O Globo
Para quem joga com as canetas de Brasília, o
caso estaria resolvido. Faltou combinar com a empresa
Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.
Desde a assinatura do decreto por Lula, uma
dezena de povos indígenas combate o que chamam de venda desses rios. Assim como
sucede com as eventuais reservas de petróleo da Margem Equatorial, o governo
diz que pretende apenas estudar a opção. Fica combinado assim. O decreto fala
em dispensa de licenciamento ambiental. (O garimpo ilegal poluiu com mercúrio o
leito do Tapajós e uma dragagem revolveria a terra, contaminando as águas.)
Passou o segundo semestre, e o caso parecia
ser apenas uma guerra de palavras.
No dia 22 de janeiro a encrenca mudou de
aspecto: indígenas e seus aliados bloquearam o acesso de caminhões ao terminal
da Cargill no porto de Santarém. A Cargill opera em 70 países e é uma das
maiores negociantes de grãos do mundo. Em 2021 exportou seis milhões de toneladas
por esse terminal.
Os manifestantes pediam a revogação do
decreto 12.600. (A Cargill nada tem a ver com o estado presente do debate em
torno do decreto de agosto.) Seguiram-se outros bloqueios. Em 13 de fevereiro o
Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar à empresa dando 48 horas para
que o bloqueio fosse encerrado. Palavras ao vento. Seis dias depois uma barcaça
da Cargill foi interceptada.
Na madrugada do dia 21 de fevereiro, os
manifestantes dobraram a aposta e invadiram o terminal da Cargill, 42
funcionários abrigaram-se por três horas em salas trancadas. Um manifestante
exaltado disse, num vídeo, que destruiria instalações do terminal.
Não foi preciso. Na segunda-feira passada o
governo revogou o decreto 12.600 e seus efeitos. Mandou parar tudo, inclusive
as análises neutras da hidrovia do Rio Tapajós e de trechos dos rios Madeira e
Tocantins.
Para quem joga com as canetas de Brasília, o
caso estaria resolvido. O terminal da Cargill foi invadido, o decreto foi
revogado e todos passaram a viver na paz da Amazônia.
Faltou combinar com a Cargill. A empresa
financia projetos para a plantação de cacau no Pará, inclusive em áreas de
pastagens degradadas. Há um estudo para que ela venha a investir até 250
milhões de dólares no cultivo de cacau na região, gerando milhares de empregos
e beneficiando populações originárias. (Nos últimos cinco anos a Cargill
investiu no Brasil mais de R$ 8 bilhões.)
Diante dos acontecimentos de Santarém, com a
exposição da insegurança jurídica que ele produziu, em questão de dias o
projeto do cacau amazônico migrou para o Equador.
Jogo do contente
O ministro da Educação, Camilo Santana,
resolveu reagir aos números do Censo Escolar com o jogo do contente:
“O número de matrículas na educação básica
reduziu, perdemos um milhão de matrículas apenas no último ano. Mas isso não é
um problema, é na verdade um bom sinal de que nosso sistema educacional está
mais eficiente.”
“A queda de matrículas também está
relacionada à diminuição da repetência. Os alunos estão repetindo menos e, com
isso, a gente deixa de ter um inchaço no sistema educacional com alunos fora da
série em que deveriam estar”
O ministro elogiou sua gestão e chegou a
criticar reportagens que mostravam a queda no número de matrículas.
Sumiu um milhão de matrículas e o sistema
melhorou. Quem acredita nisso ganha um fim de semana na Groenlândia. Alguns
fatores citados por Santana são verdadeiros, pois a queda de matrículas na
educação básica reflete um dado demográfico real. Havendo menos crianças,
haverá menos matrículas.
Esse fator não explica a queda no ensino
médio, onde o governo investiu mais de R$ 16,6 bilhões em 2025, com o programa
Pé-de-Meia, concedendo ajudas a quatro milhões de jovens do ensino médio. As
redes estaduais públicas, que concentram 80% dos alunos, perderam 428 mil
matrículas entre 2024 e 2025. Já a rede privada teve uma pequena alta de 0,6%.
Santana perdeu uma oportunidade de discutir
os resultados do Censo Escolar. Pena.
Lulinha, cara e coroa
Eremildo é um idiota e odeia CPIs. O que ele
não consegue entender é que Lula dissociou-se de seu filho Fábio Luís, o
Lulinha, por quaisquer ligações que ele pudesse ter com as malfeitorias contra
os aposentados do INSS. Em dezembro do ano passado ele foi claro:
“Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu
metido nisso será investigado.”
A bancada da oposição na CPI do INSS tentou
ouvir Lulinha, mas foi impedida pelo voto da maioria da comissão. Na semana
passada, quando os parlamentares quebraram o sigilo bancário de Lulinha, a
bancada governista foi aos tapas.
Naquela altura, a Polícia Federal já havia
pedido a quebra do sigilo ao Supremo Tribunal e o ministro André Mendonça a
havia concedido.
O cretino concluiu que os parlamentares
governistas não acreditaram em Lula.
Lula x Flávio
Parecendo jogar parado, Flávio Bolsonaro
aparece empatado numa pesquisa sobre o segundo turno contra Lula, e o Planalto
acordou.
Flávio Bolsonaro não está tão parado quanto
parece. Cinquenta e cinco apoiadores de sua candidatura pagaram para
impulsionar críticas ao PT pelo desfile da Acadêmicos de Niterói. Receberam
entre R$ 100 e R$ 300.
Essa técnica foi uma das marcas da campanha
de seu pai, que gerou o gabinete do ódio.
Tudo bem, mas foi a escola de samba quem
resolveu desfilar criticando as famílias conservadoras.
Zema de colete
Quando era um novato na política, o
governador Romeu Zema queixou-se porque molhou os sapatos ao visitar uma região
alagada.
Passou o tempo e o governador ilustrou-se,
vestindo um colete-emergência. Mudou o modelo e ele e sua equipe passaram a
vestir um colete tão colorido que, pelo andar da carruagem, na próxima enchente
irão à região inundada num carro alegórico.
Lula e seus herdeiros
Lula parece prestes a convencer Fernando
Haddad a disputar o governo de São Paulo. Hoje, o ministro da Fazenda não
parece ser páreo para o governador Tarcísio de Freitas, que o derrotou há
quatro anos.
Olhando a manobra com boa vontade, Haddad
iria para o sacrifício porque não há melhor alternativa.
Olhando com má vontade, esse seria a terceira
derrota eleitoral de Haddad. Como dizia um cacique oposicionista:
“Lula é um urso que come o dono.”

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