O Estado de S. Paulo
O carnaval do presidente Lula da Silva vai virar espuma. E se fosse Jair Bolsonaro?
A ida do presidente Lula à Sapucaí e a homenagem
que recebeu da Escola Acadêmicos de Niterói são daquelas coisas que levantam
debate, muitas vozes de especialistas, defesa dos governistas e críticas e
ações da oposição, mas... é tudo espuma, pelo menos sob o ponto de vista
jurídico. Só que a questão também é política.
É evidente que Lula tirou uma casquinha eleitoral do “maior espetáculo da Terra” e a escola ganhou visibilidade desproporcional na sua estreia no Grupo Especial. Mas fica nisso. Lula não deve sofrer punições nem deve ter conquistado um único voto e a escola corre o sério risco de ser rebaixada para a Série Ouro.
Diferentemente dos absurdos de Jair Bolsonaro
a cada 7 de Setembro, o governo se cercou de cuidados neste carnaval. Segurou o
ímpeto de Lula e Janja de participar do desfile e pautou o presidente, os
ministros e toda a comitiva para ficarem de boca calada. Apesar disso, ninguém,
da oposição e do governo, acredita que não foi um lance eleitoral. Óbvio que
foi.
Além de forçarem Lula e Janja a “se
comportarem direitinho”, seus assessores recorrem ao argumento de que o governo
não usou dinheiro público na escola (além do que as demais receberam), nem teve
qualquer ingerência no enredo, nas alas, no samba e nas alegorias da Acadêmicos
de Niterói, que teria escolhido Lula apenas pelo seu passado e sua história,
não pelo futuro. Acredite quem quiser. Quem viu o desfile sabe que a verdade,
transmitida ao vivo e gravada e fotografada sob vários ângulos, é que a escola
fez propaganda dos feitos do governo, do número de Lula nas eleições e até da
estrela do PT. E se tivesse sido com Jair Bolsonaro em 2022?
O maior erro da escola, aliás, foi usar um
boneco fantasiado de presidiário, atrás das grades e com uma tornozeleira
eletrônica danificada. Lula e o Planalto não tiveram nada a ver com isso, nem
sequer sabiam com antecipação? Se tiveram ou sabiam, foi uma burrice, porque a
reação seria óbvia, como acabou sendo.
Michele Bolsonaro não perdeu tempo e devolveu
na mesma moeda, com o que chamou nas redes sociais de “registro de um fato
histórico”: “quem foi preso por corrupção foi Lula”. Que tal uma guerra de
bonecos presidiários? E se a escola for rebaixada, vai virar chacota?
A homenagem a Lula passou pelo TSE antes do
desfile, sob argumento de que a Corte não poderia proibir antecipadamente, o
que caracterizaria censura prévia. Também deve passar depois do desfile
realizado e encerrado, sob alegação de que não foi campanha antecipada, apenas
homenagem a um personagem relevante do Brasil. Não dá, porém, para tapar o sol
com a peneira: foi um ato eleitoral e será material da campanha oficial.

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