da defesa e fardados sejam afastados da política.
Contudo estará em jogo não somente a imagem dos condenados, já tisnada por seu comportamento pregresso. A Justiça Militar colocará a si mesma e as Forças Armadas como um todo no banco dos réus se derivar para a condescendência.
Explícito abuso de poder
Por O Estado de S. Paulo
Ao divulgar nomes de servidores da Receita
supostamente envolvidos em vazamento e intimar para depor um líder da categoria
que criticou o STF, Moraes opta pela intimidação
No âmbito da investigação sobre possível
vazamento de dados sigilosos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e
familiares, o ministro Alexandre de Moraes divulgou os nomes de quatro
servidores públicos contra os quais foram decretadas medidas cautelares. Tenham
eles praticado ou não atos indevidos, a divulgação seletiva dos seus nomes –
todo o restante do inquérito segue longe dos olhos do público – é pura
intimidação institucional, a explicitar quem está no poder, isto é, a
explicitar quem é a pessoa que todos devem temer.
Não faz nenhum sentido manter o sigilo do
inquérito e trazer a público o nome de quatro pessoas investigadas. Isso não
colabora com o andamento das investigações. Como também não adiciona
rigorosamente nenhuma transparência a um procedimento que, como dissemos nesta
página, nasceu torto (ver o editorial O ‘STF Futebol Clube’ contra-ataca, 19/2,
A3). Afinal, a divulgação foi apenas dos nomes. Não se conhece o que fundamenta
as medidas decretadas contra essas pessoas. Trata-se, repita-se, de uma clara
violência intimidatória.
A investigação começou há pouco. Não houve
sequer a conclusão do trabalho por parte das autoridades policiais. No entanto,
por ordem do ministro Alexandre de Moraes, os nomes de quatro pessoas foram
expostos a todo o País, juntamente com as graves medidas decretadas contra
elas, entre as quais a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático, o uso
de tornozeleira eletrônica e o afastamento da função pública. A Constituição de
1988, vale lembrar, assegura que “ninguém será considerado culpado até o trânsito
em julgado de sentença penal condenatória”.
O segundo fato também está relacionado ao
mesmo inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes. Mas ele é ainda
mais grave, tendo em vista que, além de constituir uma intimidação
institucional, é uma ameaça às liberdades de expressão, de imprensa e de
associação.
Após a inusitada divulgação, na terça-feira
passada, dos nomes dos servidores, duas entidades de classe emitiram notas
críticas ao modo como o Supremo estava conduzindo a investigação. Entre outros
pontos, o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil
(Sindifisco Nacional) lembrou que todos os envolvidos devem ter “direito ao
contraditório e à ampla defesa”. Por sua vez, a Associação Nacional dos
Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco Nacional) defendeu que
eventuais irregularidades deveriam ser apuradas com rigor, mas respeitando
sempre o devido processo legal e a presunção de inocência. Além disso, no
estrito exercício de suas atribuições estatutárias, o presidente da Unafisco
Nacional, Kleber Cabral, concedeu algumas entrevistas a órgãos de imprensa,
reforçando as críticas ao Supremo Tribunal Federal e defendendo os associados.
Pois bem, depois das entrevistas, o ministro
Alexandre de Moraes determinou que o sr. Kleber Cabral fosse intimado a depor
no inquérito sobre o possível vazamento de dados sigilosos de ministros do STF.
Ora, isso é incabível no Estado Democrático de Direito, onde há o direito de
crítica. Ainda vige – trata-se de cláusula pétrea – o inciso IV, art. 5.º da
Constituição: é livre a manifestação do pensamento.
Ninguém pode ser intimado a depor porque
concedeu entrevistas críticas ao STF. Isso é de estonteante evidência. Por mais
incômodo que possa ser a algumas autoridades, há liberdade de expressão e
liberdade de imprensa.
O ministro Alexandre de Moraes ultrapassou
uma nova linha na semana que passou. Não há como transigir com essa abusiva
ordem de coisas. Para agravar a crise de confiança e de autoridade do Supremo,
o ministro tem interesse direto, pessoal e familiar nos fatos investigados.
Nada disso se assemelha ao ideal do poder público numa república, regido pela
impessoalidade, pela transparência e pelo estrito respeito à lei. O rio
republicano precisa voltar ao seu leito institucional.
