domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sapucaí não apoiou a ditadura, por Rodrigo Antônio Reduzino*

O Globo/ Ancelmo Gois

Conclusão de que não houve adesismo aos governos dos generais consta da tese de doutorado

"Escola de Samba como expressão política é o enunciado afirmativo de uma intelectualidade negra e todo refino de uma expressão da cultura negra. É o direito a fabular, sonhar e organizar a sua apreensão sobre a realidade social, processo inerente a condição humana, como lembra o saudoso Antônio Cândido no Direito à Literatura.

Escola de Samba como qualquer espaço social, também tem disputa política, falo de território e poder, sempre esteve inserida em diálogo com a institucionalidade, desde de sua origem datada em 1928, quando são fundadas e constroem os seus espaços para desfilarem e existirem pela região da Praça Onze e Estácio a despeito do chamado “carnaval chic” das classes dominantes realizados na Rio Branco. Atreladas a suspeição, criminalidade e a esfera de polícia, fruto do ordenamento social da época que mantém a estrutura historicamente racista até os dias de hoje.

Sobre Escola de Samba e Ditadura Militar, quando afirmam que as agremiações carnavalescas foram adesistas ao regime militar com seus enredos, encobrem todo processo político de disputa social que existiram nesta época. Assim como a reflexão a respeito de quem são os que podem pesquisar, falar, e existir como sujeito político de resistência sobre a Ditadura Militar. Tornando um grupo detentor sobre o campo de produção de saber a respeito do tema e sua memória.

De todos os 108 enredos mapeados na minha pesquisa, ao longo dos anos 70, somente 02 de uma mesma agremiação, a GRES Beija-Flor de Nilópolis, em 1974 e 1975, foram explícitos no apoio ao regime militar. Assinados pelo jornalista Manuel Antônio Barroso, Brasil ano 2000 foi desenhado pelas carnavalescas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, ambas da Escola de Belas Artes, e O grande decênio teve como figurinista Augusto Medeiro e a criação de alegorias de Júlio Matos, carnavalesco que passou pela Mangueira entre outras escolas, como consta no livro Os porões da contravenção de Aloy Jupiara e Chico Otávio. Sendo a maioria dos enredos nacionalistas positivistas do Brasil desenvolvimentista tão almejado e propagado pelo regime militar, mas não de forma direta, temos enredos em sua maioria ufanista ao “Brasil Grande” com suas riquezas naturais e projeto de nação de moderna.

Neste contexto de Ditadura Militar que a disputa política também se deu nas Escolas de Samba, a exemplo da própria Beija-Flor que em 1979 trouxe o enredo Paraíso da Loucura já tendo como carnavalesco o Joãozinho 30 e o Laíla, fazendo um convite ao povo ser livre, apesar de todas mazelas sociais cotidianas enunciadas na letras do samba-enredo, uma critica social a conjuntura da época.

O mito da democracia racial propagado como um dos pilares da unidade nacional do regime militar, foram perturbados de forma direta por diversos enredos que reivindicava o protagonismo negro e da mulher Acadêmico de Santa Cruz 1970 – Bravura, Amor e Beleza Mulher da Brasileira referenciando mulheres guerreiras como a indígena Clara Camarão, a Anita Garibaldi e a negritude, Vila Isabel 1972 – Onde o Brasil aprendeu a Liberdade, Estácio de Sá 1972 – Rio Grande do Sul na festa do Preto Forro, Em Cima da Hora 1974 – Festa dos Deuses Brasileiros, Mocidade Independente de Padre Miguel 1977 – Samba Marca Registradas, que reivindica o samba como africano e referencia vários personagens negros importantes na história cultural do País.

Estes foram alguns de muitos enredos que destoaram do discurso oficial da ditadura, criando fissuras e disputa com a memória oficial do regime da época. Estamos falando de um tempo onde a violência se tornou o modus operandi oficializado e legalizado do Estado brasileiro, onde para negros e pobres historicamente sempre foi uma constante em sua realidade. Os órgãos de repressão institucionais direcionaram seus esforços para Sindicatos, Universidades, Partidos e setores da sociedade civil organizada que disputavam a estrutura do Estado, terceirizando o controle e a contenção das comunidades e favelas a grupos armados faccionados e afins, organizados no contexto urbano em que as Escolas de Samba e a população negra estavam inseridas. Diante deste contexto, a expertise das Escola de Samba é um refino intelectual epistêmico audacioso neste tempo ditatorial. A Escola de Samba desfilou sob os aparelhos institucionais da repressão, sambando na cara da Ditadura com todas seu matiz de cores, seu corpo e todo seu pertencimento, mesmo diante de toda ameaça e violência.

Neste sentido, as Escolas de Samba, com alguns enredos no período da Ditadura Militar, surgem como uma fresta perturbadora da narrativa oficial, mas também provocam setores progressistas e a esquerda da sociedade à reflexão a respeito dos processos de resistência. Possibilitando novas leituras, olhares e compreensão de outros sujeitos políticos invisibilizados pelo regime militar e também por alguns pesquisadores, a respeito de mais um triste e violento período da história brasileira - a Ditadura Militar.

Dizer que a Escola de Samba é adesista ao regime como um todo, reafirma o estigma, a interdição, a invisibilidade de uma comunidade e deste espaço social, mantendo a relação de poder dos que podem falar, existir e ser escutados como sujeito político sobre o tema, como também o reposicionamento da hierarquia social de uma sociedade racista.

É esta assertiva que a minha pesquisa Enredos da Liberdade: O Grito do samba pela Democracia vem apontando, a Escola de Samba como expressão de Cultura Negra é tão generosa que a crítica não cabe só ao regime ditatorial, mas contribui para a reflexão de qual sociedade queremos construir. E que não haverá democracia, ‘redemocratização’ que não leve em conta a participação e existência de negros, indígenas, mulheres, trabalhadores nesta agenda social.

Desta forma a Liberdade sempre foi um grito constante na história da população negra e sua expressão de cultura, acentuada bastante nos anos seguintes em 80 com as Escolas de Sambas com seus enredos críticos"

*Cientista social, mestre em Sociologia pela UFF, Diretor do Departamento Cultural da Mangueira e criador e Diretor de Pesquisa da série na Globoplay "Enredos da liberdade: o grito do samba pela democracia".

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