O Globo/ Ancelmo Gois
Conclusão de que não houve adesismo aos governos dos generais consta da tese de doutorado
"Escola de Samba como expressão política é o enunciado afirmativo de uma intelectualidade negra e todo refino de uma expressão da cultura negra. É o direito a fabular, sonhar e organizar a sua apreensão sobre a realidade social, processo inerente a condição humana, como lembra o saudoso Antônio Cândido no Direito à Literatura.
Escola de Samba como qualquer espaço social, também tem disputa política, falo de território e poder, sempre esteve inserida em diálogo com a institucionalidade, desde de sua origem datada em 1928, quando são fundadas e constroem os seus espaços para desfilarem e existirem pela região da Praça Onze e Estácio a despeito do chamado “carnaval chic” das classes dominantes realizados na Rio Branco. Atreladas a suspeição, criminalidade e a esfera de polícia, fruto do ordenamento social da época que mantém a estrutura historicamente racista até os dias de hoje.
Sobre Escola de Samba e Ditadura Militar,
quando afirmam que as agremiações carnavalescas foram adesistas ao regime
militar com seus enredos, encobrem todo processo político de disputa social que
existiram nesta época. Assim como a reflexão a respeito de quem são os que
podem pesquisar, falar, e existir como sujeito político de resistência sobre a
Ditadura Militar. Tornando um grupo detentor sobre o campo de produção de saber
a respeito do tema e sua memória.
De todos os 108 enredos mapeados na minha
pesquisa, ao longo dos anos 70, somente 02 de uma mesma agremiação, a GRES
Beija-Flor de Nilópolis, em 1974 e 1975, foram explícitos no apoio ao regime
militar. Assinados pelo jornalista Manuel Antônio Barroso, Brasil ano 2000 foi
desenhado pelas carnavalescas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, ambas da Escola
de Belas Artes, e O grande decênio teve como figurinista Augusto Medeiro e a
criação de alegorias de Júlio Matos, carnavalesco que passou pela Mangueira
entre outras escolas, como consta no livro Os porões da contravenção de Aloy
Jupiara e Chico Otávio. Sendo a maioria dos enredos nacionalistas positivistas
do Brasil desenvolvimentista tão almejado e propagado pelo regime militar, mas
não de forma direta, temos enredos em sua maioria ufanista ao “Brasil Grande”
com suas riquezas naturais e projeto de nação de moderna.
Neste contexto de Ditadura Militar que a
disputa política também se deu nas Escolas de Samba, a exemplo da própria
Beija-Flor que em 1979 trouxe o enredo Paraíso da Loucura já tendo como
carnavalesco o Joãozinho 30 e o Laíla, fazendo um convite ao povo ser livre,
apesar de todas mazelas sociais cotidianas enunciadas na letras do samba-enredo,
uma critica social a conjuntura da época.
O mito da democracia racial propagado como um
dos pilares da unidade nacional do regime militar, foram perturbados de forma
direta por diversos enredos que reivindicava o protagonismo negro e da mulher
Acadêmico de Santa Cruz 1970 – Bravura, Amor e Beleza Mulher da Brasileira
referenciando mulheres guerreiras como a indígena Clara Camarão, a Anita
Garibaldi e a negritude, Vila Isabel 1972 – Onde o Brasil aprendeu a Liberdade,
Estácio de Sá 1972 – Rio Grande do Sul na festa do Preto Forro, Em Cima da Hora
1974 – Festa dos Deuses Brasileiros, Mocidade Independente de Padre Miguel 1977
– Samba Marca Registradas, que reivindica o samba como africano e referencia
vários personagens negros importantes na história cultural do País.
Estes foram alguns de muitos enredos que
destoaram do discurso oficial da ditadura, criando fissuras e disputa com a
memória oficial do regime da época. Estamos falando de um tempo onde a
violência se tornou o modus operandi oficializado e legalizado do Estado
brasileiro, onde para negros e pobres historicamente sempre foi uma constante
em sua realidade. Os órgãos de repressão institucionais direcionaram seus
esforços para Sindicatos, Universidades, Partidos e setores da sociedade civil
organizada que disputavam a estrutura do Estado, terceirizando o controle e a
contenção das comunidades e favelas a grupos armados faccionados e afins,
organizados no contexto urbano em que as Escolas de Samba e a população negra
estavam inseridas. Diante deste contexto, a expertise das Escola de Samba é um
refino intelectual epistêmico audacioso neste tempo ditatorial. A Escola de
Samba desfilou sob os aparelhos institucionais da repressão, sambando na cara
da Ditadura com todas seu matiz de cores, seu corpo e todo seu pertencimento,
mesmo diante de toda ameaça e violência.
Neste sentido, as Escolas de Samba, com
alguns enredos no período da Ditadura Militar, surgem como uma fresta
perturbadora da narrativa oficial, mas também provocam setores progressistas e
a esquerda da sociedade à reflexão a respeito dos processos de resistência.
Possibilitando novas leituras, olhares e compreensão de outros sujeitos
políticos invisibilizados pelo regime militar e também por alguns
pesquisadores, a respeito de mais um triste e violento período da história
brasileira - a Ditadura Militar.
Dizer que a Escola de Samba é adesista ao
regime como um todo, reafirma o estigma, a interdição, a invisibilidade de uma
comunidade e deste espaço social, mantendo a relação de poder dos que podem
falar, existir e ser escutados como sujeito político sobre o tema, como também
o reposicionamento da hierarquia social de uma sociedade racista.
É esta assertiva que a minha pesquisa Enredos
da Liberdade: O Grito do samba pela Democracia vem apontando, a Escola de Samba
como expressão de Cultura Negra é tão generosa que a crítica não cabe só ao
regime ditatorial, mas contribui para a reflexão de qual sociedade queremos
construir. E que não haverá democracia, ‘redemocratização’ que não leve em conta
a participação e existência de negros, indígenas, mulheres, trabalhadores nesta
agenda social.
Desta forma a Liberdade sempre foi um grito
constante na história da população negra e sua expressão de cultura, acentuada
bastante nos anos seguintes em 80 com as Escolas de Sambas com seus enredos
críticos"
*Cientista social, mestre em Sociologia pela UFF, Diretor do Departamento Cultural da Mangueira e criador e Diretor de Pesquisa da série na Globoplay "Enredos da liberdade: o grito do samba pela democracia".

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