Negacionismo climático como política oficial
Por O Estado de S. Paulo
Ao revogar a base científica da regulação
ambiental, Trump enfraquece a política climática dos EUA, afronta o consenso
científico e amplia os riscos globais das mudanças do clima
Fiel à sua visão de que as mudanças
climáticas não passam de uma “farsa” promovida por cientistas e organismos
internacionais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a
revogação da chamada endangerment
finding, a conclusão técnica adotada pela Agência de Proteção
Ambiental (EPA, na sigla em inglês) em 2009 que reconhecia os gases de efeito
estufa como ameaça à saúde humana e ao meio ambiente.
Essa determinação era o pilar jurídico da
regulação federal de emissões sob a Lei do Ar Limpo. Ao eliminá-la, o governo
desmonta a base legal que permitia limitar a poluição de veículos, usinas
termoelétricas e setores industriais intensivos em carbono. Trata-se da
supressão deliberada do fundamento científico que amparava, havia mais de uma
década, a política climática federal americana.
Apresentada pela Casa Branca como gesto de
desregulamentação pró-crescimento, a medida tem consequências sérias. Sem o
reconhecimento formal de que dióxido de carbono, metano e outros gases aquecem
o planeta e oferecem riscos concretos, a autoridade da EPA para impor limites
às emissões fica severamente enfraquecida. Abre-se espaço para uma reversão em
cadeia de normas ambientais, com impacto direto sobre padrões veiculares,
controle de poluentes industriais e metas de descarbonização.
Como este jornal já sustentou, a crise
climática não depende exclusivamente de Trump. A economia global segue ancorada
em combustíveis fósseis, que ainda respondem pela maior parte da matriz
energética. A transição impõe custos, enfrenta resistências políticas e não
ocorrerá por voluntarismo ou retórica. O problema é estrutural, atravessa
fronteiras e envolve escolhas difíceis.
Feita essa ressalva, não há como minimizar o
peso da decisão americana. Os Estados Unidos figuram entre os maiores emissores
históricos e atuais de gases de efeito estufa. Quando a maior economia do mundo
decide negar, por ato administrativo, a base científica que sustenta sua
própria regulação climática, informa ao planeta que a ciência pode ser
descartada se contrariar conveniências ideológicas ou interesses de curto
prazo.
O movimento não chega a surpreender. Afinal,
logo nos primeiros dias de governo, Trump retirou novamente os Estados Unidos
do Acordo de Paris, repetindo o gesto de seu mandato anterior. Desde então, o
discurso oficial exalta combustíveis fósseis, estimula a expansão da exploração
de petróleo e gás e trata políticas de transição energética como entraves ao
crescimento. A revogação da endangerment
finding consolida juridicamente uma escolha política feita
desde o início.
Há algo de particularmente perturbador nesse
passo. A decisão de 2009 resultou de décadas de pesquisa científica e teve o
respaldo da Suprema Corte americana. Ao suprimi-la, o governo redefine, por
decreto, a relação entre Estado e conhecimento técnico. É o negacionismo como
política de Estado, e não como mera peça retórica política e eleitoral, como é
mais comum.
Os defensores da medida falam em redução de
custos regulatórios e estímulo ao investimento. Não é um argumento trivial.
Entretanto, o raciocínio ignora que os custos da inação climática são
empurrados para o futuro, sob a forma de eventos extremos mais frequentes,
crises hídricas, insegurança alimentar e pressões migratórias. A conta, cedo ou
tarde, será paga – e dificilmente pelos que hoje celebram a desregulamentação.
No plano internacional, o gesto também
enfraquece um multilateralismo já tensionado. Se a principal potência econômica
relativiza o consenso científico, países hesitantes ganham pretexto para adiar
compromissos e governos autoritários encontram justificativa para flexibilizar
metas. A cooperação climática, que já avançava aos tropeços, fica ainda mais
incerta.
O planeta não começou a aquecer com Trump nem
deixará de aquecer apenas por causa dele. Mas decisões dessa magnitude produzem
efeitos concretos e simbólicos. Ainda que a crise climática seja maior que um
presidente, quando a principal potência do planeta escolhe caminhar na direção
oposta ao conhecimento científico acumulado, o impacto ultrapassa suas
fronteiras e aprofunda um cenário já sombrio. E isso ocorre justamente num
momento em que os sinais físicos do aquecimento se mostram cada vez mais
evidentes.
Uma campanha exemplar
Por O Estado de S. Paulo
STF explica as emendas aos cidadãos, enquanto
o Congresso Nacional se empenha em esconder
A campanha lançada pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) para orientar o cidadão sobre as emendas parlamentares é, a um
tempo, um avanço cívico e um retrato do atraso institucional. Avanço, porque
incentiva a participação popular na fiscalização do gasto público. Retrato,
porque só existe por causa da relutância do Congresso em fazer o que lhe
compete: prestar contas com clareza e decência.
