domingo, 1 de março de 2026

A Cargill foi invadida, e o governo cedeu, por Elio Gaspari

O Globo

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. Faltou combinar com a empresa

Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.

Desde a assinatura do decreto por Lula, uma dezena de povos indígenas combate o que chamam de venda desses rios. Assim como sucede com as eventuais reservas de petróleo da Margem Equatorial, o governo diz que pretende apenas estudar a opção. Fica combinado assim. O decreto fala em dispensa de licenciamento ambiental. (O garimpo ilegal poluiu com mercúrio o leito do Tapajós e uma dragagem revolveria a terra, contaminando as águas.)

Passou o segundo semestre, e o caso parecia ser apenas uma guerra de palavras.

No dia 22 de janeiro a encrenca mudou de aspecto: indígenas e seus aliados bloquearam o acesso de caminhões ao terminal da Cargill no porto de Santarém. A Cargill opera em 70 países e é uma das maiores negociantes de grãos do mundo. Em 2021 exportou seis milhões de toneladas por esse terminal.

Os manifestantes pediam a revogação do decreto 12.600. (A Cargill nada tem a ver com o estado presente do debate em torno do decreto de agosto.) Seguiram-se outros bloqueios. Em 13 de fevereiro o Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar à empresa dando 48 horas para que o bloqueio fosse encerrado. Palavras ao vento. Seis dias depois uma barcaça da Cargill foi interceptada.

Na madrugada do dia 21 de fevereiro, os manifestantes dobraram a aposta e invadiram o terminal da Cargill, 42 funcionários abrigaram-se por três horas em salas trancadas. Um manifestante exaltado disse, num vídeo, que destruiria instalações do terminal.

Não foi preciso. Na segunda-feira passada o governo revogou o decreto 12.600 e seus efeitos. Mandou parar tudo, inclusive as análises neutras da hidrovia do Rio Tapajós e de trechos dos rios Madeira e Tocantins.

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. O terminal da Cargill foi invadido, o decreto foi revogado e todos passaram a viver na paz da Amazônia.

Faltou combinar com a Cargill. A empresa financia projetos para a plantação de cacau no Pará, inclusive em áreas de pastagens degradadas. Há um estudo para que ela venha a investir até 250 milhões de dólares no cultivo de cacau na região, gerando milhares de empregos e beneficiando populações originárias. (Nos últimos cinco anos a Cargill investiu no Brasil mais de R$ 8 bilhões.)

Diante dos acontecimentos de Santarém, com a exposição da insegurança jurídica que ele produziu, em questão de dias o projeto do cacau amazônico migrou para o Equador.

Jogo do contente

O ministro da Educação, Camilo Santana, resolveu reagir aos números do Censo Escolar com o jogo do contente:

“O número de matrículas na educação básica reduziu, perdemos um milhão de matrículas apenas no último ano. Mas isso não é um problema, é na verdade um bom sinal de que nosso sistema educacional está mais eficiente.”

“A queda de matrículas também está relacionada à diminuição da repetência. Os alunos estão repetindo menos e, com isso, a gente deixa de ter um inchaço no sistema educacional com alunos fora da série em que deveriam estar”

O ministro elogiou sua gestão e chegou a criticar reportagens que mostravam a queda no número de matrículas.

Sumiu um milhão de matrículas e o sistema melhorou. Quem acredita nisso ganha um fim de semana na Groenlândia. Alguns fatores citados por Santana são verdadeiros, pois a queda de matrículas na educação básica reflete um dado demográfico real. Havendo menos crianças, haverá menos matrículas.

Esse fator não explica a queda no ensino médio, onde o governo investiu mais de R$ 16,6 bilhões em 2025, com o programa Pé-de-Meia, concedendo ajudas a quatro milhões de jovens do ensino médio. As redes estaduais públicas, que concentram 80% dos alunos, perderam 428 mil matrículas entre 2024 e 2025. Já a rede privada teve uma pequena alta de 0,6%.

Santana perdeu uma oportunidade de discutir os resultados do Censo Escolar. Pena.

Lulinha, cara e coroa

Eremildo é um idiota e odeia CPIs. O que ele não consegue entender é que Lula dissociou-se de seu filho Fábio Luís, o Lulinha, por quaisquer ligações que ele pudesse ter com as malfeitorias contra os aposentados do INSS. Em dezembro do ano passado ele foi claro:

“Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso será investigado.”

A bancada da oposição na CPI do INSS tentou ouvir Lulinha, mas foi impedida pelo voto da maioria da comissão. Na semana passada, quando os parlamentares quebraram o sigilo bancário de Lulinha, a bancada governista foi aos tapas.

Naquela altura, a Polícia Federal já havia pedido a quebra do sigilo ao Supremo Tribunal e o ministro André Mendonça a havia concedido.

O cretino concluiu que os parlamentares governistas não acreditaram em Lula.

Lula x Flávio

Parecendo jogar parado, Flávio Bolsonaro aparece empatado numa pesquisa sobre o segundo turno contra Lula, e o Planalto acordou.

Flávio Bolsonaro não está tão parado quanto parece. Cinquenta e cinco apoiadores de sua candidatura pagaram para impulsionar críticas ao PT pelo desfile da Acadêmicos de Niterói. Receberam entre R$ 100 e R$ 300.

Essa técnica foi uma das marcas da campanha de seu pai, que gerou o gabinete do ódio.

Tudo bem, mas foi a escola de samba quem resolveu desfilar criticando as famílias conservadoras.

Zema de colete

Quando era um novato na política, o governador Romeu Zema queixou-se porque molhou os sapatos ao visitar uma região alagada.

Passou o tempo e o governador ilustrou-se, vestindo um colete-emergência. Mudou o modelo e ele e sua equipe passaram a vestir um colete tão colorido que, pelo andar da carruagem, na próxima enchente irão à região inundada num carro alegórico.

Lula e seus herdeiros

Lula parece prestes a convencer Fernando Haddad a disputar o governo de São Paulo. Hoje, o ministro da Fazenda não parece ser páreo para o governador Tarcísio de Freitas, que o derrotou há quatro anos.

Olhando a manobra com boa vontade, Haddad iria para o sacrifício porque não há melhor alternativa.

Olhando com má vontade, esse seria a terceira derrota eleitoral de Haddad. Como dizia um cacique oposicionista:

“Lula é um urso que come o dono.”

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