sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Terras raras, Lula e Trump. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Governo dos EUA organiza sistema de produção e comércio mundial de minerais críticos

Política do Brasil para o setor começa só agora e ainda tem de lidar com ofensiva americana

De 2024 para 2025, o valor da exportação brasileira de terras raras triplicou. Algo anda, mas do quase nada para muito pouco. O valor exportado foi de US$ 13,3 milhões. Um troco, dado o valor total das exportações nacionais, de R$ 349 bilhões.

Em quantidade, as exportações (785,3 toneladas) equivaleram a 1,2% das vendas chinesas. Ironia: 89,8% das exportações foram para a China; 8,4% para a França, 1,4% para a Espanha (contas baseadas nos dados da Secretaria de Comércio Exterior).

Terras raras não são nem serão pote de ouro no fim do arco-íris da economia brasileira —nem um potinho. Mas são oportunidade econômica e possível instrumento de força política internacional (e, assim, talvez para outros negócios).

Desde dezembro, Brasil e EUA negociam acerto sobre minerais críticosLuiz Inácio Lula da Silva voltou a falar do assunto, nesta quinta. Sem terras raras e subprodutos, a indústria de tecnologia avançada, militar e de transição energética para. Mas o valor do negócio não é grande.

Uma encrenca é que o Brasil vai entrar nesse negócio geoeconômico enquanto o governo dos EUA reorganiza a economia dos minerais críticos (terras raras incluídas) por meio de intervenção estatal e arranjo internacional, muita vez por meio de acordos políticos extraídos sob ameaça comercial ("tarifas") ou militar.

Nesta semana, Donald Trump anunciou o "Project Vault" (Projeto Cofre), que é mais do que a formação de um estoque de minerais críticos. É parte do plano de criar demanda regular desses produtos e garantir preços.

Assim, em tese diminui o risco de investir em minas —leva uns oito anos para fazer um projeto desses funcionar; uns cinco anos para criar uma fábrica de processamento (isso depois de aprender a tecnologia, quase toda chinesa). Para incentivar investimento, garantias são necessárias, ainda mais porque China tem poder sobre esses preços. O dinheiro para esse estoque regulador vem do Eximbank (oficial), US$ 10 bilhões, e de empresas (US$ 1,7 bilhões).

Não se trata de um Estado projetando um mercado, mas formatando e subsidiando um negócio crucial para a segurança econômica e militar —ou dele sendo sócio. Aliás, os EUA acabam de emprestar mais dinheiro para a Serra Verde, com opção de se associar a essa brasileira de capital americano-britânico, ora a produtora nacional de terras raras.

Trump 2 fez acordos com Japão, Austrália, Malásia, Tailândia, Vietnã, Camboja etc. Além de garantir acesso preferencial para empresas americanas (no caso de países menores), acertou planos de financiamento de parcerias de extração e processamento, de comércio, de garantia firme de compra de produção e de estabilização de preços. É política industrial até a medula, em acerto internacional.

O mundo já corre para dominar processamento de terras raras e produção de ímãs. Os EUA vão criando um sistema de produção que garanta a sua segurança e isole a China.

A encrenca é como o Brasil vai fazer sua produção e tourear potências; como fazer com que essa produção tenha sentido econômico. Nem sabemos ainda da viabilidade das nossas famosas reservas enormes de terras raras.

Precisamos investir em ciência (não ligamos para isso), talvez arrancar parcerias de pesquisa e investimento dos americanos. A estratégia nacional foi lançada neste janeiro. Mas está quase tudo por fazer em estudo de viabilidade dos recursos e de produção, impulso para pesquisa aplicada e plano geoeconômico.

 

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