Folha de S. Paulo
A extrema direita irá se adaptar às regras
democráticas se vencer?
O que ocorrer nos EUA pode definir o destino
da democracia mundo afora.
É da maior importância a discussão das
consequências de uma vitória nas eleições presidenciais
das forças de direita lideradas pelo delfim dos Bolsonaros. O debate divide
respeitáveis analistas da política nacional.
Uns acham que, no Planalto, Flávio representaria
clara ameaça à ordem democrática, por reavivar o golpismo que culminou com o
pai na Papudinha. Outros acreditam não haver indícios fortes de que o filho,
mais moderado, siga os passos do genitor.
Em outros termos, o que se debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar ao sistema representativo e que, no governo, não trate de enterrá-lo. O que se conhece do assunto não ampara conclusões cabais. No passado, fascismo e nazismo chegaram ao poder por meio de eleições livres e, rapidamente, aplastaram as instituições representativas e as liberdades individuais. No presente, há exemplos para todos os gostos.
Na Rússia e nos países do Leste Europeu, a
democracia mal chegou a se firmar, tendo sido substituída por regimes
claramente autocráticos. Na Europa Ocidental, o crescimento da extremaO que se
debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar às regras da
democracia representativa direita foi suficiente para transformá-la em potência
política. Tornou-se a segunda força eleitoral na maioria dos países e participa
das coalizões governantes na Finlândia, na Suécia e na Holanda. Mas só na Itália e na
Bélgica, líderes extremistas —Giorgia Meloni e Bart de Wever— chefiam os
respectivos governos. Na Itália, desde a primeira vitória de Silvio
Berlusconi, em 1994, a direita radical adaptou-se às regras da democracia
representativa: quando não ganhou eleições, aceitou a derrota.
A grande incógnita atual são os EUA,
onde Trump investe
furiosamente contra a Constituição, enquanto os freios e contrapesos a seu
empenho autoritário são postos à prova. O que lá ocorrer poderá definir o
destino da democracia na América e mundo afora.
No Brasil, a hipótese segundo a qual, se
vitorioso, o bolsonarismo respeite as regras do jogo assenta-se em duas condições
exigentes.
A primeira é que as instituições
democráticas, tendo prevalecido sobre a vontade dos golpistas, mantenham a
mesma capacidade de impor limites a um governante de apetite autoritário. Ou
seja, espera-se que a imprensa não se dobre; que a sociedade organizada
pressione os Poderes; que governadores resistam; que a maioria do Congresso
trave os projetos mais danosos; que o comando das Forças Armadas não sucumba a
tentações autoritárias; e que o Supremo possa defender o processo eleitoral e
punir os conspiradores. Não custa lembrar que pelo menos um desses requisitos
hoje inexiste: nossa alta corte passa por inegável processo de deslegitimação.
A segunda condição é que Flávio Bolsonaro,
por crença ou cálculo, não só seja mais moderado que o patriarca da família, mas
tenha força para enquadrar o pai e as lideranças que alimentam extremismo nas
ruas e nas redes. Em que pesem suas declarações mais mansas, a promessa de
indulto aos golpistas não indica compromisso efetivo com o respeito às regras
democráticas.
Pode ser que o Brasil siga o caminho trilhado
pela Itália. Isso será tão mais provável se, em lugar de apostar na conversão
do bolsonarismo, os democratas aumentarem o custo do extremismo.

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