domingo, 22 de fevereiro de 2026

O que vai fazer Trump depois de perder a licença para matar no comércio mundial, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Tarifaço era guerra por outros meios. Estados Unidos vão agora dar mais tiros de verdade?

Intervencionismo estatal vai continuar. Até agora, mexeu pouco em PIB e comércio do mundo

A Suprema Corte tirou de Donald Trump a "licença para matar" comercial, a liberdade para aumentar à vontade impostos de importação. Era instrumento importante de guerra econômica e de elevar receita. A redução de poder deve ser compensada pelo recurso a outras leis de tributação do comércio exterior —ou a armas reais. De passagem: o Brasil precisa prestar atenção a essa mudança, que pode ser mais perigosa do que o tarifaço de 40 pontos percentuais.

Trump deve ter problemas políticos de curto prazo, até a eleição de novembro, talvez relevantes para a disputa de cadeiras do Congresso. Em tese, também aumentou um pouco o risco de contestação política ou institucional de suas decisões, até aqui quase nulo. No mais, é difícil acreditar em mudança no conflito comercial ou no programa protecionista e intervencionista do governo americano e em efeitos maiores no desempenho do comércio e da economia mundiais, pequenos até agora.

A Suprema Corte decidiu que um presidente não tem o direito de aumentar imposto de importação com base na Lei de Poderes Econômicos Internacionais de Emergência (IEEPA), a que Trump recorria para mudar tarifas à vontade e em minutos. Era guerra por outros meios.

Dá o que pensar como Trump, sem a IEEPA, vai chantagear outros países. Decerto poderá mexer em tarifas, mas com base em leis que limitam prazo e tamanho do aumento de impostos, exigem processos mais complicados ou autorização do Congresso e dificultam a discriminação de países. Em vez de bombas, terá à disposição algo mais parecido com veneno de ação lenta.

Verdade é que as ameaças tarifárias eram cada vez mais vazias. Trump latiu tarifaços contra países que vendessem petróleo a Cuba, fizessem negócios com o Irã ou que se opusessem à entrega da Groenlândia, mas não mordeu. Recuou por causa de reações dos mercados financeiros e do risco de alta de preços. Ainda assim, tinha bala na agulha. O que vai fazer agora? Dar mais tiros reais?

Nos EUA, talvez a decisão da Suprema Corte inspire algum movimento de contestação política e legal de Trump. Pode advir também um problema do fato de que Trump quer encrencar a devolução de mais de US$ 133 bilhões em impostos recolhidos ilegalmente, o que afeta centenas de milhares de empresas, a maioria pequena. Além do mais, pode ser que o Congresso tenha de votar em julho a prorrogação da tarifa geral de 15%, decretada no sábado por Trump. Tudo isso pode atrapalhar os republicanos na eleição. No entanto, passam a vigorar neste ano descontos relevantes de IR para os americanos.

O tamanho do comércio mundial foi pouco afetado pelo ano de grande tumulto trumpista; não deve ser pior, agora. Deve ter crescido 2,5%, em 2025, em volume, segundo a OMC. A média desde 2011 (após o fim do tumulto da crise que começou em 2008) foi de 2,1% ao ano. A economia americana cresceu 2,2% em 2025, menos do que os 2,8% de 2024. Mas até meados do ano passado se discutia recessão; a Eurozona cresceu só 1,5%.

O protecionismo e as intervenções do governo dos EUA vão durar. Proteções e favores estatais, uma vez concedidos, se entrincheiram politicamente. Joe Biden (2021-24) não cancelou políticas de Trump 1. O establishment "big tech", entre outras "bigs", gostou da geoeconomia de Trump e se acomoda a seu capitalismo de compadres mafioso.

O veneno de Trump agirá no longo prazo, a não ser em caso de grande derrota política nos fronts doméstico e externo.

 

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