O Globo
Com caviar à farta, festas eram repletas de beldades croatas, russas e ucranianas para alegrar os convivas
Um cínico diria que, no território da concupiscência, os operadores da Corte brasiliense refinaram bastante seus métodos. No primeiro governo Lula, lobistas recorreram à autointitulada “promotora de eventos” Jeany Mary Corner para que suas “recepcionistas” azeitassem as relações entre empresários e integrantes da “República de Ribeirão Preto”, como era chamado o núcleo da Fazenda comandado por Antonio Palocci. Os encontros — que, segundo testemunhas, ocorriam numa mansão do Lago Sul, com churrasco, uísque 15 anos e latas de energéticos — hoje parecem festa de quermesse perto do padrão de suntuosidade com que o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, tratava os seus amigos, entre eles vultos da República.
As gentilezas do agora ex-banqueiro — segundo
reportagem da Folha de S.Paulo — incluíam festas em Trancoso, São Paulo, Nova
York e Lisboa. Com caviar à farta e celulares deixados à porta, eram regadas a
Macallans e Petrus, repletas de beldades croatas, russas e ucranianas trazidas
da Europa em jatinhos para alegrar os convivas. As festas em Trancoso, em
especial, despertaram o interesse do Ministério Público junto ao Tribunal de
Contas da União (MPTCU).
— Esses eventos, denominados Cine Trancoso,
teriam contado com a presença de altas autoridades dos três Poderes da
República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior,
pessoal do mercado financeiro, da política e do meio jurídico — diz o MPTCU em
representação ao Tribunal de Contas da União.
Nela, o subprocurador-geral, Lucas Rocha
Furtado, pede ao tribunal que descubra que autoridades federais frequentaram a
casa de Trancoso, já que o envolvimento delas com Vorcaro poderia representar
“risco para a confiança nas instituições públicas”. Furtado destaca que um dos
convidados ao Cine Trancoso afirmou à Revista Liberta ter assistido a um vídeo
da festa “estrelado por figura de alta relevância do Poder Judiciário” — um
“pica das galáxias”, na descrição citada pela revista e reproduzida no
documento pelo subprocurador.
Entende-se a curiosidade do MPTCU — e ela
certamente não é exclusiva do tribunal. Querer, porém, que o TCU investigue que
adultos estavam numa festa em que eventualmente se praticou sexo consensual
parece descabido. O argumento maroto de que é preciso saber se alguma
repartição federal ajudou a financiar o encontro tampouco se sustenta, já que
em eventos do gênero paga quem quer agradar, não quem está ali para ser
agradado — evidentemente, o caso das altas autoridades.
— Tenho amigos em todos os Poderes — disse
Vorcaro em depoimento à PF.
Da rotina do ex-banqueiro, faziam parte
reuniões fora da agenda com o presidente da República, jantares com ministros
do STF e passeios com líderes do governo e da oposição. Uma rede social
impressionante para alguém que até 2016 atuava como CEO na empresa do pai em
Minas e era um perfeito desconhecido nas rodas do poder em Brasília.
Vorcaro foi pródigo em firmar gordas
consultorias “institucionais” — com o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski e
o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, entre outros —, sem falar no milionário
contrato de R$ 130 milhões com a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do
ministro Alexandre de Moraes. Mas sabia que não é só com um punhado de dólares
que se cria intimidade. Os relatos dos embalos de Trancoso sugerem que ele tinha
consciência de que bens de prazer e prestígio — aqueles que dão deleite e
status, a sensação de ser único e VIP — podem, em certas almas, calar tão ou
mais fundo que uma mala de dinheiro. Desde que o mundo é mundo, sexo e poder
andam de mãos dadas com a corrupção.
Há muitos caminhos para convencer alguém a
trocar o dever público por vantagens particulares. Vorcaro, como se vê, não
desconhecia nenhum.

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