Nos últimos anos, consolidou-se em Brasília
uma cultura de opacidade orçamentária. Ao mesmo tempo em que o Congresso
ampliava o volume das emendas e diversificava suas modalidades, multiplicava
cortinas de fumaça ao seu redor. Os repasses, que deveriam ser instrumentos
legítimos de descentralização e participação dos parlamentares no Orçamento, se
converteram, em muitos casos, em cotas pessoais de influência. Quanto menos
visíveis a autoria e os critérios de alocação, maior a liberdade para
distribuí-los ao sabor de conveniências clientelistas.
Nesse cenário, a campanha De Olho nas Emendas
é meritória. Explica aos cidadãos, em linguagem acessível, o que são as
emendas, quais as suas modalidades, onde buscar informações sobre sua
destinação e como denunciar irregularidades. O desconcertante é que o
Judiciário tenha de fazer o que o Congresso deveria ter feito há anos: promover
rastreabilidade real e aproximar o cidadão do Orçamento.
Transparência exige mais do que despejar
dados técnicos em portais herméticos. É preciso que sejam acessíveis e
compreensíveis. Mas o Congresso resiste, sabota, camufla. Fabrica artifícios
para perpetuar a discricionariedade sobre verbas bilionárias sem plano, sem
controle, sem consequência. Os dados são opacos por escolha. O sigilo é
funcional à lógica da permuta. E pedaços do Orçamento continuam a ser usados
como fundo eleitoral paralelo, instrumento de barganha política e moeda de
poder.
Ao estimular o letramento cívico e digital, o
Supremo busca devolver ao contribuinte uma prerrogativa elementar: a de
fiscalizar quem decide o destino dos recursos que ele financia. A questão é
normativa. Publicidade não é favor, é dever constitucional. Sem ela, a alocação
de recursos se afasta da representação democrática e abre espaço ao loteamento
patrimonialista. Não há meio-termo confortável entre transparência e
obscuridade. Não existe “meia publicidade” compatível com o Estado Democrático
de Direito. Se o gasto é público, a informação também deve ser.
A campanha do Supremo pode marcar o início de uma mudança de cultura – ou pode ser apenas mais um capítulo num embate prolongado entre Poderes. A escolha cabe ao Parlamento. Pode aproveitar a oportunidade para se reabilitar, assumindo a transparência como condição de legitimidade, e não como imposição judicial. Ou pode continuar a tratar a publicidade como estorvo e a fiscalização como afronta. Nesse caso, que não venha se queixar de “interferências” externas. Outras virão – espera-se –, até que o Congresso compreenda que os recursos públicos não pertencem a quem os distribui, mas a quem os financia.
Chance comercial para o Brasil
Por Correio Braziliense
Além de proporcionar reações recíprocas ou
obrigar governos do mundo inteiro a renegociar com os Estados Unidos, o
protecionismo trumpista acelerou a formalização de novos acordos comerciais
O Brasil tem uma oportunidade econômica
relevante em face do revés político sofrido pelo governo de Donald Trump, após
a Suprema Corte norte-americana invalidar parte da política comercial do
republicano. A decisão de suspender determinadas tarifas impostas pela Casa
Branca, sob alegação de que essa prerrogativa cabe ao Congresso, restabeleceu a
chance de exportadores de determinados produtos brasileiros — como
manufaturados, café e frutas — encontrarem espaço no mercado norte-americano.
Mas há um outro caminho que o Brasil deve trilhar, considerando as
circunstâncias políticas nos Estados Unidos.
O tarifaço imposto por Donald Trump provocou
um reordenamento na economia global. Além de proporcionar reações recíprocas ou
obrigar governos do mundo inteiro a renegociar com os Estados Unidos, o
protecionismo trumpista acelerou a formalização de novos acordos comerciais.
Para o Brasil, o passo mais relevante foi a assinatura, em janeiro, do acordo
entre Mercosul e União Europeia. Em processo de ratificação pelos parlamentos
dos países envolvidos, essa parceria tem potencial de criar uma das maiores
zonas de livre-comércio do mundo, com mais de 700 milhões de consumidores e um
PIB de US$ 22 trilhões.
A União Europeia não tratou apenas com o
Mercosul. Em resposta à política protecionista de Trump, o bloco econômico
firmou, também em janeiro, um acordo de livre-comércio com a Índia, igualmente
após décadas de marasmo nas negociações. Em uma rede social, a presidente da
Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, resumiu o impacto dessa união na
economia global: "Europa e Índia fizeram história hoje. Concluímos o maior
acordo de todos. Criamos uma zona de livre-comércio de 2 bilhões de pessoas que
beneficiará ambos os lados".
