sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Olho no olho. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente confirma encontro em março e ensaia novo tom sobre Venezuela e minerais críticos

Lula confirmou que vai à Casa Branca em março. Disse que espera ter uma conversa “olho no olho” com Donald Trump. O objetivo do governo brasileiro é zerar o tarifaço sobre as exportações para os Estados Unidos. Mas o encontro também deve tratar de outros temas espinhosos.

Na primeira semana do ano, os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. A ação deixou dezenas de mortos e inaugurou a “Doutrina Donroe”, que restabelece a diplomacia do porrete na relação de Washington com a América Latina.

O Itamaraty condenou a intervenção militar, e Lula se disse “indignado” com a agressão ao país vizinho. Ontem o presidente mudou de tom e pareceu rifar Maduro, ao afirmar que ele “não é a preocupação principal”. “O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não”, declarou, em entrevista ao UOL.

Na visão do Brasil, a situação de Cuba se tornou mais complicada que a da Venezuela. Há temor de um colapso humanitário na ilha, que sofre com apagões e falta de combustível após novas medidas americanas para endurecer o bloqueio.

Lula pretende defender a autodeterminação dos cubanos, mas seus conselheiros estão pessimistas com a possibilidade de uma distensão. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, deve suas votações na Flórida ao discurso agressivo contra o regime comunista.

Os dois presidentes também devem tratar do combate ao crime organizado. Trump tem citado o tráfico de drogas como pretexto para fazer novas ameaças de uso da força. No Brasil, políticos de direita pregam que facções criminosas sejam rotuladas de terroristas, o que abriria caminho à imposição de sanções ao país.

Lula tentará conduzir a conversa em outra direção. Deve pedir ajuda para enfrentar a sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro. Num telefonema em dezembro, ele disse a Trump que o maior devedor brasileiro mora em Miami. Referia-se ao empresário Ricardo Magro, alvo de megaoperação recente contra fraudes em combustíveis.

Planalto e Itamaraty sabem que a Casa Branca está de olho nas terras raras. Há sete meses, Lula afirmou no palanque que “aqui ninguém põe a mão”. Ontem ele se mostrou mais disposto a negociar, e disse que o tema não é “proibido”. A ideia é condicionar o acesso aos minerais a investimentos para processá-los no Brasil.

 

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