Considerando que a resistência interna ao
tarifaço do presidente norte-americano deve provocar mais instabilidade
política nos Estados Unidos, cabe ao Brasil manter a busca de novos mercados
para ampliar a pauta de exportações. A decisão da Suprema Corte, fruto de
contestações de importadores norte-americanos, levará necessariamente o país a
rediscutir os fundamentos da política comercial em curso. A questão é saber se
Donald Trump está disposto a contemporizar — o que não o fez nas últimas horas,
ao atacar fortemente os juízes da mais alta instância do Judiciário e
restabelecer, de ofício, uma tarifa global de 10% na última sexta-feira.
Desde o início do tarifaço, em 2025, o
presidente Lula tem dito que o Brasil está aberto para negociação com todos os
países. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tem mantido diálogo constante com
representantes da administração Trump, a fim de superar entraves comerciais
específicos entre os dois países no contexto da política comercial global
lançada pelo presidente republicano. Nesse sentido, a visita de Lula à Casa
Branca, programada para março, pode representar uma distensão e pontuar avanços
no diálogo bilateral.
Mas, enquanto os Estados Unidos enfrentam uma turbulência doméstica em razão da política protecionista de Trump, o Brasil deve seguir o objetivo de diversificar seus parceiros comerciais. Na nova ordem econômica, o multilateralismo desponta como a melhor saída.
Moradia digna é direito de todos
Por O Povo (CE)
Entende-se que o tema ultrapassa quaisquer
contornos religiosos e deve ser uma discussão que alcance toda a sociedade a
fim de que assuma um compromisso concreto diante da realidade da moradia no
País, principalmente das famílias que vivem em situação de vulnerabilidade.
Sempre com um tema oportuno que trata de
questões sociais vividas pelo Brasil, a Campanha da Fraternidade 2026 aborda
a necessidade de moradia digna para todas as pessoas. É uma chance de a Igreja
e a sociedade em geral refletirem acerca das condições de moradia no País,
tratando o assunto como um direito essencial à dignidade humana. A ideia,
segundo a Igreja, é chamar a atenção para o fato de que 6,2 milhões de famílias
brasileiras vivem em condições inadequadas. Além disso, cerca de 328 mil
pessoas estão em situação de rua em todo o País.
A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nesta edição,
apresenta como tema "Fraternidade e Moradia" e o lema bíblico
"Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14). Entende-se que o tema
ultrapassa quaisquer contornos religiosos e deve ser uma discussão que alcance
toda a sociedade a fim de que assuma um compromisso concreto diante da
realidade da moradia no País, principalmente das famílias que vivem em situação
de vulnerabilidade.
No lançamento da Campanha pela Arquidiocese de
Fortaleza, o arcebispo, dom Gregório Paixão, cobrou do poder público mais
empenho quanto à implementação de políticas habitacionais eficazes. Ele
ressaltou a necessidade de investimentos e ações concretas que garantam moradia
digna para todos e informou que, durante esse período, as paróquias da
Arquidiocese estarão mobilizadas a fim de promover ações em áreas onde vivem
pessoas em situação de vulnerabilidade habitacional. O objetivo é garantir que
iniciativas de apoio, orientação e acolhimento cheguem diretamente a quem mais
precisa.
"Estamos mais atentos em todas as
paróquias, buscando encontrar locais onde podemos sugerir que pessoas
atualmente com dificuldade de moradia ou então em situação de vulnerabilidade
possam ser acolhidas", acrescentou.
De acordo com o secretário-geral da CNBB, dom
Ricardo Hoerpers, a moradia não deve ser considerada um privilégio,
mas uma condição básica para que haja o pleno exercício de outros direitos.
"Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças
cresçam em áreas de risco. Não podemos considerar inevitável que a desigualdade
determine quem tem direito a morar com dignidade", analisou.
Já que a Campanha da Fraternidade é uma iniciativa que tem como objetivo despertar a solidariedade, promover a conversão pessoal e comunitária, e debater temas sociais relevantes, propondo ações concretas e transformadoras para a sociedade, que esse assunto seja debatido com veemência. É interessante que haja ações transformadoras para que a realidade de muitas famílias seja mais próspera. É lamentável constatar que o Ceará tem um déficit habitacional estimado em cerca de 227 mil unidades, conforme dados do IBGE, referentes a 2025. É um número que deveria nos envergonhar.

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